Cozinhas Solidárias do MTST transformam combate à fome em política pública
Iniciativa reúne cerca de 70 unidades em todo o país e alia segurança alimentar e educação popular
Fortalecidas depois da pandemia do Covid-19 para enfrentar o avanço da fome e da vulnerabilidade social, as Cozinhas Solidárias do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) consolidaram-se como uma das principais iniciativas populares de garantia do direito humano à alimentação no Brasil. Em Alagoas, o projeto é desenvolvido principalmente por meio das cozinhas Professor Paulo Bandeira e Tia Marcelina, que atendem centenas de famílias diariamente e articulam ações de educação popular, agricultura urbana e fortalecimento comunitário.
Segundo Eliane Silva, coordenadora do MTST em Alagoas e integrante da Direção Nacional do movimento, a iniciativa surgiu a partir da experiência das cozinhas coletivas já existentes nas ocupações organizadas pelo MTST. Durante a pandemia, diante do desemprego, da alta dos preços dos alimentos e do agravamento da insegurança alimentar, o movimento não demorou em buscar alternativas para ampliar o alcance dessas ações.
“A primeira do Nordeste foi inaugurada no conjunto do professor Paulo Bandeira. Foi uma luta de 2005, inclusive quando houve a morte do professor Paulo Bandeira naquela época, por denunciar o roubo na merenda escolar. Ou seja, uma pessoa defensora da educação, e a educação para nós do MTST é a base de tudo”, conta.
Inspirada nos “comedouros” argentinos, a proposta foi transformada em uma estratégia nacional de combate à fome. A primeira Cozinha Solidária do Nordeste foi inaugurada no Conjunto Professor Paulo Bandeira, em Maceió, território construído a partir de uma histórica luta por moradia popular.
A Cozinha Tia Marcelina, localizada na Cidade Universitária, produz cerca de 1.500 refeições por dia, enquanto a Cozinha Professor Paulo Bandeira distribui aproximadamente 750 marmitas diárias, entre almoço e jantar. Atualmente, o MTST mantém 70 Cozinhas Solidárias em todo o país. A iniciativa conquistou reconhecimento institucional e passou a integrar uma política pública vinculada ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS).
“A ideia das cozinhas solidárias não é só alimentação, é fazer também o trabalho de formação de base, atender as faltas da comunidade, reivindicar o direito de todo povo trabalhador, que está nas periferias e que está nas bases dessas cozinhas solidárias”, conta Eliane.
As ações são desenvolvidas principalmente por mulheres, que representam cerca de 70% da base do movimento. Muitas delas são mães solo, moradoras das periferias e encontram nas cozinhas um espaço de acolhimento, participação social e construção de autonomia econômica e política.
Além das refeições distribuídas diariamente, as unidades promovem atividades educativas por meio das Escolinhas Formigueiro, bibliotecas comunitárias, cursos preparatórios, debates sobre direitos sociais, enfrentamento à violência contra mulheres e crianças, além de iniciativas voltadas à juventude e à inclusão digital.
Para o MTST, o combate à fome deve ser compreendido como parte de uma agenda mais ampla de garantia de direitos humanos. A organização defende o fortalecimento permanente das Cozinhas Solidárias como política pública capaz de promover dignidade, soberania alimentar e transformação social nos territórios periféricos.