Medo e autocensura avançam nas escolas e professores relatam pressão para evitar temas básicos
Uma pesquisa inédita realizada pela FGV EAESP em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) revela um cenário de medo, autocensura e pressão política entre profissionais da educação no Brasil, segundo reportagem do Brasil de Fato.
O levantamento mostra que 75% dos 2.235 participantes afirmaram ter receio de sofrer consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos.
Outros 61% disseram que a pressão política limita a autonomia para desenvolver o trabalho da maneira que consideram adequada.
O estudo ouviu profissionais de todas as unidades da Federação entre 23 de junho e 20 de agosto deste ano.
Os próprios pesquisadores, porém, ressaltam que a amostra foi voluntária e não probabilística, portanto, os resultados não podem ser generalizados para todos os professores da rede pública.
Os relatos apresentados no levantamento mostram que o receio não fica restrito a temas tradicionalmente considerados polêmicos.
Professores afirmam estar evitando discussões relacionadas a gênero, sexualidade, vacinação, democracia, racismo e até conteúdos previstos no currículo escolar.
“Estamos adoecendo, cansados, desvalorizados, com medo de agir, falar, contrariar, com medo de represálias”, relatou um dos participantes.
Outro educador resumiu a sensação de perda de autonomia com uma frase que dá dimensão do problema: “Professor virou robô”.
A professora de História Cibele Lima, que atua há 15 anos na rede municipal de São Paulo, contou ao Brasil de Fato que passou a controlar mais o conteúdo e a forma como aborda determinados assuntos.
Ela costumava promover debates sobre violência policial, racismo, homofobia e feminismo e chegou a manter grupos de discussão sobre feminismo no contraturno.
A mudança ocorreu após um colega de profissão ser exposto nas redes sociais por causa de uma prova aplicada em sala de aula.
“Aquilo para mim foi muito impactante. Eu fiquei com muito medo de ser a próxima”, afirmou Cibele.
Segundo ela, o temor fez com que deixasse de realizar o grupo feminista que mantinha como atividade complementar.
A autocensura chegou também às respostas dadas aos estudantes.
Quando uma criança pergunta, por exemplo, o que significa ser uma pessoa trans, Cibele afirma que prefere conversar individualmente com quem demonstrar interesse.
A estratégia, segundo o relato, busca evitar que uma discussão coletiva seja interpretada pelas famílias como tentativa de influenciar os alunos.
A coordenadora da pesquisa, Gabriela Lotta, afirmou que um dos principais achados foi perceber que a pressão política passou a interferir em atividades básicas do cotidiano escolar.
“Tem afetado práticas docentes muito básicas. Não é só uma crítica abstrata e generalizada do trabalho do professor”, declarou.
De acordo com Lotta, professores de Biologia relataram receio até de abordar o aparelho reprodutivo por medo de serem acusados de sexualizar crianças.
Ela também citou dificuldades para trabalhar temas como vacinação, democracia e história do Brasil.
“Eles começam a ficar com medo de ensinar, porque tudo pode ser visto como politização, doutrinação e assim por diante”, afirmou a pesquisadora.
A vigilância também aparece associada ao uso de celulares para registrar aulas.
Richard Araújo, professor da rede estadual paulista, dirigente da CNTE e diretor da Apeoesp, disse que continua trabalhando os conteúdos previstos no currículo, mas passou a adotar maior cautela.
“Não deixei de abordar nada que faz parte do currículo aqui das escolas estaduais e debates da atualidade, que são importantes, mas tenho sido mais cauteloso”, afirmou.
Segundo Araújo, existe o temor de que trechos de aulas sejam gravados, retirados do contexto e publicados nas redes sociais.
Outro professor entrevistado, Ricardo Santos, contou que já presenciou estudantes gravando aulas para posteriormente mostrar o conteúdo aos pais.
A professora identificada como Maria Medeiros, nome fictício, também relatou mudança de comportamento depois de uma experiência vivida durante a eleição presidencial de 2018.
Após criticar Jair Bolsonaro em sala de aula e fazer uma comparação com Hitler, ela foi alvo de reclamação de uma mãe à direção da escola.
Embora tenha recebido apoio da diretora, afirma ter sido aconselhada posteriormente a agir com mais cautela.
“Desde então, eu procuro tomar cuidado em minhas aulas”, disse.
Ela afirma que continua ensinando temas como direita e esquerda, luta de classes, socialismo e os Três Poderes, mas evita mencionar nomes de políticos.
A pressão, segundo outro relato, também pode partir da própria gestão escolar.
Julia Ramalho, nome fictício de uma professora de Geografia de uma escola particular, afirmou ter recebido orientação para não falar sobre política ou manifestar posicionamentos em sala.
A professora disse que não deixou de trabalhar conteúdos econômicos e políticos, mas passou a reduzir a profundidade das discussões.
“Às vezes não deixo de fazer algumas problematizações, mas faço de maneira mais superficial e mais limitada”, relatou.
O levantamento aponta ainda que 64,5% dos entrevistados afirmam ter pouco espaço para interpretar regras e sentem que devem apenas cumpri-las.
Ao mesmo tempo, 63,2% dizem criar soluções próprias quando as normas dificultam o trabalho cotidiano.
Para os pesquisadores, os números indicam uma tensão entre regras institucionais rígidas e a necessidade de adaptação encontrada pelos profissionais.
O desgaste também aparece nos depoimentos sobre saúde emocional e permanência na carreira.
Julia afirmou que já não se imagina trabalhando como professora por muitos anos.
“Eu não tenho mais vontade de continuar dando aula”, declarou. “É uma pressão muito grande ficar sendo censurado e pressionado para policiar as palavras.”
Cibele também relatou episódios de medo e tremores durante as aulas, além de piora em sua saúde mental.
Em uma reunião com responsáveis após a pandemia, ela contou ter sido confrontada por um pai enquanto apresentava informações sobre vacinação.
Segundo seu relato, colegas precisaram intervir quando o homem avançou em sua direção.
Apesar das pressões, os dados mostram que a identificação dos profissionais com a função social da educação permanece elevada.
Entre os entrevistados, 96,3% consideram importante contribuir para o bem-estar da sociedade e 96% veem o trabalho como uma forma de servir à sociedade.
A relação com os alunos também recebeu avaliação positiva: 88,6% consideram boa a relação que mantêm com os estudantes e 85,1% afirmam que os alunos confiam nos professores.
Outros dados indicam que 44% dos participantes já tiveram conflitos com famílias de alunos relacionados ao trabalho.
Além disso, 58% disseram sentir, sempre ou frequentemente, pressão para alterar procedimentos ou rotinas por determinação do governo.
A pesquisa também aponta que 89,4% se sentem responsáveis pelo impacto social do próprio trabalho e 88,5% afirmam ficar pessoalmente afetados quando não conseguem ajudar um aluno.
Para Gabriela Lotta, o impacto da pressão política ultrapassa os professores e pode atingir diretamente os estudantes.
“Coisas que as crianças deveriam aprender deixam de ser ensinadas por causa desse ambiente extremamente politizado”, afirmou.