Sertanejo vive de forma nababesca e passa ideia de simplicidade rancheira

Essa imagem rancheira tem turbinado as carreiras dos cantores sertanejos, vendendo uma ideia simples e poderosa. Todos eles, no fundo, espertamente exploram esse lado simples para cativar seus públicos, cada vez maiores e mais rentáveis do que nunca.

Sertanejo vive de forma nababesca e passa ideia de simplicidade rancheira

Essa imagem rancheira tem turbinado as carreiras dos cantores sertanejos, vendendo uma ideia simples e poderosa. Todos eles, no fundo, espertamente exploram esse lado simples para cativar seus públicos, cada vez maiores e mais rentáveis do que nunca.

Por Antonio Pereira | Edição do dia 14 de julho de 2021
Categoria: Opiniões | Tags: ,,,,,,,,,,,


Jeca

Aquele que possui características semelhantes a personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.
Homem de origem rural. Aquele que possui comportamento associado a pessoas que não sabem se comportar no meio urbano, sem vida social.

Hoje vou entrar em uma polêmica sobre o mundo dos cantores sertanejos. Olhando por cima nas redes sociais, você vai ver muitos deles carregando no sotaque caipira, passando uma imagem de homens simples, do povo. Isso acaba por alimentar uma indústria bilionária, onde a maioria dos grandes artistas têm fortunas que ultrapassam os R$ 200 milhões.
Eles vivem em super mansões nas áreas mais nobres das grandes cidades brasileiras, usam e abusam de jatinhos particulares, mas quando você vai nas suas páginas pessoais o que ver são pessoas ‘normais’, do campo, com jeito brejeiro, iguais a qualquer um dos milhões de jecas que existem no Brasil profundo.
Os astros da música sertaneja, sucesso desde o final da década de 80 do século passado, com a ascensão de Chitãozinho e Xororó, com a dupla Sandy e Júnior e o o mega sucesso de Leandro e Leonardo, figuram na lista dos mais bem pagos artistas do mundo. Nessa lista não podemos esquecer Zezé Di Camargo e Luciano.
Claro que tem muito trabalho e talento por trás de toda essa fama e fortuna. Não estou tirando o mérito disso, apenas questionando o nicho mercadológico que eles exploram, principalmente nas redes sociais, onde figuram como grande influenciadores do povo brasileiro.
Pois bem, apesar de viverem o dia-a-dia de pessoas multimilionárias, os cantores sertanejos ‘fazem questão’ de passar uma imagem brejeira, quase matuta, encantando os milhões de fãs que se aglomeram em grandes cidades brasileira e nunca viram uma plantação de milho ou feijão na vida.
Essa imagem rancheira tem turbinado as carreiras dos cantores sertanejos, vendendo uma ideia simples e poderosa. Todos eles, no fundo, espertamente exploram esse lado simples para cativar seus públicos, cada vez maiores e mais rentáveis do que nunca.

Uso político

Chamou a atenção do mundo político os apoios declarados dos principais astros da música sertaneja ao até então candidato a presidente da República, o tucano Aécio Neves. Ali começou o que podemos chamar hoje de movimento sertanejo de direita.
Analisando o mundo desses cantores não é difícil imaginar porque quase 100% deles apoiaram abertamente e entusiasticamente a eleição do atual presidente, o ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro. Com uma trajetória ultradireitista, Bolsonaro sempre foi representante do que há de mais preconceituoso na política brasileira. Machista, sexista, misógino, racista e profundamente reacionário.
Os cantores sertanejos, como disse anteriormente vivem uma vida de multimilionários, proprietários de grandes extensões de terras e, portanto, patrões. Eles estão longe, muito longe de serem peões. Na verdade suas fortunas alimentam a agroindústria, principalmente a pecuária. Muitos deles estão envolvidos em grandes projetos agropecuários e não têm o menor interesse em reforma agrária ou qualquer outra bandeira da chamada esquerda brasileira. Daí a explicação por se alinharem tão fortemente ao candidatos da direita tupiniquim chamado Jair Bolsonaro.

