Os desafios de ser Jovem Ambientalista em Alagoas

Moças e rapazes organizam-se em grupos para trabalhar sustentabilidade em suas comunidades, mesmo enfrentando burocracia e resistência

Os desafios de ser Jovem Ambientalista em Alagoas

Moças e rapazes organizam-se em grupos para trabalhar sustentabilidade em suas comunidades, mesmo enfrentando burocracia e resistência

Por | Edição do dia 19 de maio de 2016
Categoria: Especiais | Tags: ,,,,,,,,,,,,,,,,


JAF, JAP, JATRA. Olhando assim, parecem apenas mais siglas de um mundo corrido, complicado e cheio delas. O que essas siglas têm de diferente são justamente seus “JA”, os Jovens Ambientalistas. Situados no município de Flexeiras e nos bairros do Pontal da Barra e Trapiche, em Maceió, são grupos que trabalham o protagonismo juvenil como ferramenta essencial para a introdução do tema sustentabilidade em suas escolas, famílias e comunidades, de forma prática e objetiva.

Entre eles, o grupo mais antigo em atividade – com dois anos, entre preparação e atuação – são os Jovens Ambientalistas do Pontal (JAP), seis jovens dos 14 aos 24 anos que se conhecem desde crianças e que se destacaram como líderes locais, manifestando não apenas a preocupação com o meio ambiente, mas a vontade de fazer algo concreto para mudar sua realidade, especialmente no Complexo Estuarino Lagunar Mundaú/Manguaba (CELMM).

“Dentro do APELL, foi crescendo muito o tema da sustentabilidade nas discussões dos jovens, tanto ao ponto de começar a querer disputar espaço com nossas atividades, que não podem ser desviadas. Então entramos em contato com o Instituto Lagoa Viva, que já lida com educação ambiental e atuava na região, para capacitar esses jovens e orientar suas ações”, explicou Renata Amorim, facilitadora do grupo de Alerta e Preparação da Comunidade para Emergências Locais (APELL), “link” entre Braskem e comunidades vizinhas para resposta a emergências, que acabou por ajudar a desenvolver criticamente esses adolescentes e foi o embrião do JAP.

Jovens do Pontal realizam formação com Jovens de Flexeiras (Foto: cortesia JAP)

Jovens do Pontal realizam formação com Jovens de Flexeiras (Foto: cortesia JAP)

Desde então, o foco passou para organização e capacitação dos jovens, inclusive para a abordagem do público sobre a preservação da Lagoa Mundaú e seu ecossistema. Houve uma retomada, o JAP entraria novamente em ação após anos parado, ideias estavam em ebulição: restauração do mangue nas ilhas da lagoa, coleta seletiva no bairro do Pontal – não só resíduos sólidos, óleo de cozinha também, e direto das residências, pelas donas de casa e suas famílias. Mas…

Mesmo sem conseguir conversar com moradores, jovens deixaram panfletos nas casas do Pontal (Foto: Cortesia JAP)

Mesmo sem conseguir conversar com moradores, jovens deixaram panfletos nas casas do Pontal (Foto: Cortesia JAP)

… O “mas” foi um balde de água fria chamado burocracia. Após toda a negociação do projeto com Prefeitura de Maceió e Braskem, da seleção da cooperativa que iria recolher o material, da panfletagem e conscientização porta a porta no Pontal, parando para conversar com as pessoas e explicar a importância da reciclagem, de não jogar o óleo de cozinha na pia, de separar o material porque “dessa vez vai”, de definir onde ficariam os “contêiners” de entrega de recicláveis, o início da coleta esbarrou na falta de consenso entre Cooperativa dos Catadores da Vila Emater (Coopvila) e Prefeitura.

A cooperativa diz que precisa dos repasses do município para poder manter as portas abertas, enquanto a Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió (Slum) diz que nunca teve convênios com a cooperativa, já que ela rejeitou ajuda em 2015 mediante outro convênio que possuía com a Petrobras. De acordo com os jovens do JAP, no começo de maio, o município deu prazo de 30 dias para a cooperativa fazer os ajustes necessários para iniciar o trabalho e eles preferem aguardar os trâmites, sem maiores comentários.

Um balde de água fria, não? Capaz de desmobilizar o grupo e afastar os menos convictos. É porque você não conhece os Jovens Ambientalistas do Pontal.

Protagonismo jovem

Mayris Nascimento, integrante do JAP, à beira da Lagoa Mundaú (Foto: Cacá Santiago)

Mayris Nascimento, integrante do JAP, à beira da Lagoa Mundaú (Foto: Cacá Santiago)

“Quem é você? Qual sua importância na sociedade? O que eu posso melhorar na minha comunidade?”.

