Seis são denunciados por espancar médica que reclamou de festa na quarentena

Nenhum deles teve a prisão pedida pelo MP-RJ, mas o órgão pediu que eles sofram restrições como uso de tornozeleiras eletrônicas.

Por Estadão | Edição do dia 3 de outubro de 2020
Categoria: Brasil, Notícias | Tags: ,


Seis pessoas foram denunciadas à Justiça nesta sexta-feira, 2, pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) por lesão corporal grave em função das agressões à médica Ticyana D’Azambuja, de 35 anos, em 30 de maio, no Grajaú (zona norte do Rio). Ela foi espancada e teve o joelho esquerdo quebrado após reclamar do barulho de uma festa na casa vizinha, ser ignorada e danificar o carro de um dos convidados. O evento infringiu as regras de distanciamento então em vigor por conta da pandemia do coronavírus.

Foram denunciados Rafael Martins Presta, dono da casa e promotor da festa, Rafael Del Giudice Ferreira, Rodrigo Lima Pereira, Luis Claudio dos Santos, Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro e Ester Mendes de Araújo. A Justiça agora vai analisar se aceita ou não a denúncia. Se aceitar, eles viram réus, e cada um poderá ser condenado a até cinco anos de prisão.

Nenhum deles teve a prisão pedida pelo MP-RJ, mas o órgão pediu que eles sofram restrições como uso de tornozeleiras eletrônicas e proibição de se ausentar da comarca sem autorização da Justiça.

Salgueiro é sargento do Batalhão de Choque e dono do carro danificado, um Mini Cooper Paceman modelo 2014 que teria sido comprado por R$ 200 mil, segundo o MP-RJ. A PM investiga se o patrimônio dele é compatível com seus vencimentos.

O Estadão tentou localizar representantes dos seis acusados, sem sucesso, até a publicação desta reportagem.

O episódio

Em 30 de maio, a médica chegou em casa, na rua Marechal Jofre, após um plantão de 24 horas em hospital onde tratava doentes de covid-19, e não conseguiu dormir durante a tarde porque, na casa ao lado, seu vizinho Rafael Martins Presta, comerciante que completava 38 anos, comemorava seu aniversário em festa com convidados e música alta.

Por conta da pandemia, aglomerações estavam proibidas no Rio de Janeiro desde março, mas essa festa fazia troça com a proibição – usava até uma referência à covid-19 como tema de copos personalizados. Ticyana diz ter tocado a campainha da casa e tentado pedir que o volume da música fosse reduzido. Mas foi ignorada, e então pegou um martelo e com ele quebrou um espelho retrovisor e o vidro traseiro do carro do policial militar Luiz Eduardo dos Santos Salgueiro, um dos convidados da festa.

O vizinho e alguns convidados então saíram da casa. A médica tentou fugir correndo e pediu auxílio a um motoboy que passava pela rua, mas foi alcançada por Presta e um amigo. O vizinho da médica então a imobilizou, no meio da rua, e aplicou um golpe que causou o desmaio de Ticyana. Ela foi arrastada por Salgueiro, acordou e foi ameaçada e agredida por outros convidados da festa.

As agressões foram testemunhadas por várias pessoas que não participavam do evento, inclusive bombeiros de um quartel que funciona em imóvel vizinho à casa de Presta. Um outro vizinho de Ticyana foi o único a tentar intervir, impedindo a continuidade das agressões e ameaças, e acabou agredido por Rafael Pereira, outro convidado da festa. Imagens de câmeras de segurança e mesmo gravadas por testemunhas mostram as condutas dos envolvidos.

A médica foi socorrida após ter o joelho esquerdo quebrado e as mãos pisoteadas. Em 13 de junho ela se submeteu a cirurgia que instalou dois parafusos no joelho. Ela ainda se recupera das lesões.

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