Qual o papel dos eventos culturais em uma Olimpíada

Qual o papel dos eventos culturais em uma Olimpíada

Por | Edição do dia 26 de julho de 2016
Categoria: Cultura | Tags: ,,


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Simulação de show de luzes, que teria encontro entre Poseidon e Iemanjá seguido pela explosão de um vulcão: apresentação foi cancelada (Foto: Divulgação/O Globo)

A Olimpíada do Rio é o primeiro evento do tipo desde 1992 que não organizou uma programação cultural extensa, iniciada anos antes, que culminasse com a realização dos Jogos. Em vez disso, a programação é focada no ano olímpico, em especial no período das competições, que ocorrem agora em agosto.

Mesmo com uma programação já restrita, o governo federal reduziu seu apoio aos eventos do gênero, o que levou ao cancelamento de atrações recentemente, segundo informam reportagens dos jornais “Folha de S. Paulo” e “O Globo”.

R$ 85 milhões
Foram prometidos para as Olimpíadas pelo Ministério da Cultura

R$ 12 milhões
Foram liberados até maio de 2016, segundo o governo federal em nota à agência alemã de notícias Deutsche Welle

Os cancelamentos representam mais do que a perda de atrações que entreteriam turistas. De acordo com o artigo “O Papel das Artes e da Cultura nos Jogos Olímpicos”, publicado em 2008 pela espanhola Beatriz Garcia, especialista em sociologia urbana, eventos culturais solidificaram seu espaço nas Olimpíadas desde a segunda metade do século 20. Estes são alguns benefícios dos eventos culturais para as cidades-sede:

– Ter a própria capacidade cultural reconhecida
– Melhorar os serviços e infraestrutura de cultura
– Melhorar a infraestrutura no geral
– Servir de vitrine para a diversidade cultural e folclórica do país
– Projetar e mudar internacionalmente a imagem da cidade

O que as apresentações culturais representam nas Olimpíadas

A associação entre cultura e as Olimpíadas é tão antiga quanto a competição. Nos jogos antigos, atletas, filósofos, pensadores, poetas, músicos, escultores e líderes exibiam seus talentos artísticos.

Essa tradição estava entre as preocupações de Pierre de Coubertin, estudioso francês que pesquisava o papel da educação física na formação de jovens e que foi um dos grandes idealizadores das Olimpíadas modernas.

Para Coubertin, o “espírito olímpico” compreendia não só o treinamento do corpo, mas também o cultivo do intelecto e do espírito.

“O sonho de Coubertin era o de criar um ambiente da sociedade moderna em que artistas e atletas poderiam novamente se inspirar mutuamente”
Beatriz Garcia
‘O Papel das Artes e da Cultura nos Jogos Olímpicos’

Os três primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, de Atenas, Paris e St. Louis, não contavam com atividades artísticas. Preocupado com isso, Coubertin criou em 1906 uma “Conferência consultiva sobre Arte, Letras e Esporte” em Paris, para a qual convidou artistas, escritores e especialistas em esporte.

Eles discutiram “em que medida e de que forma artes e letras poderiam participar da celebração dos Jogos Olímpicos modernos e se tornar associados, em geral, com a prática de esportes, de forma a ganhar com eles e enobrecê-los”.

O Pentatlo das Musas

As artes foram incluídas nos Jogos Olímpicos de Estocolmo de 1908 na forma de competições envolvendo a entrega de medalhas nas áreas de pintura, música, literatura e arquitetura chamadas de “O Pentatlo das Musas”. Competições do tipo foram realizadas até 1948.

Elas estavam, no entanto, longe de serem um sucesso de público, o que fez com que o governo da Alemanha nazista investisse pesadamente em campanhas de propaganda para aumentar a audiência desse tipo de competição na Olimpíada de 1936.

Foi lá, por exemplo, que o ritual moderno da Tocha Olímpica foi lançado, no que Beatriz Garcia define como parte da “implementação de novos e espetaculares rituais” com “uso das artes para propósitos de propaganda” nos jogos.

Fim das competições e início dos festivais culturais

As dificuldades em torno das competições artísticas fizeram com que elas fossem abandonadas a partir dos jogos de 1956 em Melbourne, na Austrália.

A presença da cultura se dá nesse ano através de eventos de artes visuais e literatura e de música e teatro. O evento passava a servir, também, como janela para expor a cultura local.

“A mudança de uma competição para um festival foi extremamente bem acolhida, tendo em vista que o festival trazia uma quantidade significativa de comentários a respeito da contribuição da Austrália no campo das artes”
Relatório oficial dos jogos de Melbourne, citado por Beatriz Garcia em ‘O Papel das Artes e da Cultura nos Jogos Olímpicos’

Em 1992, os jogos de Barcelona implementaram um novo padrão de política cultural. A programação correspondia a um período de quatro anos terminados nos Jogos Olímpicos.

O objetivo era melhorar o ambiente urbano e expandir a projeção da cidade para além do período dos Jogos em si. Essa estratégia foi mantida por todas as cidades olímpicas desde então, algo que acabou limitado agora, nos Jogos do Rio.

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