Reacionários ao extremo

Com a eleição de Jair Bolsonaro, os sertanejos se viram no ‘paraíso’, pois, finalmente tinham ‘um deles’ no poder político. Um homem com linguajar chulo, mas que, na verdade, sempre viveu como rico.
A plataforma de campanha de Bolsonaro encantou os sertanejos, pois o então candidato falava abertamente contra índios, negros e ‘todo tipo de gente’ que quer um pedaço de terra para viver. Ele também defendia o armamento completo dos proprietários rurais, música aos ouvidos dos sertanejos e do seu público. A ojeriza contra ambientalistas e defensores dos direitos humanos também fez parte deste encantamento dos astros da música sertaneja, ‘afinal, para que descendentes de escravos com terras, não é mesmo?’.
Até hoje, mesmo o governo com sinais claros de decadência, muitos artistas ainda figuram nas fotos ao lado do ‘mito’ deles. Afinal, nunca tivemos um presidente tão sintonizado com as bandeiras reacionárias da política mundial.
Esse alinhamento com o que há de mais atrasado, faz dos sertanejos cúmplices do desastre que temos atualmente no país.
Sim, eu os culpo. Eles foram responsáveis pela massificação do candidato mais atrasado que tivemos em décadas. Eles avalizaram para seu público um político com plataforma eleitoral totalmente contra o jeito simples de ser do povo, pois aposta cada vez mais no agronegócio em detrimento da agricultura familiar, tão presente na música sertaneja.
Aquele sítio no interior que produz algumas centenas de litros de leite para abastecer as cidades está com os dias contados. A política de governo é apenas de privilegiar os grandes proprietários de terras, cortando todo e qualquer subsídios aos pequenos.
Assim, o Brasil corre sério risco de ver cada vez mais brasileiros morrerem de fome, apesar de termos um dos maiores espaços agricultáveis do planeta terra.
Ao contrário do que vemos nas imagens da Rede Globo de que o Agro é Pop, as grandes propriedades brasileiras, altamente mecanizadas, produzem apenas milho e soja para vender ao exterior. Além disso, quase 80% da água do país vai para essa indústria de destruição da natureza, com suas grandes fazendas de engorda de gado para, também, abastecer o mercado internacional.
Com isso, o arroz e feijão nosso de cada dia fica mais caro. Frutas e verduras também, já que a grande indústria do agronegócio não dá conta do mercado interno como deveria, pois prioriza produção de carne, milho e soja para vender ao exterior.
O agronegócio não mata a fome, como afirma, não gera emprego e tampouco é sustentável, como às vezes tem a cara de pau de propagandear. Em relação à dimensão econômica, um dos aspectos dessa mentira é o alto custo de produção que muitas vezes encosta ou ultrapassa o preço de venda das mercadorias.
O agronegócio movimenta sim uma fatia grande da economia. No entanto, privilegia empresas multinacionais e a produção de mercadorias agrícolas, e despreza a produção de comida de verdade, que vai pra mesa, virando as costas para a grande maioria dos agricultores do país, os agricultores familiares.
Essa herança de um Brasil com senhores de escravos donos de enormes pedaços de terra é a raiz dos conflitos que vemos hoje: mais da metade das terras agriculturáveis do país estão concentradas nas mãos de poucas famílias e empresas. E os ruralistas justificam essa enorme concentração se inserindo no agronegócio a nível mundial, embora a propriedade familiar, que ocupa uma  parcela ínfima das terras brasileiras, produza 50% dos alimentos consumidos no país.

Veneno na mesa

Outro grande e grave problema brasileiro é o uso indiscriminado de veneno nas lavouras nacionais. Mais de 60% dos alimentos produzidos contêm insumos agrotóxicos, e todos os anos são utilizados 7,3 litros de veneno para cada habitante do país. Em 2019, o Brasil completou 12 anos liderando o ranking de maior consumidor de agrotóxicos do planeta.

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