Boa Tarde!, Sexta-Feira - 20 de Setembro de 2019

 

Pesquisador e investidor incentivam a cultura do bambu em Alagoas

Carol Amorim - Repórter / 8:00 - 08/09/2019

Bambu tem potencial para ser matéria-prima alternativa na construção civil, na fabricação de papel e até mesmo na fabricação de móveis


_DSC0515

Varas de bambu em estúdio de bioconstrução. Foto: Fabrício Melo

Assim como o eucalipto, o bambu tem potencial para ser utilizado como matéria-prima alternativa e chega a ser tão resistente quanto o aço, apontam os pesquisadores da planta. Entre as utilidades do bambu podem ser exploradas sua capacitada para o ramo alimentício, para a construção civil, para a indústria de celulose e entre tantas outras coisas. Porém, a planta não é disseminada em solo alagoano de forma organizada, apesar de o solo ser propício para a plantação. Ao se tratar de região, no Nordeste a produção de celulose é aquecida pelo bambu em Pernambuco.

Apesar da falta de incentivo público para o plantio do bambu, o bioconstrutor Luiz Castro é um dos poucos investidores da capacidade do bambu em Alagoas. Há cerca de cinco anos, ele decidiu investir numa empresa própria onde a planta é protagonista de seu serviço, mas, antes de tomar essa decisão, o bioconstrutor investiu em sua formação para o início da empreitada.

Para ele, o conhecimento sobre a planta aconteceu por acaso, em uma viagem a Indonésia. Ele conta que a planta é regra na construção civil do país e diversas construções do local são a base de bambu, ao invés de tijolos e madeiras. Em sua volta ao Brasil, ele se especializou em um curso, no Rio de Janeiro, para aprender as técnicas de tratamento do bambu e chegou a retornar a Indonésia para fazer outro curso para complementar seus conhecimentos. Hoje, ele vive na Praia do Francês, no município de Marechal Deodoro, e fez do local seu ponto comercial. Além de utilizar o bambu na construção civil, ele também utiliza a matéria-prima para a construção de móveis.

“Você não acha mão-de-obra adequada para o tratamento do bambu. Para montar o meu negócio, tive que ensinar aos meus funcionários a técnica”, revelou. Até o momento, ele empregou três funcionários para deixar a planta adequada para outros usos.

Para realizar o tratamento, ele explica que é necessário sais e água para que a parte orgânica da planta possa ser retirada. Esse processo leva cerca de 15 dias para que o bambu esteja pronto para ser utilizado como matéria-prima.

_DSC0491

Vara de bambu sendo tratada para posterior uso. Foto: Fabrício Melo

Benefício

Apesar da técnica específica, Luiz também conta que nem todo o processo do uso do bambu requer dificuldades. O plantio, por exemplo, ele diz que é de fácil manutenção, já que a planta, após ser germinada, brota espontaneamente sem precisar de replantio. O primeiro processo de crescimento dura cerca de seis anos. Depois, a planta pode ser colhida. Passada a primeira colheita, num intervalo de cerca de um ano e meio a dois anos, novas varas maduras poderão ser retiradas da planta.

A área para o plantio do bambu também não precisa ter muitos hectares e a planta é livre das pragas, fato que se reverte em economia para o produtor, ressaltou. Contudo, a planta é mais um tipo que necessita de solo fértil e úmido.

_DSC0505

Bioconstrutor Luiz Castro, em seu estúdio, na Praia do Francês. Foto: Fabrício Melo

O bambu utilizado por Luiz, em alguns casos, vem do Rio de Janeiro. Ele compra a matéria prima para ser utilizada em Alagoas. E, além da compra, ele também consegue retirar as varas do plantio nos terrenos de conhecidos, do plantio do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e do Parque Municipal de Maceió – se estima que o plantio localizado no parque é em uma das maiores áreas com bambu no Estado.

