Petrucio Ferreira: choro e a consagração com ouro e recorde mundial

Petrucio Ferreira: choro e a consagração com ouro e recorde mundial

Por | Edição do dia 12 de setembro de 2016
Categoria: Esportes


Enquanto escutava o hino nacional, as lágrimas corriam no rosto de Petrucio Ferreira. A boca tremia, a medalha de meio quilo pesava no pescoço de uma forma prazerosa. No topo do pódio dos 100m T47 (amputados), na manhã deste domingo (11.09), no Estádio Olímpico do Rio 2016, o Engenhão, ele recordou o choro no dia a dia dos treinos, quando pensava em desistir dos últimos tiros, e o técnico Pedro de Almeida o lembrava que o esforço final poderia fazer a diferença. E fez muita. O atleta de 19 anos, nascido em São José do Brejo do Cruz (PB), foi campeão com sobra. Terminou a prova em 10s57, melhorando em dez centésimos o recorde que ele mesmo havia batido no dia anterior (10s67).

09112016_petrucio.jpg
Petrúcio emocionado no pódio no Engenhão. Foto: Gabriel Heusi/Brasil2016.gov.br

“Passou um filme na minha cabeça, com tudo aquilo que eu vinha trabalhando, aqueles dias que chorei nos treinos, os dias em que suei bastante, cheguei em casa e quase não conseguia tomar banho de tão cansado. A medalha é a minha recompensa. Subir no pódio, escutar o Hino Nacional ouvindo todo o estádio cantando junto é uma alegria que nem eu sei explicar”, contou.

A vitória com recorde mundial foi também uma redenção após a frustrante ausência no Mundial de Doha 2015, quando uma lesão no músculo posterior da coxa o tirou da competição “Esses 10 centésimos vêm de acordo com esses dois últimos anos em que venho trabalhando focado para chegar nestes Jogos. No ano passado, chorei bastante por estar no Catar e não poder participar do campeonato. Eu falei para o meu treinador que este ano seria o de dar a volta por cima”, disse.

Dos campos para as pistas

O atletismo é parte da vida de Petrucio há dois anos e meio. Antes, como muitas crianças brasileiras, havia tentado o futebol. Mas a explosão nas arrancadas chamou a atenção de um professor de educação física. O caminho para as pistas envolvia a mudança para a capital João Pessoa, e uma segunda mãe o acolheu. A medalha veio exatamente no aniversário de dona Maria Da Natividade, o que deixou a conquista deste domingo ainda mais especial.

“Hoje também é o aniversário da mulher que me apoiou bastante, que me deu um lugar para morar em João Pessoa para poder treinar e me dedicar mais ao esporte. Antes eu não tinha técnico. De uma hora para outra eu mudei do futebol para o atletismo e, quando surgiu a oportunidade, eu não tinha onde morar em João Pessoa. Ela me acolheu”, contou.

copy_of__ACT2417.jpg
Ouro e pódio ao lado do ídolo: prova inesquecível para Petrucio. Foto: Gabriel Heusi/brasil2016.gov.br

Ídolo, “repórter” e companheiro de pódio

Petrucio conheceu o esporte paralímpico ao ver uma reportagem na TV sobre Londres 2012. Ficou impressionado com as conquistas de Yohansson Nascimento (ouro nos 200m T46 e prata nos 400m da mesma classe). Alagoano de Maceió, Yohansson foi uma inspiração para Petrucio e, neste domingo, também companheiro de pódio: Yohansson ficou com o bronze com a marca de 10s79, mesmo tempo do polonês Michal Derus, que ficou com a prata após a análise do photofinish.

“Estamos juntos sempre, ele passa um pouco da experiência antes das competições, no dia a dia de treino. Até na hora de entrar no bloco, sabendo que estou do lado do Yohansson, me sinto confiante. Se eu não conseguir, ele vai conseguir a medalha”, explicou.

Após a entrega das medalhas, os dois brasileiros foram conversar com os jornalistas na chamada zona mista. Vários gravadores foram apontados para ambos, mas Yohansson não quis apenas responder perguntas. Assumiu a postura de repórter e entrevistou o jovem campeão. “Além da medalha que você vai levar para casa, o que você mais quer levar daqui do Rio para a cidade de São José do Brejo do Cruz, na Paraíba?”, perguntou o alagoano.

“Quero levar a minha alegria e o carinho da torcida brasileira não só para a minha cidade, mas para a vida toda”, respondeu Petrucio. A alegria da torcida é o combustível para ambos, que ainda vão correr os 400m e, juntos, vão disputar também o revezamento 4x100m T42-T47 ao lado de Alan Fonteles e Renato Nunes.

“Ainda quero ganhar a minha sexta medalha, que vai ser do lado do Petrucio no revezamento. Nós corremos amanhã, com a equipe fantástica que a gente tem.  Quero muito para dar mais uma alegria ao povo brasileiro”,  disse o atleta, que coleciona duas pratas, dois bronzes e um ouro e que vai em busca da sexta medalha em Jogos Paralímpicos.

“Cada medalha é uma história que a gente faz. Tenho um livro em branco e cada competição eu escrevo com as minhas medalhas. É extremamente difícil no esporte paralímpico você passar três ciclos entre os melhores do mundo. Você tem que se superar dia após dia”, afirmou.

Hoje adversários nos 100m, Petrucio e Yohansson vão correr juntos o revezamento 4x100m T42-47. Foto: Gabriel Heusi/brasil2016.gov.br

Petrucio vai atrás da segunda, para encher ainda mais de orgulho a família em São José do Brejo do Cruz – onde um telão foi montado para que a cidade pudesse acompanhar as provas –  e todos os brasileiros. O menino do interior da Paraíba está voando tanto nas pistas que já vislumbra desafios mais ousados.

“Futuramente, espero ter resultados melhores e um dia chegar a correr com os velocistas olímpicos. Posso até imaginar correr o Troféu Brasil de Atletismo com os atletas olímpicos. Como só tem dois anos e meio no esporte e não cheguei ao topo, ainda estou na fase de lapidação”, afirmou.

 

Brasil2016

Deixe uma resposta

Publicidade
 
 
Publicidade

2019 O dia mais - Todos os direitos reservados