Boa Tarde!, Sexta-Feira - 20 de Setembro de 2019

 

Uma expedição a Arte do homem do povo

/ 3:35 - 29/08/2019

Alagoas, o maior celeiro de artistas populares do País.


Quem vem a Alagoas contagiado pelas belezas naturais do Estado não imagina o que está além das praias paradisíacas e pontos turísticos, não se precisa ir muito longe para descobrir os encantos do imaginário do homem do povo.

Esse homem está intimamente ligado ao cotidiano da sua comunidade, das suas dores, alegrias e sonhos interagindo diretamente com o universo desconhecido do seu ser, aí está à fonte inesgotável da arte popular Alagoana. Cada sonho é desvelado nas iconográficas peças produzidas pelos mais renomados mestres e artesãos já conhecidos mundialmente. Obras das mais variadas formas traduzem com singela porfia o sagrado e o profano, a derrota e a vitória, a vida e a morte.

Alagoas a partir dos seus mestres

É nesses lugares calmos onde o relógio parece não marcar o tempo que à arte se adere com muita rapidez e originalidade.

Madeira.

Antônio de dedé. Foto 10

Mestre Antônio de Dedé // Créditos: Agência Alagoas.

A Ilha do Ferro na beira do velho Chico com suas raízes e troncos de umburanas dão vida às sereias, peixes, barcos, animais e seres do imaginário de todos os tipos, um legado deixado para todos do Mestre Fernando Rodrigues. Cadeiras, bancos e mesas fazem parte da produção desses artesãos.

Em Palmeira dos Índios existe a produção de colheres de pau, brinquedos, carros de boi e outros similares. Boca da Mata se destaca pela fauna exótica de Manuel da Marinheira com seus gatos, leões e touros, hoje continuados pelos mais de dez filhos. Arapiraca com Zézito Guedes, Josias Saturnino, Sartunino João, entre outros que formam um grupo de escultores das mais variadas vertentes.

No Munícipio de Lagoa da Canoa, atual revelação da nova geração de artesãos é difícil não lembrar-se do mestre Antônio de Dedé que dava forma aos troncos de madeira, hoje seus filhos dão continuidade ao legado. Além do mestre Dedé o município revela algumas novidades como seu Eraldo que transfigura sua imaginação em troncos de jaqueira, D. Marinalva na confecção de bonecas de pano,  Neosvaldo (Madeira), Marcos Silva e D. Nilvinha na arte do barro.

Cerâmica.

foto 9

Mestre João das Alagoas // Créditos: Sedetur-AL

Em Capela o barro toma uma forma muito particular, a partir dos bois do Mestre João das Alagoas foi criada uma escola de artesãos tão frutuosa que hoje é possível encontrar peças do mestre e de seus alunos como o caso de Sil da Capela e Leonilson Arcanjo em todas as partes do mundo.

Na comunidade do Múquem – União dos Palmares, D. Irinéia Rosa Nunes mantém nos lábios carnudos e nos olhos bastante arredondados à ancestralidade de Zumbi, trás nas cabeças rústicas confeccionadas no barro a lembrança de seus antepassados.

Em Maceió existem diversos ceramistas que vivem no anonimato e outros já conhecidos. Recentemente descobrimos os trabalhos maravilhosos de Ana Alves Ferreira (79), ela vive sua lida entre os bolos de barro e as brincadeiras do Pastoril Recordar é Viver que comanda há mais de 20 anos.

Cestaria. 

Caixa-Palha de Pontal do Coruripe // Créditos: Artesol.

Caixa-Palha de Pontal do Coruripe // Créditos: Artesol.

O Pontal do Coruripe produz com palhas de Ouricuri tingidas com anilina bolsas, chapéus, esteiras, peneiras e outras peças de decoração, uma transmissão do antigo saber indígena às novas gerações.  Outro artefato de origem secular são os produzidos com cipó, cestos ou caçuás e outros objetos que estão espalhados em várias partes do estado, os munícipios de Água Branca, Pariconha, Maravilha, Penedo, Jequiá da Praia e Igreja Nova se destacam na confecção desses produtos.

Couro, Renda e Bordados.

O couro está presente na vida do sertanejo e é um trabalho tipicamente do homem, essa produção está ligada diretamente a pecuária local. Dois Riachos, Arapiraca com o mestre Basto, Pão de Açúcar, Batalha, Palmeira dos Índios e Santana do Ipanema se configuram na confecção de arreios e selas para animais, além de sapatos, sandálias, bolsas e a famosa vestimenta do vaqueiro; Gibão, chapéu e a calça de couro.

Bordado Boa Noite da Ilha do Ferro // Créditos: Tom Alves.

Bordado Boa Noite da Ilha do Ferro // Créditos: Tom Alves.

Os bordados e Rendas de Alagoas aparecem em muitos municípios litorâneos e do sertão, das variedades de trabalhos o “Filé” é o mais conhecido presente no Pontal da Barra e em Fernão Velho, bairros de Maceió. Segundo a museóloga Carmem Lúcia Dantas é possível encontrar o Filé também nos municípios de Marechal Deodoro, Santa Luzia do Norte e Coqueiro Seco. No sertão; em Pão de Açúcar o bordado “Boa noite”, em Entre Montes o “Redendê”, já no agreste São Sebastião é conhecida como a capital dos “Bilros”, “Singeleza” em Água Branca e a tecelagem de tapetes em Delmiro Gouveia, além do “labirinto” e “Renascença” de Marechal Deodoro. Esses pontos conotam Alagoas como maior centro de produção de bordados no país.

Alagoas presente

Fora os que aqui foram citados é possível encontrar artesãos de todos os tipos de trabalho, como no ferro, nas artes plásticas, artesanato com papel machê, fuxicos, pinturas de todos os gostos, peças feitas a partir das cascas do coco, materiais reciclados, em pedras ou palitos como é o caso do artesão Maurício Pereira da Costa de Lagoa da Canoa e tudo aquilo que o homem quiser transformar.

Alagoas é um estado que exporta para o mundo uma arte toda nativa que nasce dos sonhos do homem comum, a arte que ali é produzida corre além-fronteiras levando o nome do estado a lugares nunca vistos e consolidando-o como maior recanto de artes populares do país. É preciso insistir na valorização do artesão por meio de políticas públicas que incentivem a cultura e à arte popular.

Esse artigo recebeu uma matéria toda especial no site da Galerista Silvana Tinelli, nascida no Egito, mas com o coração dividido entre a Itália e o Brasil. LEIA A MATÉRIA EXCLUSIVA. Acesse aqui!

Mestra Ana Alves Ferreira, Ceramista.

Mestra Ana Alves Ferreira, Ceramista.

 

 


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