Boa Noite!, Quinta-Feira - 18 de Abril de 2019

 

Pinheiro está afundando e Defesa Civil “só espera”

Deraldo Francisco / 8:16 - 07/01/2019

Tragédia social já foi registrada com quase 100 imóveis atingidos pelo “fenômeno”; centenas de vidas estão em risco


Dona Julieta Benedita, aposentada de 81 anos – que trabalhou muito tempo na Secretaria Estadual de Educação – não entende nada de geologia, geografia, abalo sísmico, tremor ou terremoto. Ela mora desde 1981 no apartamento 102 do Bloca B, no Conjunto Divaldo Suruagy, no Pinheiro. Dos 12 apartamentos do bloco, só o dela ainda está ocupado. Os outros foram evacuados devido aos riscos de desabamento.

No Pinheiro, há prédios inteiros desabitados. Dona Julieta resiste, mas não quer morrer embaixo dos escombros. “Às vezes eu penso que seria melhor eu morar no último andar. Assim, quando o prédio desabasse eu pulava pela janela já perto do chão”, disse ela. Doente, ela trata de um câncer de mama e faz exame com suspeitas de outro. Mora sozinha no apartamento, que considera o seu castelo. “Se tiver de morrer, morro aqui mesmo. Sei que todo esse mal que está sendo causado ao Pinheiro é proveniente dos trabalhos da Braskem na exploração do sal-gema. Mas, como a Braskem paga milhões de reais ao poder público de impostos, é natural que essa coisa fique como está”, comentou. Dona Julieta é apenas uma das milhares de pessoas que moram em casas ou apartamentos no Pinheiro e vivem o risco iminente de uma catástrofe. Conforme o grupo S.O.S Pinheiro há sete mil imóveis no bairro, deste 57 estão com rachaduras; 70 estão sendo monitoradas, 25 já foram abandonados pelos moradores e 10 – sendo três prédios e sete residências precisam ser interditadas urgentemente.

O grupo acusa a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec) e o Ministério Público Estadual (MPE) de agirem de forma muito lenta para um caso que exige pressa. “Daqui a pouco chegam as chuvas e voltaremos ao drama do ano passado”, disse Geraldo Vasconcelos de Castro Júnior, morador do bairro e membro do S.O.S Pinheiro. Ele contou que, há outros moradores nas mesmas condições que a Dona Julieta e que, para deixar a população do Pinheiro mais bem informada sobre o andamento da situação, houve no último sábado (5), uma grande reunião na Escola Santa Amélia, no período da manhã inteira. “Os estudos que já foram feitos revelam que já a necessidade da instalação de núcleos da Comdec no bairro. Nada disso foi feito. A população quer saber o que está acontecendo. Sabemos que se trata de algo muito grave, mas não queremos levar o pânico à população. Queremos as explicações técnicas convincentes e verdadeiras e as providências que serão tomadas para tranquilizar os moradores do Pinheiro”, disse Geraldo. Os fenômenos das rachaduras no Pinheiro existem há mais de 20 anos. Em média, o abatimento anual varia em 1,5cm a 2,0 cm. Isso é considerado muito elevado para estruturas rígidas. Como resultado disso: fissuras, rachaduras, rompimento de tubulações da Casal e aberturas de crateras ao longo do bairro, como já ocorreu diversas vezes.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O que diz o laudo sigiloso da CPRM

Num laudo da CPRM identificado como “sigiloso”, ao qual o a reportagem teve acesso, os técnicos relatam que “…devido à complexidade da questão, os estudos necessitam de tempo. No entanto, os resultados das primeiras ações já forneceram subsídios à Defesa Civil para a salvaguarda de vidas através de Plano de Contingência que está sob a responsabilidade desse órgão”. Conforme o grupo S.O. S Pinheiro, não há nenhum plano de contingência sendo elaborado pela Defesa Civil de Maceió.

O alarme sobre os riscos que os quase 22 mil moradores do Pinheiro correm foi dado no dia 3 de março de 2018 quando, no final da tarde, parte do bairro foi abalado por um tremor. O abalo, com magnitude de 2,5 foi detectado pelo radar da Universidade de Brasília (UnB), foi detectado às 17h30. Os técnicos da área não consideraram o sismo como um terremoto, mas a população, principalmente as de prédios mais altos ficou assustada. As pessoas foram para a rua em busca de explicações sobre o fenômeno. “Terremoto em Maceió?”.

