Representatividade no cinema: mulheres e negros como protagonistas de histórias

Representatividade no cinema: mulheres e negros como protagonistas de histórias

Por | Edição do dia 10 de junho de 2016
Categoria: Cinema, Diversão | Tags: ,,,,,


Georges Méliés, “o grande mágico proprietário do Teatro Robert Houdin de Paris”, ficou encantado com o equipamento “Cinématographe” dos irmãos Lumière, que projetava numa telas as imagens em movimento. Desde então, o cinema nunca perdeu sua magia, e sempre fez questão de mostrar que qualquer realidade é válida quando se trata de produções cinematográficas. Toda mesmo?

Doctor Who, Harry Potter e 007. Certamente os leitores já ouviram falar sobre essas grandes produções britânicas. Mas, além do fato de terem se tornado clássicos, quais as outras semelhanças entre eles? Todos foram alvo, em algum momento, de questionamentos sobre mudanças no elenco em relação ao protagonismo da mulher e à representatividade negra. Vamos adiante.

Doctor Who

Em 2013, a série britânica de ficção científica, Doctor Who, completou 50 anos de história. Durante todo esse tempo, desde 1963, 11 atores brancos interpretaram o personagem principal da série.

O enredo fala do Doutor, que viaja no tempo e no espaço e tem a possibilidade de se regenerar antes de morrer. Ele tem o poder de mudar de aparência e personalidade, ainda conservando todas as suas memórias.

A pergunta que nós colocamos aqui é a seguinte: por que, durante todos esses anos, nenhum homem negro foi colocado como o personagem principal da série? Por que nenhum deles pôde ser uma mulher?

Para a estudante de Psicologia, Wélia Passos, padrões centralizadores da sociedade pode representar esse reflexo das escolhas no casting da série.

“Eu acho que pela série ser britânica a ideia de beleza eurocentrista está muito presente. Já li sobre possibilidades de haver uma mulher na interpretação do Doctor, mas nada que fosse confirmado, pelo menos que eu tenho visto. Mas sobre um Doctor negro não se fala muito. Acho que isso sofre influência do ideal branco de beleza europeia”, explicou.

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Em 2011, com 50 anos de história, a série contava com 11 atores brancos interpretando o papel de Doctor Who (Foto: internet)

Segundo o site Afronte, a série teve duas diretoras em 2013 e 85 diretores ao longo desses anos. Analisando o tempo da série e todas as mudanças de elenco que já aconteceu na série, esse cenário é esmagador. A desigualdade não fica apenas na frente das câmeras, mas atrás delas também.

“Acho que a série reflete a desigualdade da posição da mulher na sociedade. Por exemplo, a ideia da companion ser mulher me incomoda, porque é como se a mulher não pudesse ser o personagem principal, mas sempre está lá como quase. Alguém que é a ‘força’ do protagonista. Não gosto muito disso, parece aquela expressão ‘Por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher’. Isso sem falar que, pelo que me parece, o universo de ficção científica e nerd é tomado por um machismo que às vezes assusta. Não é surpresa essa desigualdade, mas é algo que precisa urgentemente ser superado”, explicou a estudante.

Harry Potter

A autora britância J.K. Rowling presenteou o mundo com uma série de sete livros de fantasia que virou uma saga de produções cinematográficas. A última produção,  Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte II, foi lançado em 2011, mas parece que a história do jovem bruxo Harry Potter e seus fiéis companheiros Ronald Weasley e Hermione Granger estão muito longe de acabar.

Quem dera que fosse mais uma trama de Lord Valdemort. A questão aqui é sobre racismo e representatividade.

No próximo mês de julho, estreará nos teatros britânicos, a peça Harry Potter and the Cursed Child (Harry Potter e a Criança Amaldiçoada). No elenco recentemente apresentado, está a atriz Noma Dumezweni no papel de Hermione Granger. A atriz é negra e alguns fãs ficaram chocados com a escolha dela.

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Ron, Hermione e sua filha Rose em The Cursed Child (Foto: internet)

A estudante de Relações Públicas, Thayná Martiliano, é fã de Harry Potter e não ficou “chocada” com a escolha. Muito pelo contrário.

“Eu acho que a escolha foi maravilhosa. J.K sempre foi muito consciente do papel de Harry Potter na vida dos jovens, e isso até mesmo após o ‘fim’ da saga nos cinemas. Acho que a revolta é puro preconceito. A Hermione sendo negra não muda em nada a personagem e a força importância que ela tem nos livros”, explicou.

A própria autora se posicionou às críticas racistas à Hermione, que nos livros, nunca recebeu descrição da sua cor de pele. Ela falou ao The Observer:

“Com minha experiência em mídias sociais, eu imaginei que idiotas seriam idiotas. Mas o que você pode dizer? Esse é o jeito que o mundo é. Noma foi escolhida porque ela foi a melhor atriz para o trabalho”.

