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Quando a aposta vira doença: como os CAPS de Maceió acolhem pessoas com compulsão por bets

Prefeitura reforça a rede de saúde mental diante dos impactos das apostas online

Por Larissa Costa - Secom Maceió 09/09/2026
Quando a aposta vira doença: como os CAPS de Maceió acolhem pessoas com compulsão por bets
CAPS de Maceió acolhem compulsivos por apostas online e seus familiares (Foto: Alisson Frazão/ Secom Maceió)

Aviso: esta reportagem contém relatos sobre dependência em apostas, sofrimento psicológico e comportamentos suicidas.

Trinta e sete bilhões de reais. Esse foi o faturamento das empresas de apostas no Brasil em 2025, segundo o Ministério da Fazenda. No mesmo mercado, influenciadores digitais são pagos para divulgar plataformas de jogos online, com remuneração fixa e ganhos que chegam a 30% sobre cada palpite perdido, conforme o Intercept Brasil. A cifra bilionária movimentada pelo mercado de apostas, porém, contrasta com a realidade de quem está do outro lado da promessa de dinheiro fácil: o apostador.

“O saldo é a morte ou o xadrez”, afirma Sihélio Silva Cruz, que frequenta de segunda a sexta-feira a reabilitação no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS AD III), no bairro do Farol, em Maceió.

A história do professor universitário com pós-doutorado em Agronomia acende o alerta para o momento em que a aposta deixa de ser apenas um jogo e se torna um problema de saúde pública.

“Em outubro do ano passado, tive a última recaída. Apostei R$ 2.800 e ganhei R$ 20. Foi quando eu resolvi parar”. No dia em que Sihélio fez o último lance e conseguiu dar um basta nas apostas online, ele já acumulava um prejuízo de R$ 1,5 milhão no patrimônio pessoal, desde que iniciou nas Bets, em 2020.

“Fui ao mercadinho da minha rua, e o dono, que também é meu vizinho, me disse para fazer o cadastro e ficar brincando com R$ 20. Ele falou que, assim, eu teria um dinheirinho por fora. No início, foi muito bom: cheguei a ganhar R$ 41 mil em um dia. Pensei que iria realizar todos os meus sonhos”, recorda Sihélio Cruz.

O ganho inicial aumentou a confiança de Sihélio e a expectativa de faturar ainda mais, mas não foi o que aconteceu. “Gastei em novas apostas, não recuperei e comecei a pedir dinheiro emprestado. Apostei novamente para pagar as dívidas, não ganhei o suficiente para liquidar o que precisava e me vi em uma grande bola de neve. Esse é o roteiro de todo apostador, só muda o CPF”, relata.

Quando iniciou nas apostas, Sihélio já era professor universitário e concursado do Instituto Federal Goiano (IF-Goiano). Em Goiás, se adaptou à vida na roça. A rotina era dividida entre o campo, as salas de aula, o casamento e o companheirismo de Bartolomeu, Godofredo, Teco e da caramelo Neguita, seus quatro cachorros. Apesar da vida estável e com planos para viajar em um Jeep pela América Latina com a esposa, a promessa de algo ainda maior em plataformas com aspecto de brincadeira o fez entrar em um ciclo vicioso, autodestrutivo e aniquilador de sonhos.

“Chegamos a comprar um trailer para a viagem, mas vendemos para pagar as minhas dívidas que adquiri com familiares, amigos e até alunos. Eu, professor universitário, cheguei a pedir 20 reais emprestados a um aluno. É uma coisa maluca, sabe? Você perde grana e o dinheiro também perde valor pra você. Cheguei a fazer uma aposta de R$ 10 mil. Eu perdia R$ 1.000, R$ 2.000, R$ 5.000 em um dia e achava que iria ganhar de novo amanhã. Hoje eu procuro 100 reais na minha carteira e não encontro”, conta Sihélio.