Técnicos da Defesa Civil do Estado e do Município foram ao local e, como não podiam fazer muita coisa, providenciaram reforço federal para o caso. Uma equipe da Companhia de Pesquisas e Recursos Minerais (CPRM), ligada ao Ministério das Minas Energia, veio a Maceió para fazer os estudos.

Mapa da intensidade

Conforme o relatório, o “…caminhamento no bairro Pinheiro foi realizado a partir das indicações da Defesa Civil Municipal de edificações com sinais de instabilidade em evolução, com o aumento da intensidade das trincas. Foi realizado caminhamento nas áreas adjacentes às edificações mapeadas para averiguação de possível continuidade dos sinais de instabilização, mesmo que em menor intensidade, para avaliação e atualização do mapa de feições e de pontos de campo”.

A partir dos estudos foi possível elaborar um mapa com a intensidade das feições de instabilização dos imóveis. Foram detectadas uma área onde ocorre maior expressividade nas evidências, tanto pela quantidade de fissuras, trincas e rachaduras encontradas, como também pela maior abertura de persistência observadas, além da presença de sumidouros. Essa área foi considerada pelos técnicos como a de maior risco para os moradores.

”Na porção mais ao sul, as trincas principais passam aapresentar a direção N-S predominantemente, direção que coincide com a fenda que surgiu em 2010 nesse local. Há ainda várias trincas secundárias com direção NE-SW que são observadas de forma mais localizada em algumas porções da área. Há várias edificações com trincas e rachaduras consideráveis no piso, paredes, lajes, além de algumas construções com interdições parciais e totais efetuadas pela Defesa Civil. Para cumprir um dos objetivos da segunda etapa de campo por parte do SGB-CPRM, foram vistoriados pontos em que a Defesa Civil de Maceió constatou evolução das feições de instabilidade do terreno no período entre junho a setembro”, consta no relatório.

Estudos sugerem a interdição dos imóveis

Para se ter uma ideia do que envolve o “fenômeno das rachaduras” no bairro, estudo elaborado por técnicos da CPRM, recomendou uma ação imediata: “interdição de moradias mais severamente comprometidas e remoção dos moradores das residências”. Entre as ações mediatas está: preparação e estruturação de serviços públicos tais como policiamento; Corpo de Bombeiros, ambulâncias e hospitais, e até mesmo helicópteros preparados para a necessidade de atendimento e de ação emergencial”.

Após os estudos provados e comprovados, os técnicos da CPRM fizeram algumas sugestões ao poder público de Maceió para que fossem tomadas, com base nas avaliações feitas no bairro:

  • Elaborar Plano de Contingência Municipal contemplando, especialmente, as especificidades do Bairro Pinheiro;
  • Implantar núcleos de apoio comunitário, a fim de facilitar a comunicação entre população e Defesa Civil;
  • Desenvolver estudos de vulnerabilidade estrutural nas áreas de influência do processo, preferencialmente realizados, por técnico especializado e habilitado, Engenheiro Civil;
  • Desenvolver estudos de vulnerabilidade social nas áreas de influência do processo;
  • Desenvolver e implementar projetos de drenagem urbana e canalização do esgotamento sanitário, com objetivo de minimizar a infiltração de efluentes no terreno e, consequentemente, sua saturação;
  • Desenvolver estudos hidrogeológicos, com intuito de entender as características do aquífero existente na região, bem como suas possíveis influências no processo instalado;
  • Desenvolver estudos geofísicos, com finalidade de investigar possíveis estruturas em subsuperfície que possam ter influência na desestabilização do terreno;
  • Implantar e intensificar o monitoramento da evolução do processo, por meio de: Instalação de réguas nas trincas existentes, bem como a leitura e registro diário das medições, a fim de caracterizar a evolução do processo das diferentes áreas do bairro, com o cuidado de padronizar as réguas e sua colocação, além da forma de leitura e do registro das informações; Instalação e adensamento da rede de monitoramento sísmico na região, especialmente nas imediações do Bairro Pinheiro;

* Instalação de monitoramento interferométrico;

  • Estruturar a Defesa Civil Municipal, especialmente por meio da capacitação de técnicos.
  • Execução de ensaios geotécnicos (SPT, infiltração, caracterização de solos – LL, LP, granulometria e Raio X) em áreas do Bairro Pinheiro, afetadas pelo processo instalado e em áreas sem registro de deformação

O tempo passou e, nada ou quase neste sentido foi feito. Sugestões elementares como a instalação de núcleos comunitários para facilitar a comunicação dos moradores e a Defesa Civil. Nem isso foi feito. O que existe, na verdade, é uma visita dia sim dia não de uma equipe da Defesa Civil Municipal ao bairro, com três pessoas dentro que passam olhando as paredes rachadas e, invariavelmente param para conversar com a população.

