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Diagnóstico tardio reduz chances de cura do câncer de pulmão

Apenas 698 pacientes (10,4%) descobriram o tumor nas fases iniciais, sendo 307 no estágio 1 e 391 no estágio 2

Por Agência Brasil 07/08/2026
Diagnóstico tardio reduz chances de cura do câncer de pulmão
Apenas 698 pacientes (10,4%) descobriram o tumor nas fases iniciais, sendo 307 no estágio 1 e 391 no estágio 2 (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

O câncer de pulmão é uma doença silenciosa e, segundo o oncologista Igor Morbeck, membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, entre 70% e 80% dos casos no mundo são diagnosticados em estágios avançados ou já com metástase. No Brasil, a situação é semelhante.

De acordo com análise do Instituto Lado a Lado pela Vida, baseada em dados da plataforma Data Câncer 360º, dos 14.145 diagnósticos registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2023, 89,6% dos pacientes (7.267 pessoas) foram identificados já nos estágios 3 ou 4 da doença, quando as chances de cura são bastante reduzidas.

Apenas 698 pacientes (10,4%) descobriram o tumor nas fases iniciais, sendo 307 no estágio 1 e 391 no estágio 2.

Segundo o oncologista, o aumento no número de diagnósticos está relacionado principalmente à maior exposição a fatores de risco, como tabagismo, sedentarismo, obesidade e má alimentação.

“Isso expõe, obviamente, a população brasileira cada vez mais ao risco de desenvolver câncer. O câncer de pulmão é um dos mais incidentes”, alerta Morbeck, em entrevista à Agência Brasil.

O médico recomenda que todas as pessoas, especialmente tabagistas e ex-tabagistas, realizem uma tomografia anual. “Essa tomografia anual está disponível no SUS. É totalmente possível fazer tomografia”, reforça.

No entanto, ele aponta que não existe um programa nacional de rastreamento para prevenção e diagnóstico precoce do câncer de pulmão. “Por ser uma doença silenciosa, os sintomas costumam ser comuns a outras enfermidades, como tosse, leve falta de ar ou quadros semelhantes a infecções respiratórias, o que pode retardar a busca por diagnóstico”, explica.

Alerta para o SUS

O estudo do Instituto Lado a Lado pela Vida revela um cenário alarmante: quase 90% dos pacientes atendidos no SUS já chegam com a doença em estágio avançado. “O que já é crítico mundialmente, no Brasil está em torno de 90%, expondo gargalos de acesso ao SUS”, destaca Morbeck.

Ele defende a necessidade de prevenção, especialmente para pessoas que fumam ou pararam de fumar nos últimos 15 anos, reforçando também o alerta de sociedades médicas brasileiras.

O oncologista lamenta que as políticas públicas ainda não contemplem um programa de rastreamento específico para o câncer de pulmão. “Os pacientes ficam vulneráveis, só procuram os serviços básicos de saúde quando apresentam sintomas, e o atraso no diagnóstico é ainda maior na atenção primária”, afirma.

O estudo também aponta falhas na qualidade das informações oncológicas públicas: em 40% dos casos, não há registro do tamanho do tumor nem da existência de metástase. Isso ocorre, segundo o especialista, pela falta de exames adequados, como a tomografia. “Muitas vezes, as pessoas fazem apenas um raio X de tórax, que é insuficiente para diagnosticar o câncer de pulmão, e acabam recebendo medicamentos inadequados, o que agrava o quadro”, explica.

Morbeck destaca que essa realidade é comum em todas as regiões do país, especialmente no Sudeste, e que o tabagismo, inclusive entre jovens usuários de cigarros eletrônicos, representa um risco crescente.


Campanha de conscientização

O médico defende a criação de campanhas de conscientização promovidas pelo Ministério da Saúde, com atuação de agentes de saúde para identificação de famílias com fatores de risco e marcação de tomografias preventivas. “Isso poderá economizar muitos milhões de reais para o Ministério da Saúde. É muito diferente tratar um paciente com cirurgia do que alguém que precisa de tratamento contínuo”, ressalta.

Estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta que, entre 2026 e 2028, devem surgir 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano no Brasil. Em 2024, a doença matou 32.555 pessoas no país.

Embora o tabagismo seja a principal causa isolada do câncer de pulmão (relacionado a cerca de 85% dos casos), fatores como poluição atmosférica, exposição a agentes químicos, predisposição genética e doenças pulmonares crônicas exigem estratégias de rastreamento mais amplas, segundo o Instituto Lado a Lado pela Vida.

Exemplo de superação

Mônica Chain Montone, paciente do Instituto Lado a Lado pela Vida, enfrentou o câncer de pulmão pela primeira vez em 2008 e teve uma recidiva em 2010. “Mas consegui me tratar e estou curada desde 2010”, conta.

Mônica, que parou de fumar dez anos antes de adoecer, defende a implementação de políticas públicas para exames preventivos em tabagistas e ex-tabagistas. Ao descobrir o câncer em estágio inicial, ela precisou retirar parte do pulmão, mas teve 94% de chance de cura. “Quando o câncer voltou, decidi ser meu próprio exemplo e mostrar que é possível vencer a doença. E deu certo”, relata.

Ela faz acompanhamento anual com tomografia de baixa radiação e destaca a importância do mês de agosto, dedicado à prevenção do câncer de pulmão. “É fundamental conscientizar as pessoas. Que eu sirva de alerta”, finaliza.