Para Thayná Martiliano, é importante sim colocar uma mulher negra como protagonista de uma história que é conhecida no mundo todo.

“Mesmo estando em 2016 é muito raro ver papéis de mulheres negras como protagonistas em sagas ou em papéis fortes que fujam do estereótipo (a empregada, a escrava, a sofrida). Hermione negra é um banho de representatividade para todas nós meninas e mulheres negras”, concluiu.

James Bond – 007

Outra produção que tem ganhado destaque sobre escolhas no elenco e representatividade é o James Bond – 007. Tudo começou quando o ator Daniel Craig, atuando como o agente desde 2006, informou que não seria mais o protagonista da história. Posteriormente, começaram a surgir várias “apostas” de quem seria o próximo a atuar, inclusive propostas de atrizes.

Por que o próximo 007 não pode ser uma mulher? Carolina Santana é estudante de Jornalismo e acredita que essas mudanças podem acontecer não só por representatividade, mas também porque as atrizes não estão nenhum um pouco atrás dos atores quando se trata de talento.

“Seria genial ter uma mulher como 007 – Jane Bond. Por que não pensar nisso?! Atualmente a mulher está em um patamar de total igualdade com os homens. Em termos de talento e competência não ficam atrás. Isso abriria portas para muitas discussões e esclarecimentos”, explica.

Nos filmes de 007, as “Bondgirls” sempre apareceram para serem mais uma mulher para satisfazer temporariamente o personagem principal. Conforme o movimento feminista foi crescendo, suas personagens começaram a aparecer com mais atitude, deixando de lado o sexismo e a mulher vulneral que fazia parte das histórias.

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Lea Seydoux e Daniel Craig em 007 Contra Espectre (Foto: internet)

Ano passado, a Folha de S. Paulo divulgou que ao longo dos 24 filmes da série, James Bond conquistara 57 mulheres e ficou no “quase” com algumas outras e os números não param por aí. Na era de Roger Moore, o terceiro a atuar como Bond no cinema, teve 24 bondgirls, fez sexo com 19 e teve 27 encontros sexuais explícitos.

“O cinema de Hollywood, por exemplo, ainda é muito ‘quadrado’ para tal situação acontecer. Isso é muito claro quando sabemos que atrizes recebem bem menos que os atores, mesmo que sua popularidade esteja mais em alta, isso é um retrocesso. Por que não tirar a mulher do mesmo papel de sempre bond girl, linda e não protagonista e colocá-la na frente das câmeras como a super agente que salvou o mundo? Acho a ideia muito válida. Inclusive isso já acontece em uma série de tv americana, com a SuperGirl, versão feminina do Superman”, comentou a estudante Carolina Santana.

Um ator negro?

Em 2015, a atriz Viola Davis, subiu ao placo da cerimônia de premiação do 67º Emmy Awards para receber, como primeira negra da história, o prêmio na categoria “Melhor Atriz em Drama”. Ela fez um discurso emocionante sobre representatividade negra e igualdade de oportunidades. A próxima pergunta é: por que não um James Bond negro?

Após a saída de Craig, os rumores sobre um ator negro para representar o agente na nova história também ganhou espaço na mídia. Fãs pediram que os diretores considerassem o nome do ator britânico Idris Elba (Luther; Mandela: Long Walk to Freedom).

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O ator britânico Idris Elba foi um dos escolhidos dos fãs para ser o próximo 007 (Foto: internet)

A estudante de Jornalismo também comentou sobre a escolha de um ator negro para o papel principal.

“Gosto muito da franquia de 007, mas claro que sinto falta de um ator negro. Isso acontece em muitas franquias norte americanas, não é nenhuma novidade. Infelizmente tudo parte do principio do preconceito racial. Se você perceber, logo chegará a essa conclusão.  ‘Cleópatra’ é interpretada por uma atriz branca, se parar para pensar talvez os africanos do Egito não sejam caucasianos. Isso é só mais um exemplo de que o cinema americano tem pouquíssimos castings onde os negros são protagonistas. Não foi a toa que alguns atores negros,  como o Will Smith e sua esposa, fizeram boicote ao Oscar esse ano. A franquia já faz sucesso há muitos anos, creio que seria importante para a comunidade negra ter um ator que representasse por um tempo o 007”, concluiu.

O assunto vai muito além do que um Doctor Who mulher, uma Hermione negra ou um James Bond negro. Essa é só uma pequena parte de algo muito maior e emergente. É uma questão do cinema e quem o gere começarem a questionar e a colocar o olhar sobre as demandas populares necessárias de quem consome esse meio de comunicação de massa.

 

 

 

 

 

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