Depois de sucessivas tentativas de parar com as bets, Sihélio Cruz percebeu a desesperança de familiares que já haviam feito diversos esforços para ajudá-lo a lidar com a compulsão e com as dívidas. “Perdi a confiança da minha esposa, do meu irmão e do meu pai. Foi compreensível, porque o compulsivo mente e tira leite de pedra para conseguir o dinheiro. Para o doente, a dívida sanada não é motivo de alívio, mas uma oportunidade para fazer uma nova aposta”, diz.

Ele completa: “Nessa história, ou o agiota lhe pega, ou você tenta se matar por causa da bolada de dívidas ou vai para a cadeia, porque, com certeza, já roubou para fazer aposta”.


O tratamento que fez a diferença

Além de ser pai dos quatro pets, Sihélio Cruz é um professor querido e reconhecido no ambiente acadêmico. Ele já foi homenageado por cinco turmas de alunos pelo desempenho no Instituto Federal Goiano. Só que a produtividade na sala de aula também foi afetada pelas bets.

“Eu tinha uma vida linda, mas só enxergava o celular. Era 24 horas no celular. Eu já não tinha paciência nem interesse para o que não fosse aposta online. Com a ânsia de conseguir mais, eu não enxergava a vida linda que já tinha”, desabafa.

A baixa produtividade no trabalho, a desconfiança de pessoas próximas e o divórcio após 25 anos de casamento foram o ápice para Sihélio aceitar o conselho do irmão, que sugeriu tratamento psicológico em Maceió, onde moram os pais e o restante da família.

Disposto a fazer o que fosse preciso para se salvar do limbo e recuperar a vida usurpada pelas bets, o professor acatou o conselho, pediu formalmente licença do trabalho e, desde fevereiro deste ano, encontra no CAPS AD III, da capital alagoana, a ajuda especializada para o quadro de saúde.

“Aqui é fora do comum. O remédio entra pelo ouvido e sai pela boca. Aqui eu encontro o que não achei em clínicas particulares pelo Brasil. Me surpreendi porque a gente imagina o serviço público como um negócio bagunçado, as coisas caindo aos pedaços; mas não, me sinto muito bem nesse lugar. No particular, as pessoas querem trancar você por pelo menos três meses e isso não funciona comigo. Inclusive em Goiânia, onde moro, não há clínica psiquiátrica que ofereça o que aqui oferece”, comenta.

Questionado sobre o que considera diferente no atendimento do CAPS de Maceió, Sihélio é direto: “Tipo arte, futebol e conversa fora, sabe? Conversar com as meninas da equipe terapêutica e psiquiátrica é muito bom. A relação aqui não é aquela coisa fria entre paciente e médico, que escuta porque é o jeito. Aqui eu me sinto entre amigos; amigos que têm o melhor para me ensinar e para aprender comigo também. E isso é fundamental em qualquer tratamento”.

O professor sabe de cor e salteado o nome de quem o ajuda no CAPS. “Liranise e Suzane foram dois verdadeiros presentes para mim”, destaca. Mas há um nome que, vez ou outra, ele repete com mais entusiasmo: “A Márcia. Eu gosto demais da Márcia, a artesã. Quando estou um pouco ansioso, pergunto se ela vai estar no CAPS em tal hora e se vai ter alguma atividade. Se a resposta é não, ela diz para eu vir mesmo assim. Eu venho e a gente fica jogando conversa fora. Isso eu não encontro em nenhum outro lugar. Sou muito grato à equipe do CAPS Maceió. Foi nesse serviço do SUS que eu fiz novos amigos, me enxerguei em outros acolhidos, vi que não tô sozinho e descobri que gosto de pintar. O que acontece aqui é espiritual”, descreve.


A estrutura da rede municipal

Em 2021, a Prefeitura de Maceió deu início à aplicação de R$ 6,5 milhões em reformas ou construções de novos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Com o recurso, foi possível reformar as cinco unidades de saúde mental especializada e erguer do zero o primeiro CAPS da parte alta da cidade. Localizado no Conjunto Novo Jardim, no bairro Santos Dumont, o novo equipamento público também contribui para ampliar o atendimento às pessoas com problemas relacionados às apostas online, cuja procura aumentou consideravelmente nos últimos dois anos, conforme percepção das equipes técnicas locais.

