Sem carro para vender, concessionários cobram R$ 200 mil de montadora

Ford destruiu 900 carrocerias inacabadas de Ka e Eco na Bahia; sem produto, distribuidores exigem dinheiro de fundo milionário

Sem carro para vender, concessionários cobram R$ 200 mil de montadora

Ford destruiu 900 carrocerias inacabadas de Ka e Eco na Bahia; sem produto, distribuidores exigem dinheiro de fundo milionário

Por UOL | Edição do dia 10 de março de 2021
Categoria: Brasil | Tags: ,,


Foto: Reprodução

Com os estoques de Ka e EcoSport quase acabando, após a Ford encerrar em janeiro a produção de veículos no Brasil, a rede de concessionários da marca notificou a montadora extraoficialmente na semana passada, cobrando o pagamento imediato de R$ 200 milhões.

O montante milionário é referente ao FAV, o Programa de Aquisição de Veículos Ford. O fundo serve para bancar a compra de veículos da companhia pelos respectivos distribuidores para posterior revenda ao consumidor, sem a necessidade de se recorrer a uma linha de crédito e proporcionando subsídio parcial de IOF e a não incidência de juros.

O FAV também tem a finalidade de manter a sustentável a operação dos revendedores em tempos de crise financeira e de aumento sazonal de gastos, como a cada fim de ano, quando os funcionários recebem o 13º salário. Procurada pela reportagem para comentar a demanda, a Ford informa que “continua em processo de negociação individual com os distribuidores da marca e essas negociações têm progredido”.

Embora seja gerido pela Ford, seguindo condições previamente definidas, os recursos que compõem o fundo são provenientes da venda de automóveis da montadora pelos seus concessionários. Segundo um distribuidor que conversou com UOL Carros sob a condição de anonimato, a cada carro comercializado, 1% do valor recebido é direcionado ao FAV.

“Esses R$ 200 milhões são de propriedade dos concessionários e hoje estão retidos pela Ford. Há colegas que têm mais de R$ 6 milhões a receber. Com o iminente fim da linha dos modelos Ka e EcoSport, responsáveis por 85% do volume de vendas, hoje a Ford praticamente não tem como transformar os recursos do fundo em mercadoria”, diz a fonte.

Tivemos acesso à notificação encaminhada para a cúpula da montadora pela Abradif (Associação Brasileira dos Distribuidores Ford), que atualmente negocia a recomposição da rede de concessionários nesta nova fase, na qual a empresa venderá apenas modelos importados.

“O encerramento das operações de manufatura nas fábricas de Camaçari [BA] e de Taubaté [SP] altera as condições ajustadas de comum acordo, causando efeitos econômicos e comerciais que geram desequilíbrio à equação financeira originariamente estabelecida no Programa FAV”, diz o documento, de 4 de março.

Ainda de acordo com a notificação, o prazo de cinco dias para o pagamento dos recursos teria acabado ontem, levando-se em conta a data que nela consta.

“Não há mais razão da manutenção do FAV, na medida em que os valores devem ser desbloqueados integralmente, vez que não há mais veículos a serem garantidos pela operação, impondo-se, assim, a liberação do saldo integral existente para cada concessionário, imediatamente”, acrescenta o documento.

Negociações tensas

Foto: Divulgação

Os planos da Ford são de reduzir a quantidade dos atuais 283 revendedores para cerca de 120. As tratativas seguem tensas e uma parte dos distribuidores avalia judicializar o caso. Projetando queda de até 90% no faturamento, a categoria alega quebra de contrato e reivindica o desligamento imediato de todos concessionários, com o pagamento de indenizações superior a R$ 1,5 bilhão e posterior recontratação daqueles que deverão permanecer.

A Ford tem US$ 4,2 bilhões (R$ 24,3 bilhões) alocados para bancar os custos do fechamento das suas duas fábricas, que hoje produzem apenas peças de reposição e encerrarão as atividades ao longo deste ano. Houve acordo para a manutenção dos empregos dos cerca de 5.000 funcionários diretos enquanto perdurar a produção de componentes.

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