Defesa Civil de Maceió pede apoio à Braskem

Numa recente reunião com representantes dos moradores do Pinheiro, o coordenador da Defesa Civil Municipal, Dinário Lemos, foi questionado sobre este assunto e disse que já havia localizado uma casa no bairro mas que, pelo fato de o imóvel estar bastante avariado, iria solicitar o apoio financeiro da Braskem para fazer a reforma. Ele deixou a todos atônitos porque a atuação da indústria no bairro é uma das principais suspeitas para o fenômeno do afundamento do Pinheiro. Num segundo estudo técnico feito na região a extração do sal-gema – que é realizado pela Braskem, cuja base fica no bairro do Mutange e a atividade industrial ocorre, exatamente “embaixo” do Pinheiro – a indústria foi citada como a primeira hipótese para o tremor e as rachaduras e fissuras nos imóveis do bairro.

A reportagem confirmou junto ao Setor de Relações Institucionais da Braskem que, de fato, a indústria vai pagar os custos com compra, reforma ou aluguel de imóveis para instalação de núcleos para monitoramento do fenômeno no bairro. Muito embora, a Braskem alegue que tem estudos próprios que isentam a exploração do sal-gema que qualquer problema desta ordem no bairro do Pinheiro. Ou seja: não deve, mas quer pagar.

Mas, além da hipótese de a exploração do sal-gema ser a responsável pelo afundamento do Pinheiro, a CPRM listou mais duas: super exploração do aquífero associado às péssimas condições da drenagem das águas pluviais, agredindo o solo e a ausência do saneamento básico que implica em mais de 8.000 sumidouros e “movimentos tectônicos”.

“Seja qual for a hipótese verdadeira para o caso, está anunciada uma catástrofe no Pinheiro. Resta apenas saber em que proporção isso vai ocorrer e quando vai ocorrer”, disse Geraldo Vasconcelos, do S.O.S Pinheiro.

Ele disse que está preocupado com a aproximação do período chuvoso. “Com fortes chuvas e as tradicionais inundações das ruas da bacia isso será acelerado e não sabemos a proporção que pode tomar. O ideal seria que a Defesa Civil do Município interditasse esse imóveis considerados de risco e retirasse os moradores. Não adianta apenas conversar. Tem que agir com responsabilidade. São vidas humanas que estão jogo. Pode uma ou pode ser dezenas”, disse ele.

Braskem diz que não tem relação com “fenômeno”

Diante dos acontecimentos no bairro do Pinheiro, em Maceió, a Braskem presta os seguintes esclarecimentos:

1) Até o momento não há nenhuma evidência que relacione o evento ocorrido na localidade com as operações da unidade de Mineração da empresa.

2) Visando contribuir com os estudos para determinar as causas do evento e assegurar uma resposta e solução mais rápida aos moradores do bairro e a toda a sociedade, a Braskem se colocou à disposição e, para isso, contratou consultores  e empresas especializados  para realização de estudos adicionais para apoiar os órgãos públicos (Defesa Civil de Maceió, Departamento Nacional de Produção Mineral, Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais e Ministério de Minas e Energia).

3) Além disso, conforme solicitação da Defesa Civil e do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), a Braskem deu início no terreno localizado no bairro do Pinheiro a uma avaliação dos poços desativados nesta região, e está apoiando a Defesa Civil do Município na instalação de um centro de monitoramento no bairro.

4) Importante salientar que, desde o surgimento da situação, a Braskem vem prestando todos os esclarecimentos necessários e devidos das suas atividades de extração de salgema.

A Empresa externa sua solidariedade com as famílias atingidas por essa situação e reafirma seu comprometimento em colaborar para que as causas sejam identificadas, prestando quaisquer esclarecimentos adicionais que se fizerem necessários. A  Braskem reafirma seu compromisso com  as questões de segurança, sustentabilidade e com a responsabilidade social.


Comentar usando