Design sustentável alagoano ganha impulso com Sebrae e ApexBrasil
Antes de virar bolsa, carteira ou acessório de design, a matéria-prima que chega às mãos de Gabriela Macêdo já teve uma vida inteira sobre o asfalto. São câmaras de ar de pneus, marcadas pelo tempo e pelo uso, que provavelmente terminariam no descarte não fosse o olhar da designer alagoana para aquilo que muita gente já não enxergava como possibilidade. No ateliê da Retaliário, em Maceió, essas marcas não precisam ser escondidas. Elas fazem parte da história de cada peça.
A capacidade de imaginar novos destinos para materiais comuns acompanha Gabriela desde muito antes de ela se tornar empreendedora. Cercada pela mãe, avó, madrinha e irmã, cresceu em um ambiente onde arte, trabalhos manuais e criatividade faziam parte da rotina. Anos depois, já formada em Design pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), aquela curiosidade encontrou nas câmaras de ar o desafio de transformar um resíduo resistente e pouco convencional em um produto desejável.
Foi dessa experimentação que nasceu, em 2021, a Retaliário, marca que fez do reaproveitamento sua linguagem e encontrou no design uma forma de transformar resíduos em produtos de maior valor agregado. Nesse caminho, a Retaliário participou do Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX), desenvolvido em Alagoas pela parceria entre ApexBrasil e Sebrae.
“Eu sempre tive essa curiosidade de enxergar possibilidades em materiais que normalmente seriam descartados. Quando conheci a câmara de ar, percebi que ali existia um potencial enorme. A Retaliário nasceu dessa vontade de transformar, mas também de mostrar que sustentabilidade pode estar associada a qualidade, estética e desejo”, conta Gabriela.
O valor está na transformação
A matéria-prima chega ao ateliê por meio de uma rede de parceiros, principalmente oficinas e borracharias que passaram a destinar à empresa câmaras de ar que antes iriam para o lixo. Com o tempo, outros materiais entraram nessa cadeia, como mangueiras de incêndio doadas pelo Corpo de Bombeiros Militar e pela Solar Coca-Cola.
Depois de selecionados, higienizados e preparados, os resíduos seguem para a criação. Texturas, pequenas marcas e diferenças naturais do material permanecem nas peças, fazendo com que cada produto carregue características próprias.
“Não trabalhamos para apagar a história daquele material, mas para dar a ele um novo significado. Cada peça tem particularidades que vêm justamente da matéria-prima reaproveitada, e isso se tornou parte da nossa identidade. O resíduo deixa de ser apenas aquilo que perdeu a função e passa a ser matéria para criação”, explica Gabriela Macêdo.
Para a analista do Sebrae Alagoas Marina Gatto, negócios construídos a partir dessa lógica encontram espaço em um mercado no qual a sustentabilidade passou a influenciar também a percepção de valor dos consumidores.
Segundo ela, esse movimento é especialmente relevante para os pequenos negócios porque permite competir por atributos que vão além do preço, explorando origem, identidade, processos produtivos e propósito como elementos de diferenciação.
“O consumidor está mais atento ao que existe por trás de uma peça, quer saber quem produziu, de onde veio a matéria-prima e quais impactos estão relacionados àquela escolha. Quando o pequeno negócio consegue unir qualidade, autenticidade e propósito, ele constrói valor e se diferencia. Isso fortalece a marca e também aumenta suas possibilidades de acessar mercados que valorizam esses atributos”, destaca Marina.
Ponte para novos mercados
Ter um produto original, no entanto, é apenas uma parte do caminho para uma empresa que deseja ampliar fronteiras. Entrar em novos mercados exige preparação, conhecimento e capacidade para transformar diferenciais criativos em uma estratégia comercial competitiva.
É nesse percurso que o PEIEX, parceria entre Sebrae e ApexBrasil atua para aproximar os pequenos negócios brasileiros das oportunidades de internacionalização. A iniciativa prepara empresas para a internacionalização, com orientações sobre mercados, público, precificação, documentação e planejamento para exportar.
“A Retaliário já reunia atributos com potencial no exterior, como brasilidade, sustentabilidade e empreendedorismo feminino. O PEIEX ajudou a transformar esses diferenciais em uma preparação mais estratégica para novos mercados”, explica o analista do Sebrae Alagoas Gilson Borges.
Para Gabriela, o programa tornou mais concreta uma possibilidade que até então parecia distante. “O PEIEX me ajudou a olhar para a internacionalização de outra forma. O Sebrae começou me apoiando na estruturação do negócio e, ao longo dessa trajetória, ampliou minha visão sobre os caminhos que a Retaliário pode alcançar”, conta.
A experiência internacional já começou a sair do campo das possibilidades. A marca representou Alagoas na Turin Fashion Week, na Itália, participou da Fenearte e foi contemplada pelo Colabora Moda Investe, na categoria Mitigação de Impacto Ambiental.
Futuro sustentável
A nova fase da empresa passa pela Coleção Candeeiro, que pretende aprofundar a pesquisa da Retaliário sobre design, sustentabilidade e identidade brasileira. A empreendedora também busca ampliar a rede de parceiros para o reaproveitamento de novos materiais e continuar investindo no desenvolvimento dos produtos.
O objetivo, entretanto, não é abandonar a essência artesanal que fez a marca chegar até aqui. Para Gabriela, a expansão precisa preservar justamente aquilo que diferencia a Retaliário que é a capacidade de encontrar valor onde antes havia apenas descarte e poluição.
“Queremos chegar a novos mercados, desenvolver outros produtos e criar novas parcerias, mas sem perder o propósito que deu origem à marca. Queremos ampliar o impacto e mostrar que é possível transformar resíduos em produtos que tenham identidade, qualidade e valor”, afirma.