“Há décadas existe bambu no Parque. Lá, a planta foi colocada para segurar as encostas e acabou, com os anos, crescendo e se espalhando pelo local, como uma grama. Como não há uso regular das varas, há uma grande área por lá coberta por bambu”, explicou.

A espécie de bambu que predomina no espaço é a bambusa vulgaris, revelou Luiz. Essa espécie é uma das mais comuns de serem encontradas, principalmente, em Alagoas. Mas seu uso é restrito, já que ela pode ser melhor utilizada no artesanato, produção de celulose e na construção de móveis, do que na construção civil, por exemplo. Para a construção civil, outra especialidade de Luiz, a espécie de bambu mais apropriada seria uma que proporcionasse varas mais grossas, a exemplo do bambu gigante ou do bambu guadua. O uso do bambu na construção civil também seria mais econômico ao se comparar com o uso de alvenaria.

Desafio

Há poucos anos o bioconstrutor plantou uma série de mudas de bambu na fazenda de um amigo no município de Viçosa, porém, as mudas ainda não proporcionaram varas maduras, que são apropriadas para o uso como matéria-prima. Por causa disso, ele explica que ainda necessidade da compra do bambu que vem de outro estado, fator que encarece a sua produção.

“Se houvesse incentivo público melhoraria muito mais para mim e para outros que trabalham ou pretendem trabalhar com a planta. O serviço seria mais barato e ela poderia ser uma matéria-prima alternativa ao eucalipto. Inclusive, melhor que o eucalipto, por ser mais sustentável, ter grande durabilidade, não precisar de replantio, não prejudicar o solo e por não ser uma planta atrativa para pragas”, relata. Além disso, Luiz ressalta que o bambu também é uma opção atraente para a substituição de madeiras de árvores que amadurecem após 30 anos.

Até o momento, devido a falta de matéria-prima própria e da impossibilidade em comprar demasiada quantidade de varas, Luiz ainda não construiu uma casa inteira com bambu, mas tem essa meta em seus planos. Por enquanto, o bambu já foi utilizado como detalhes em algumas de suas construções civis, além já ter sido utilizado por completo na construção de móveis.

No início dos anos 2000, ele revelou que um projeto foi capaz de construir uma casa inteira feita com bambu em Maceió, mas que, posteriormente, o projeto não foi levado adiante e a casa, por sua vez, não teve o devido tratamento antes da construção, o que resultou no apodrecimento da madeira do bambu. Para o futuro, o bioconstrutor espera desmistificar esse fato e que a técnica de tratamento da planta, assim como incentivo a ela, possam ser disseminados em Alagoas, já que, para ele, o clima tropical do estado combina com a estética do bambu.

Incentivo

IMG_0078save

Plantação de bambu no Centro de Ciências Agrárias (Ceca) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Foto: Fabrício Melo

O projeto em questão, que construiu a casa de bambu, fez parte do extinto Instituto do Bambu (INBAMBU) em parceria com o Centro de Ciências Agrárias (Ceca) da Ufa e com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Segundo o professor da Ufal Eurico Eduardo Pinto de Lemos, mestre em botânica e pós-doutor em recursos genéticos, na época em que houve incentivo ao uso do bambu na construção civil no estado, mudas de bambu foram plantadas em parte do terreno do Ceca e, desde então, elas continuam no espaço para servir de matéria-prima para a atividade dos estudantes do local e para doações a comunidade.

IMG_0034

Professor Eurico Eduardo Pinto de Lemos, no Ceca, na Ufal, ao falar sobre o bambu. Foto: Fabrício Melo

O projeto acabou, mas cerca de 20 espécies de bambus estão dispostas, não apenas no Ceca, como nos outros campus da Ufal. “Nós já distribuímos mais de 10 mil mudas na época do instituto, porque tínhamos recursos para isso. As distribuições também aconteceram gratuitamente”, revelou.

