Os desafios na educação de crianças contra o racismo

Construir identidade racial segura numa sociedade preconceituosa é ainda mais difícil na infância

Os desafios na educação de crianças contra o racismo

Construir identidade racial segura numa sociedade preconceituosa é ainda mais difícil na infância

Por | Edição do dia 8 de agosto de 2016
Categoria: Educação, Notícias | Tags: ,,,,


O Brasil é um país marcado pelo racismo e, infelizmente, não é raro presenciar ou ficar sabendo de situações desse tipo. Figuras públicas já foram alvos de ofensas, como o caso da jornalista Maria Júlia Coutinho, da Rede Globo, que sofreu com xingamentos nas redes sociais por conta da cor da sua pele, entre tantos outros. Construir uma identidade racial segura numa sociedade preconceituosa é complicado e para as crianças pode ser uma tarefa ainda mais difícil.

Elas estão numa fase de constante mudança e qualquer influência negativa pode afetar sua vida, tanto na infância, como no futuro. Pais e mães se veem com a responsabilidade de trabalhar o reconhecimento da própria identidade dos filhos.

A pedagoga Lucimar Santos é mãe do João Isac, de 7 anos, que tem o cabelo crespo, assim como o dela. “Quando eu estava grávida, decidi junto com o pai do Isac que não cortaríamos o cabelo dele até os 7 anos, como forma de construir sua identidade. O cabelo dele cresceu crespo como o meu e por conta disso, sofremos preconceito”, afirma.

Lucimar e Isac posam para divulgação de salão de beleza especializado em cachos. Foto: arquivo pessoal.

Lucimar e Isac posam para divulgação de salão de beleza especializado em cachos (Foto: arquivo pessoal)

A mãe conta que muitas pessoas chegavam a tocar e cheirar o cabelo do filho. Chegavam até a confundi-lo com uma menina. “Já pediram que eu cortasse o cabelo dele. Minha reação sempre foi de mostrar para meu filho que as pessoas são livres para fazer suas escolhas. Em alguns momentos, foi preciso ir até à escola para conversar e debater sobre essa questão com a direção, pais e professores”, explica.

A pedagoga não passou pelo mesmo trabalho de conscientização durante a infância. “Tudo que aprendi sobre preconceito e como lidar com ele foi no movimento estudantil e de mulheres. Com meu filho faço diferente, inserindo ele em movimentos culturais e apresentando a diversidade religiosa e de gênero, por exemplo. Quero que ele cresça sabendo que o mais importante é o respeito ao próximo, independente de suas escolhas”, finaliza.

Mãe faz questão que filho participe de movimentos culturais para se familiarizar com a identidade negra (Foto: arquivo pessoal)

Lucimar faz questão de inserir o filho em movimentos culturais afro (Foto: arquivo pessoal)

A educadora Polyana Pereira trabalha em duas escolas particulares, com alunos de 3 a 12 anos. Ela conta que desde pequenas as crianças já reproduzem discursos de preconceito trazidos de casa, porque a fala dos pais torna-se verdade absoluta para eles. “Construir uma ponte entre família e educador se torna difícil, principalmente porque as escolas não discutem esses temas. Falar de racismo é um tabu. A menina ainda está com o cabelo por crescer e a mãe já começa a querer enquadrá-la nos padrões da sociedade, isso é visível”, relata.

Os discursos são reproduzidos em forma de brincadeiras e piadas direcionadas aos alunos que têm o cabelo crespo, vistas como inofensivas. “Já presenciei esse tipo de atitude e quando ela acontece na aula explico que somos diferentes um do outro e que o cabelo da amiga é tão lindo quanto o de qualquer um”, conta.

Papel da família

A psicóloga social e pesquisadora em relações raciais Lwdmila Constant alerta que há muitas pessoas que confundem o racismo com o “bullying” e relativizam a situação, considerando-a aceitável na infância, ou menos prejudicial do que se é de fato.

“O bullying é uma realidade que todas as crianças correram ou correm o risco de sofrer. É uma violência que precisa ser combatida sim. O racismo, por sua vez, é uma particularidade sócio-histórica e territorial muito mais perversa, pois é uma violência não só contra a criança que o sofre diretamente, mas com a história de seus ancestrais, com seus pais e as demais pessoas que compartilham a herança africana. Por isso, acredito que afeta de uma forma mais íntima a autoestima da criança”, explica.

Para a pesquisadora, no caso de crianças negras no contexto brasileiro, que traz uma história marcadamente racista e fingidamente tolerante, cabe aos pais estabelecer a base identitária dessa criança. Lwdmila esclarece que identidade é uma espécie de cartão de visitas que usamos para nos descrever.

“Nesse caso, os pais precisam verbalizar que a criança é negra, pois as principais queixas de adultos negros são relativas ao silêncio estabelecido na família, onde não se falava da negritude, consequentemente não se discutia racismo”, conta.

Uma boa forma de familiarizar a criança com o “ser negra”, segundo Lwdmila, é contando história de líderes negros, como no caso dos quilombolas alagoanos: Zumbi, Dandara, Aqualtune, Acotirene, entre outros.

Também ajuda mostrar na televisão, na música e em outros espaços pessoas negras tendo destaque, a beleza, o talento. Isso faz com que a criança, ao entrar na idade escolar, já tenha certa consciência de quem é. “Infelizmente, essa postura não a imuniza de racismo sofrido na escola, por exemplo, mas a fortalece para reagir ou ao menos, relatar isso em casa, caso ocorra. O que não ocorreria se a família optasse por nunca falar sobre”, finaliza.

Educação que deu certo

MC Soffia, de 11 anos, canta sobre sua realidade enquanto menina negra. Foi a mãe que apresentou o hip hop a ela e traçou uma educação que visava fortalecer a questão da identidade. Soffia bate de frente com o racismo nas letras das canções, como no trecho da música Menina Pretinha: “Sou criança, sou negra. Também sou resistência. Racismo aqui não, se não gostou paciência”, diz verso.

A MC mirim se apresentou na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos ao lado da rapper Karol Conka, considerada uma das principais representantes do Rap feminino dos últimos tempos no país.

soffia e carol

Apresentação repercutiu nas redes sociais, chamando a atenção para o empoderamento negro e feminino (Foto: redes sociais)

 

 

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