Zelina Sebastiana, a rainha do Guerreiro mais antiga do estado!

Com oitenta anos e setenta e três de folgança, Dona Angelina contou pra gente um pouco da sua vida vivida dentro da brincadeira

Zelina Sebastiana, a rainha do Guerreiro mais antiga do estado!

Com oitenta anos e setenta e três de folgança, Dona Angelina contou pra gente um pouco da sua vida vivida dentro da brincadeira

Por | Edição do dia 8 de março de 2020
Categoria: Cultura | Tags: ,,,,,,,,,,


Zelina Sebastiana é a rainha mais antiga do Guerreiro alagoano - Foto: Arquivo pessoal

Zelina Sebastiana é a rainha mais antiga do Guerreiro alagoano – Foto: Arquivo pessoal

Sempre que vemos um folguedo se apresentando não imaginamos quanta história está ali presente, cada brincante leva na vida algo que se realiza entre o mundo real e o imaginário. E nós sabemos que quanto mais sofrida for à luta mais radiante será o brincante da cultura popular. Esses homens e mulheres sem qualquer visibilidade marcam sua passagem na alagoanidade por manterem com fé e amor nossas manifestações.

Como é do saber de todos, o folclore sempre foi formado pelas classes mais simples da sociedade, no nosso estado não foi diferente, moedores, cortadores de cana, plantadores, roceiros, etc, formados por negros e índios, legaram a grande nação de folguedos que por dedicação, abnegação e alegria temos hoje a grata sorte de ver se apresentando nas cidades e zonas rurais do estado. Esse amor que vive no coração dos mestres e brincantes transcende com êxito a imaginação do expectador que de olhos fixos se emociona quando vê o nosso afamado guerreiro passar. Esse mesmo amor ultrapassa as fronteiras da razão e prova-nos o quanto é bom ser alagoano.

Nossa reportagem visitou uma brincante de Guerreiro cuja história na folgança já passa dos 70 anos, são exatamente 73 anos de dedicação, amor e desprendimento a causa do Auto de Guerreiros em Alagoas. Essa menina que completou 80 anos na última Quinta-Feira, nascida em 5 de Março de 1940, chama-se Zelina Sebastiana dos Santos, nas suas veias corre o sangue indígena dos Xucurus Kariri de Palmeira dos índios, lugar onde nasceu. “Sou natural de Palmeira dos Índios, filha de índio, mas me criei no Povoado Salgado em Maribondo pra onde fui muito nova, terminei de me criar por lá.” Disse Dona Zelina.

Com toda uma ancestralidade essa menina aos sete anos iniciou uma história de amor que ela mesma jamais imaginaria que fosse construir ao longo da vida, “eu estava com a base dos seis anos, já ficando sabidinha, foi quando eu vi guerreiro pela primeira vez no Salgado em Maribondo. Quando cheguei aos sete anos me botaram dentro do Guerreiro como rainha, era o guerreiro da Gajuru. Eu não tinha pai, mãe ou irmão, minha mãe me largou pelo mundo. Naquela época pequena vivia do guerreiro comendo e vestindo com o dinheiro que eu ganhava nas apresentações, na era de 50 eu já estava dançando”. Relembrou.

Zelina na companhia de uma grande amiga. Foto: João Lemos.

Zelina na companhia de uma grande amiga. Foto: João Lemos.

Apadrinhada pela saudosa Mestra Joana Gajuru recebeu a coroa de rainha e como rainha brincou na juventude nos Guerreiros dos Mestres João Beato, Mané Lourenço e João Antônio, esse último tinha um grupo no povoado onde Zelina viveu, “além da Gajuru fui rainha do guerreiro de João Beato, do Mané Lourenço e do João Antônio do Salgado . Comecei a cantar guerreiro em Maribondo dentro das grotas na rua também e nas empreitadas aonde eles faziam nas canas, naquela época eu já trabalhava com a enxada”, recordou. Quando falamos em Gajuru ela destaca, “Não havia fazenda que a Gajuru não batesse e dançasse aonde ela chegava se arranchava agora só quem mais brincava com ela era mulher. Havia as apresentações nas fazendas, os fazendeiros mandavam chamar a gente e isso era pra noite toda, época boa porque os guerreiros ganhavam muito dinheiro”, disse.

Como já dissemos em outras reportagens a dificuldade só muda de endereço e dona Zelina desabafou sobre a falta de apoio constante, “nós nunca vivemos uma época difícil como essa, os jovens não querem brincar, os governantes não dão o apoio que a gente precisa. Hoje não existe mais guerreiro como antes porque não se tem incentivo. A gente crescia dentro da brincadeira, de primeiro era muita brincadeira, agora nas grotas, na rua você não via não, mais dentro do mato tinha muita mesmo. Depois correu pra rua e se espalhou mais, os fazendeiros e prefeitos chamavam muito, não faltava canto pra gente dançar e era gente nova disputando espaço dentro dos grupos, que saudade”. Desabou emocionada.

Zelina e sua eterna coroa de rainha. Foto: João Lemos.

Zelina e sua eterna coroa de rainha. Foto: João Lemos.

Chegou a Maceió para morar em 1966 e aqui brincou com os Mestres Benon, Maria Vitória e Juvenal Domingos, atualmente brinca no Guerreiro São Pedro Alagoano que é comandado pela Mestra Maria Helena, popularmente conhecida como Mestra Marlene, “Vim morar em Maceió em 1966, morei trinta anos na chã de Bebedouro, lá conheci Benon, com ele dancei uns sete anos depois dancei com Vitória. Moro aqui no João Sampaio há 24 anos, conheci o Juvenal e passei a brincar no Guerreiro dele que estou até hoje e hoje quem toma conta é Marlene. Toda essa vida como Rainha no Guerreiro”, confirmou. “Minha vida foi muita difícil, lutei muito! Se hoje cheguei aos oitenta é porque Deus achou que eu merecia viver um pouco mais. Eu sinto muito amor, se me tirarem desse guerreiro eu não sei o que me acontece, quando tem apresentação e eu não posso ir eu choro. Eu tenho muita emoção! É a coisa na minha vida que me faz viver é o guerreiro. Vou brincar até o dia que Deus quiser”, finalizou.

A história de dona Zelina é uma das muitas que passam despercebidas aos olhos da mídia e da sociedade alagoana, quando destacamos no inicio dessa reportagem que o amor move a cultura popular nós provamos dando ênfase a história da rainha de guerreiro mais antiga do estado.

Telefone para contato: (82) 98871-5638 – Simone (filha de Zelina).

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