A dependência de apostas online já representa em torno de 10% do total de casos atendidos pelo CAPS AD III, no bairro do Farol. Diante do aumento da demanda, o Município tem adotado medidas para qualificar o atendimento.

“Além do novo equipamento entregue, houve o início de uma série de capacitações com nossas equipes, inclusive com cursos oferecidos pela Fiocruz, para que o atendimento a essa nova demanda seja o mais eficaz possível”, explica a assistente social e coordenadora do CAPS Farol, Suzane Lima.

O atendimento às pessoas que apresentam problemas relacionados às apostas pode começar na Atenção Primária do Município, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Conforme a avaliação da equipe, os casos que necessitam de cuidado especializado podem ser encaminhados aos CAPS. Para as equipes técnicas, é preciso estar atento ao momento em que a aposta deixa de ser apenas uma atividade de lazer e passa a comprometer a vida financeira, a saúde mental e as relações pessoais.

“Sempre que o jogo deixa de ser um mero lazer e começa a comprometer o orçamento financeiro, a saúde mental ou as relações pessoais, é preciso ficar em estado de alerta e pedir ajuda. Infelizmente, as pessoas procuram ajuda já numa fase de sofrimento muito avançada, com ideações suicidas, casa hipotecada para dar como garantia a empréstimos, agiota batendo na porta, automutilações e outras situações extremas”, explica Suzane Lima.

Sihélio Cruz conta que fez um inventário pessoal depois de utilizar as plataformas de aposta por alguns anos. Na lista de todos os bens que acumulou na vida, além da perda de R$ 1,5 milhão, havia também o luto deixado por vazios emocionais. “Eu falo que o apostador costuma jogar: jogar fora dinheiro, casamento, terreno, imóveis, relações, família. Para você ter ideia de como isso [apostar] muda a química do cérebro da pessoa”, responde.


Uma compulsão difícil de identificar

Como coordenadora do CAPS Farol, Suzane Lima lida diariamente com apostadores compulsivos e com a equipe psicológica que faz o acompanhamento mental desse público. A convivência intensa com quem sofre e com quem auxilia cientificamente no tratamento a permitiu identificar um fator peculiar na compulsão por apostas online, que dificulta o reconhecimento do problema.

“A identificação do problema pode ser mais difícil porque a compulsão está camuflada por uma ferramenta de uso comum e que está na palma da mão 24 horas por dia: o celular. É diferente do que acontece com álcool, cocaína ou crack, por exemplo. Da mesma forma, a dificuldade no diagnóstico acontece porque a doença deixa o apostador intimidado. É menos tabu falar que está com uso exagerado de álcool em vez de dizer que perdeu dinheiro por causa de aposta. E ainda tem a perda do padrão de vida com as dívidas, que mexe na autoestima e na dificuldade de reconhecer isso“, destaca Suzane.

Para quem convive com essas pessoas, as equipes técnicas orientam sobre a importância de se atentar à complexidade do problema. “Não se trata simplesmente de dizer para a pessoa ‘pare de apostar’. A gente precisa ajudá-la a compreender o comportamento e construir outras formas de lidar com as emoções, com os problemas e até com a própria rotina”, explica a psicóloga Liranise Alves. 


Por que os CAPS acolhem essas pessoas?

Um dos questionamentos que motivaram o início da reportagem foi por que centros públicos destinados ao atendimento de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas também recebem pacientes com compulsão por apostas. A resposta de Liranise Alves, psicóloga do CAPS AD em Maceió e que acompanha o caso de Sihélio Cruz, é consenso na comunidade neurológica e psiquiátrica.

“O que o professor de Agronomia enfrenta se chama ludopatia: desejo incontrolável e compulsivo por jogar”, explica. Os efeitos da patologia no cérebro são semelhantes aos do vício em substâncias psicoativas. No caso das apostas, o fator viciante não é a substância, mas a sensação gerada pela experiência de apostar, que ativa o sistema de recompensa do cérebro.

