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Saída de dólares do país somou US$ 44,7 bilhões no ano passado

G1 / 10:56 - 09/01/2020

Valorização da moeda norte-americana é a maior em 38 anos no Brasil


dólar

Em um ano marcado por sucessivos recordes na cotação do dólar, a retirada de dólares da economia brasileira superou o ingresso de divisas em US$ 44,768 bilhões. Os números de 2019 foram divulgados nesta quarta-feira (8) pelo Banco Central.

Essa é a maior fuga de divisas do país desde o início da série histórica da instituição, em 1982, ou seja, em 38 anos. Até então, a maior saída havia sido registrada em 1999, quando US$ 16,18 bilhões deixaram a economia brasileira. Veja o histórico abaixo

 Naquele ano, o governo Fernando Henrique Cardoso abandonou a política de bandas cambiais, instituindo a livre flutuação cambial (com intervenções para corrigir “distorções” de mercado), acompanhada por objetivos para contas públicas e pelo regime de metas para inflação – o chamado “tripé macroeconômico”, que vigora até os dias atuais.

A entrada de dólares se dá quando investidores enviam dinheiro ao Brasil para pagar por compra de produtos brasileiros ou para realizar aplicações financeiras e investimentos em empresas, por exemplo.

O dólar sai quando esses investidores retiram recursos do Brasil para, normalmente, aplicar em outros países, ou para pagar pelas importações realizadas. Essas operações ocorrem por meio de remessas feitas por bancos contratados por esses investidores.

Os números do BC mostram que, no ano passado, os dólares saíram por contas de operações financeiras, que envolvem investimentos estrangeiros diretos, recursos para aplicações financeiras, além das remessas de lucros e dividendos (parcelas dos lucros) e empréstimos tomados no exterior, entre outros.

Investidores retiraram US$ 62,244 bilhões da economia brasileira em 2019 por meio de transações financeiras. Somente da bolsa de valores, os investidores estrangeiros retiraram R$ 44,5 bilhões em 2019 – o maior volume de toda a série histórica divulgada pela B3, iniciada em 2004.

Em todo o ano passado, as operações da balança comercial (fechamento de câmbio para exportações e importações) resultaram no ingresso de US$ 17,475 bilhões no país.

Em tese, a saída de dólares favorece a valorização da moeda norte-americana em relação ao real. Isso porque, teoricamente, com menos dólares no mercado, seu preço tende a subir.

No ano passado, a moeda norte-americana bateu sucessivos recordes de alta, chegando ao pico de R$ 4,25. Entretanto, recuou no fim do ano, fechando 2019 com um crescimento mais modesto, da ordem de 3,5%, cotada em R$ 4,0098.

Segundo analistas, estes foram alguns dos fatores que pressionaram o dólar no ano passado:

  • guerra comercial entre Estados Unidos (EUA) e China;
  • cenário político da América do Sul;
  • articulação política entre os poderes Executivo e Legislativo no Brasil;
  • queda da taxa básica de juros (Selic), que diminui as aplicações em renda fixa no país.

O chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, avaliou que a disparada do dólar foi puxada, principalmente após o mês de julho, pelo acirramento da guerra comercial entre os Estados Unidos (EUA) e a China, além das prévias das eleições presidenciais na Argentina.

Segundo Velloni, contribuíram ainda para o aumento do dólar “ruídos” vindos da cena política brasileira, com destaque para as dificuldades de articulação política entre os poderes Executivo e Legislativo, além de turbulências políticas e sociais no Chile, Bolívia e Colômbia – impactando os emergentes.

Na visão do economista Sidnei Nehme, da NGO Corretora, porém, não há “qualquer risco de crise cambial, o que é uma situação privilegiada no contexto dos emergentes”.

A Argentina, por exemplo, tem tomado medidas para evitar a retirada de recursos do país, como uma taxação para compra de moeda estrangeira.

Em comunicado, Nehme avaliou ainda que o “frisson” no mercado financeiro mundial em torno do conflito envolvendo o Irã e os Estados Unidos acaba por “fomentar a crença no pior cenário, que a grande maioria não acredita efetivamente factível”, e que o “Brasil não é uma ilha”.

Nehme sugeriu atenção, mas acrescentou que “nada sugere que ocorra mudança brusca para postura tão defensiva, até porque grande parte ou quase a totalidade dos investidores estrangeiros já se retirou do país e agora estamos esperando o retorno, não mais como capital especulativo”.

Atualmente, o Brasil possui US$ 357 bilhões em reservas internacionais.

O mercado financeiro prevê que a taxa de câmbio terminará esse ano em R$ 4,09 por dólar, segundo pesquisa conduzida pelo Banco Central na semana passada, com mais de 100 instituições financeiras.


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