Ele ainda informa que na época era o responsável pela coleção de bambu e que, durante os anos, continuou a ser, até hoje. E que as mudas doadas no período de incentivo foram direcionadas a algumas fazendas, que tiveram interesse na plantação.

Atualmente, o professor se diz aberto a outras parcerias e que plantas já foram doadas ao bioconstrutor Luiz Castro. No começo deste ano, ele recebeu visita do prefeito do município de Viçosa, Davi Brandão. De acordo com o professor, a visita foi motivada pela expectativa do prefeito em disseminar a cultura do bambu na cidade, já que a localidade tem vivência com o bambu através do artesanato.

“A coisa mais organizada que teve aqui em Alagoas foi o artesanato com o uso do bambu e a produção de palitos de churrasco. Em Viçosa isso é mais forte. Nas calçadas você vê todo mundo cortando esses palitinhos e ele pode ser feito com qualquer bambu, inclusive esses mais comuns que tem por aí”, expôs.

Ele ainda conta que, antigamente, antes do Instituto do Bambu, existiam bambuzerias e que elas eram apoiadas por usinas, a exemplo da Usina Capricho, localizada no município de Cajueiro.

Para Eurico, a cadeia produtiva do bambu poderia começar a funcionar, a partir da disseminação sobre o uso da planta, ao explicar como ocorre o plantio. Para que assim produtores pudessem se interessar e começar a plantar.

Ele ainda conta que, até o momento, desconhece a existência de algum programa específico para o incentivo do bambu no Estado e que, dentro do seu conhecimento, ele nota que há apenas o aparecimento de alguns produtores que, às vezes, o procura com o interesse em produzir bambu ou utilizá-lo como matéria-prima, a exemplo da parceria adquirida com o bioconstrutor Luiz Castro.

Questão de oportunidade

IMG_0098

Mudas de bambu no Ceca, na Ufal. Foto: Fabrício Melo

Ao se tratar de região, no Nordeste, ele aponta que a fabricação de papel de bambu se destaca por meio do estado de Pernambuco. E que, em outros momentos, o estado chegou a buscar o bambu de Alagoas para a produção de celulose.

“Há bambu espalhado em muitos lugares em Alagoas, nas estradas, em fazendas, mas ele não é direcionado ao uso organizado. Lá, em Pernambuco, a retirada das varas acontece como os cortes de cana, em grande escala, já que a planta tem direcionamento industrial”, informou.

Para a produção de celulose, ele ainda revela que o bambu mais comum encontrado em Alagoas, o bambusa vulgaris, propicia esse tipo de material. E que, além do papel, da construção civil e da construção de móveis, diversas espécies de bambus são capazes de originar outra diversidade de materiais, a exemplo do saco de cimento e até mesmo de alimentos, provenientes do broto do bambu.

Nos solos encontrados em Alagoas, no Nordeste e em outras localidades com clima semelhante, há capacidade para o plantio de espécies lenhosas de bambu – espécies essas que podem ser material base para diversas finalidades. Mas apesar disso, ele aponta que apenas os estados de São Paulo e Rio de Janeiro possuem plantações mais organizadas.

No mundo, Eurico estima que existam mais de 1200 espécies de bambus. E que o Brasil é um dos maiores produtores de bambu entre os países. Ele ainda estima que uma das maiores áreas com concentração de bambu no país se encontra na Amazônia, mas o uso do bambu da localidade é dificultoso por se conter em região de difícil acesso.

Enquanto isso, Eurico, além de zelar pela coleção das cerca de 20 espécies de bambu expostas dentro da Ufal, também dissemina o conhecimento sobre a planta através de cursos de extensão. Para este ano, ele será o responsável por ensina uma disciplina eletiva chamada “Cultura do Bambu”, para estudantes de Agronomia, Engenharia Florestal e Agroecologia da universidade. Dentro dos cursos, ele já proporcionou oficinas para a construção de objetos com bambu e pretende estimular ainda mais essas construções com a abertura da disciplina eletiva.


Comentar usando