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Especialista da Uncisal explica que saúde mental dos profissionais de saúde exige atenção permanente

Por Agência Alagoas 16/01/2026
Especialista da Uncisal explica que saúde mental dos profissionais de saúde exige atenção permanente
Psicóloga Ursula Adriana Gomes da Silva alerta sobre saúde mental de profissionais de saúde (Foto: Ascom Uncisal)

Danielle Cândido/Ascom Uncisal

“Silenciar o sofrimento pode adoecer; falar, compartilhar e buscar apoio também pode salvar vidas”. A reflexão da psicóloga Ursula Adriana Gomes da Silva sintetiza um debate cada vez mais urgente no mês do Janeiro Branco: a saúde mental dos profissionais de saúde, grupo constantemente exposto a sobrecargas emocionais, pressões institucionais e jornadas exaustivas.

 

Psicóloga clínica e do trabalho no Hospital Escola Portugal Ramalho (HEPR), unidade assistencial da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), Adriana é especialista em Saúde Mental e Coletiva e Psicologia Hospitalar. Ela alerta que o adoecimento psíquico de quem cuida não deve ser tratado como fragilidade individual, mas como resultado de contextos de trabalho altamente exigentes.

 

Segundo a especialista, os profissionais de saúde figuram entre os grupos mais vulneráveis ao adoecimento mental por uma combinação de fatores emocionais, organizacionais e relacionais. O contato diário com a dor, o sofrimento, a morte e o luto exige uma regulação emocional intensa, muitas vezes sem espaço adequado para a elaboração dessas vivências.

 

“Isso favorece um sofrimento silencioso e um desgaste psíquico contínuo”, explica. A pressão por decisões rápidas e precisas, somada ao medo do erro e de suas possíveis consequências, mantém o trabalhador em estado constante de alerta, elevando os níveis de ansiedade e estresse crônico.

 

Outro fator relevante, conforme aponta Adriana, são as jornadas extensas e a privação de descanso. Plantões prolongados, turnos noturnos e acúmulo de funções comprometem o sono e a recuperação física e emocional, favorecendo sintomas como fadiga persistente, irritabilidade, dificuldade de concentração e esgotamento.

 

A psicóloga também chama atenção para a chamada “cultura do silenciamento emocional”, ainda presente em muitos ambientes de saúde. “Existe a crença de que o profissional precisa ser forte o tempo todo. Isso dificulta o pedido de ajuda e a busca por suporte psicológico”, afirma.

 

Sinais de alerta não devem ser naturalizados

 

Os sinais de alerta, segundo a especialista, aparecem de forma recorrente e não devem ser naturalizados como parte da profissão. Exaustão que não melhora com o descanso, dificuldade de iniciar o plantão, irritabilidade excessiva, choro fácil, apatia, sensação de vazio ou endurecimento emocional são indicativos importantes.

 

“Quando o profissional passa a não sentir nada ou se percebe emocionalmente distante de pacientes e colegas, isso também é um sinal de alerta”, destaca. Frases como “não vejo mais propósito no que faço” ou “estou aqui no automático” revelam perda de sentido do trabalho e desgaste da identidade profissional, aumentando o risco de síndrome de Burnout.

 

Adriana explica ainda que o sofrimento psíquico pode se manifestar por meio de sintomas físicos sem causa orgânica clara, como dores de cabeça, alterações gastrointestinais, tensão muscular, insônia e queda da imunidade. O isolamento social no ambiente de trabalho, a dificuldade de atuar em equipe e o uso inadequado de substâncias (como aumento do consumo de álcool, automedicação ou uso excessivo de estimulantes) também merecem atenção. “Trabalhar constantemente exausto, achar normal não conseguir dormir ou sentir culpa por adoecer não pode ser visto como algo aceitável”, diz.

 

Cuidar de quem cuida é compromisso coletivo

 

Apesar da necessidade de cuidado, a psicóloga reconhece que ainda há resistência significativa dos profissionais de saúde em buscar apoio psicológico. O estigma em torno da saúde mental se manifesta de forma sutil, mas persistente, especialmente em ambientes hierarquizados. 

 

“Muitos acreditam que pedir ajuda é sinal de fraqueza ou incompetência. Há medo do julgamento e da exposição, o que leva muitos a tentarem lidar sozinhos com o sofrimento”, observa. A naturalização do adoecimento e a dificuldade de ocupar o lugar de quem precisa ser cuidado também contribuem para o adiamento da busca por ajuda.

 

Para a especialista, promover a saúde mental de quem cuida exige estratégias integradas, que envolvem ações individuais, coletivas e institucionais. Do ponto de vista pessoal, ela destaca a importância do reconhecimento dos próprios limites, da construção de redes de apoio, da busca ativa por acompanhamento psicológico e da separação simbólica entre trabalho e vida pessoal. Já no âmbito institucional, Adriana defende a criação de espaços regulares de escuta, rodas de conversa e grupos de apoio, além de uma gestão mais humanizada, com comunicação clara, respeito aos limites e condições adequadas de trabalho.

 

A organização das escalas, a garantia de pausas e descanso, bem como ações de educação permanente em saúde mental, também são apontadas como fundamentais para a prevenção do adoecimento psíquico. “Promover saúde mental entre profissionais de saúde exige uma mudança cultural: sair da lógica da resistência a qualquer custo e caminhar para uma lógica do cuidado”, resume.

 

No Janeiro Branco, a mensagem da psicóloga aos profissionais de saúde é um convite à humanidade. “Vocês não são apenas cuidadores, são pessoas. Sentir cansaço, medo ou esgotamento não significa falhar, significa que algo precisa ser escutado”, afirma. Para ela, cuidar da própria saúde mental não é luxo nem egoísmo, mas parte essencial do ato de cuidar. “Cuidar de quem cuida é um compromisso ético, humano e institucional”, conclui.