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Pregação da intolerância

O DIA ALAGOAS / 8:58 - 07/04/2019


Religiosos têm como ofício defender a paz e a vida e propagar o amor, pelo menos é o que se presume. O trinômio paz, vida e amor encerra em si conceitos tais como tolerância, compreensão, bondade, perdão, acolhimento, enfim, tudo que possa representar o bem. Todos esses substantivos servem para lembrar que a característica de alguém que assume liderança espiritual é não beligerante.

Embora se saiba que ao longo da história guerras foram e ainda são travadas em nome da fé, na atualidade não há espaço para discursos “litúrgicos” que conclamem a hostilidade. No mundo moderno, notadamente o ocidente, onde o cristianismo impera, busca-se cultivar práticas que celebrem a paz, o perdão, a comunhão. Assim, é objetivo das inúmeras denominações religiosas que tem como fundamentos os preceitoa cristãos. Nesse tocante, é inconcebível que o espaço religioso – seja católico, protestante ou qualquer agremiação religiosa e que tenha como base a fé nos ensinamentos de Cristo possa minimamente sugerir, por mais tênue que seja, a violência como método de resolução de conflito.

Sendo assim, é inimaginável que um sacerdote possa apelar para o assassinato como recurso para combater um discurso que não faz parte de seu repertório. Segundo informações da mídia nacional, o bispo auxiliar do Ordinariado Militar do Brasil, Dom José Francisco Falcão, teria atacado o cantor Caetano Veloso em missa realizada em 31 de março. Na data, ainda de acordo com o que foi divulgado, celebrava-se o golpe militar de 1964. Na ocasião, o bispo teria afirmado que “gostaria de dar um veneno de rato” para o “imbecil que nos anos 70 cantou que é proibido proibir”.

Após repercussão e sob ameaça de processo por parte de Caetano Veloso, Dom Falcão emitiu nota onde argumenta que foi mal interpretado. Em um dos trechos do enunciado, o religioso destaca a fala segundo a qual houve distorção do que por ele fora dito. “Se eu pudesse encontrar essa pessoa que redigiu essa letra de música eu perguntaria: como assim, aceitaria comer veneno de rato ou então mastigar cianureto?”.

Para todos os efeitos a frase é imprópria pois denota a fúria, ainda que aparentemente controlada, de alguém pronto ao ataque, situação em que em nada faz lembra a missão de uma liderança espiritual. Muito embora seu autor destaque na nota que a pergunta foi dirigida ao interlocutor como questionamento e não como um desejo, ainda é, no mínimo, inconveniente tal declaração, mesmo em sentido simbólico, pois esta faz menção a uma morte provocada, o que vai frontalmente de encontro aos mandamentos cristãos.

O perdão sempre foi exaltado ao máximo nas pregações de Cristo e é exatamente o ponto fulcral onde sacerdotes deveriam mirar seus desejos, anseios e sugestões; antes de proferir sentimentos pessoais. Cultivando o perdão combate-se a intolerância, raiz de muitos males que nos dias atuais estão superdimensionados. Talvez assim, Dom Falcão não tivesse cultivado algum tipo de ressentimento e, dessa forma, se “proibiria” a um ataque desnecessário, a um artista cuja obra sempre primou pela liberdade – valor que a igreja deve defender a todo o custo.

País afora, outros atos violentos já se tornaram quase lugar comum nas igrejas cristãs. Por exemplo, fazer pose de atirador, armas em punho, mesmo que seja apenas uma representação destas, com mãos e dedos é por si só uma agressão descabida em qualquer ambiente social, quem dirá em uma igreja. No entanto, cenas como estas foram reproduzidas diversas vezes por religiosos apoiadores de Bolsonaro no período das eleições.

Tal situação só se justifica em ambiente policial/militar, local próprio para dar vazão aos treinamentos com as performances de atirador. Atente, mesmo que seja apenas uma simulação – fazendo uso de braço, mãos e dedos como arma, estamos diante de um ato de violência. Infelizmente estes casos tem uma raiz em comum: a vocação que este governo tem para a violência como panaceia contra todos os males.

E alguém que assim age concorda e parece estar a serviço do atual governo, nessa empreitada de combater todos os males, não com política públicas, mas sim com uma arma em punho e um discurso revanchista, sempre pronto ao ataque.

Para refrescar a memória, o atual presidente da República outrora pregou o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso e mais recentemente desejou com todo o vigor a morte da presidente Dilma Roussef por ataque cardíaco ou por câncer, grande exemplo de intolerância, atitude que sempre o distanciou da áurea de um líder.


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