“Inicialmente, o encaminhamento é feito para os CAPS da modalidade AD, que atendem dependentes químicos. Isso acontece por causa da semelhança com drogas, que o efeito psicoativo de apostar causa no cérebro humano. Mas todos os CAPS de Maceió, até por recomendação do Ministério da Saúde, estão aptos a receber esses casos. Isso porque, quem aposta, geralmente sofre com o alcoolismo, dependência de cocaína e também depressão, ansiedade, insônia e comportamentos suicidas”, detalha a psicóloga especializada em saúde mental, Liranise Alves.


Gatilhos ainda presentes

Para se livrar de qualquer estímulo que o levasse a acessar novamente plataformas de apostas, Sihélio Cruz apelou para o que havia disponível como alternativa de alforria. O cadastro na Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Governo Federal, bloqueou o acesso em todas as casas de apostas legalizadas. Ainda na ânsia desenfreada por libertação, jogou fora um celular inteligente e comprou um novo aparelho, apenas para receber e fazer chamadas, com o conhecido ‘lanterninha’.

Apesar das estratégias adotadas para evitar novos estímulos, Sihélio ainda encontra publicidade de apostas no cotidiano. O marketing das plataformas, segundo ele, funciona como um gatilho que pode despertar novamente o desejo de apostar.

“Eu fui escanear a ata da sessão do grupo de apoio Jogadores Anônimos, do qual participo, e infelizmente tive que esperar o anúncio da bet finalizar no aplicativo para só então acessar a função. Também bloqueei meu CPF para impedir novos cadastros nas plataformas das bets. Ainda descartei meu smartphone e comprei um lanterninha, mas a publicidade chega por mensagem de texto. Para quem sofre com isso, são verdadeiros gatilhos”, relata Sihélio Cruz.

O doutor em Agronomia continua empenhado diariamente em se afastar das apostas e reconstruir a rotina. Corre 14 km todos os dias, faz os exercícios terapêuticos recomendados pela equipe técnica do CAPS Maceió e toma os remédios necessários para auxiliar na reabilitação.

Aos 50 anos, Sihélio Cruz acumula títulos acadêmicos, prestígio entre os alunos e memórias de viagens realizadas pelo mundo. Toda essa bagagem, no entanto, não é páreo para conter as lágrimas que tomam seu rosto quando responde qual é o maior e mais urgente sonho. “Só quero reencontrar os meus cachorros. Estou lutando pela guarda compartilhada deles. Tudo o que mais quero é eles e poder continuar comemorando, no fim de cada dia, mais 24 horas longe das apostas”.


Saiba como pedir ajuda

No Sistema Único de Saúde (SUS), a ajuda pode ser obtida diretamente nas Unidades Básicas de Saúde, popularmente chamadas de ‘postinhos de saúde’, ou nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Há também grupos independentes de apoio, como o Jogadores Anônimos (82 99620-2998), que segue o mesmo método do Alcoólicos Anônimos.

Os CAPS de Maceió funcionam de segunda a sexta, das 7h às 21h, com equipes plantonistas aos finais de semana e feriados.

CAPS Dr. Rostan Silvestre: Rua José Maia Gomes, s/n, Jatiúca. 3312-5500

CAPS Enfermeira Noraci Pedrosa: R. Antônio Joaquim de Oliveira, 69 - Jacintinho. 3312-5532

CAPS Dr. Sadi Feitosa de Carvalho: R. Dr. Oswaldo Cruz, s/n - Chã de Bebedouro. 3312-5521

CAPS AD Dr. Everaldo Moreira: R. Barão José Miguel, 378 - Farol. 3312-5517

CAPS Infanto-juvenil Dr. Luiz da Rocha Cerqueira: Av. Pres. Getúlio Vargas, s/n - Conj. José Tenório. 3312-5540

CAPS AD III Novo Jardim: R. Prof. Benedito Olegário dos Santos - Cidade Universitária

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Secretaria Municipal de Saúde

Avenida Fernandes Lima, 2335 - Farol

CEP 57020-250 // Telefone: 82 3312-5400

Horário de atendimento: segunda a sexta, de 8h às 14h.