Essas perguntas pegaram a estudante Mayris Nascimento de jeito aos 18 anos, em uma palestra sobre carreiras. “Isso me fez despertar e me fez refletir sobre o que eu gosto na minha comunidade. O que eu posso fazer pela sociedade e o que posso deixar de legado. O que vi de carência não só na minha comunidade, mas no estado de Alagoas, foi o desenvolvimento sustentável e a conscientização. Foi aí que comecei a me articular com o pessoal e iniciar o JAP”, conta a futura estudante de Química da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), já aos 20 anos.

Mayris entrou de vez no mundo das organizações e movimentos sociais, ao qual já havia sido apresentada aos 13 anos, como uma das coordenadoras de evacuação do APELL. Hoje faz parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), antigo Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), junto com o Instituto Lagoa Viva. Iniciou contato com os jovens do bairro vizinho, o Trapiche, para articular os Jovens Ambientalistas por lá. Começou a visitar cooperativas, participar de reuniões com professores e diretores de escola, grupos de trabalho de secretarias – foi convidada para apresentar a proposta de coleta seletiva do Pontal na Secretaria de Meio Ambiente de Flexeiras, no intuito de uma possível implementação no município.

Por isso, a grande pergunta: decepcionada com o atraso nos planos da coleta seletiva no Pontal? “Para o adulto, é mais fácil se afastar, ter raiva ou deixar as coisas para lá quando dão errado. O jovem não, ele está mais aberto à mudança, engajado, então estamos esperando a solução entre prefeitura e cooperativa e, enquanto isso, viabilizando outros projetos”, contou Mayris.

Jovens de Flexeiras na campanha do sabão ecológico (Reprodução do Facebook)

Jovens de Flexeiras na campanha do sabão ecológico (Reprodução do Facebook)

Projetos que incluem acompanhar a capacitação dos Jovens Ambientalistas do Trapiche (JATRA) sobre reciclagem, para que eles possam conduzir o mesmo processo do Pontal no seu bairro, e a instalação das atividades dos Jovens Ambientalistas de Flexeiras (JAF), cerca de 30 adolescentes que estão conduzindo o projeto do Sabão Ecológico, para transformar óleo usado em frituras em sabão naquele município.

Atividades que mudaram a imagem da jovem dentro da própria casa. Filha do pescador Oziel Oliveira e da empregada doméstica Benedita Maria, Mayris conta que a primeira viagem a Flexeiras foi um divisor de águas para sua mãe. “Ela antes reclamava que eu me envolvia demais com movimento, que só queria saber disso, que estava perdendo meu tempo. Quando fui para Flexeiras, no final do ano passado, ela já teve um olhar diferente, viu que estava avançando e dando resultados”.

Desde então, o JAP encampou a panfletagem para coleta seletiva e o JATRA participou de uma campanha de combate ao Aedes aegypti com a Braskem em março. As atividades de plantio e recuperação do mangue das ilhas da lagoa seguem, tudo com ajuda de outros grupos de jovens: Bombeiros Mirins, Desbravadores (grupo do Pontal) e os membros do Plataforma dos Centros Urbanos (PCU), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

“Uma coisa que nos ajuda é que sustentabilidade e meio ambiente estão na moda, e todo mundo gosta do que está na moda. Por isso que o pessoal do bairro está empolgado com a coleta seletiva, pergunta quando vai começar, que já estão prestando atenção para separar o material, continuam empolgados. E a gente tem que aproveitar essa facilidade”, confessa Mayris, rindo um pouco.

Jovens do agora

A empolgação de Mayris Nascimento com a causa e seu envolvimento para tirar as ações do papel levaram a garota a ser eleita pelos próprios colegas como coordenadora estadual dos Jovens Ambientalistas de Alagoas. Outra novidade chegou no início de maio, por telefone, quando recebeu o convite para coordenar as ações do PCU na região.

“Me deram um tempo para pensar, não adianta se envolver em vários movimentos e não conseguir fazer as coisas direito. E tenho que pensar que daqui a pouco a Ufal chama e minhas aulas começam”, conta, realista, antes de continuar a discorrer sobre parcerias com escolas, palestras sobre empreendedorismo e as atividades com JATRA e JAF.

É quase impossível arrancar dela algo negativo sobre sua atividade como Jovem Ambientalista ou possíveis problemas de convivência no grupo. “É cansativo, de vez em quando. E a gente se conhece há tanto tempo, desde criança, que fica fácil resolver as coisas, as reuniões acontecem na nossa própria casa. Já estamos quase todos na faculdade, tem gente estudando Engenharia, Análise de Sistemas, tem jovem que ainda está terminando na escola. Temos um colega que está se formando agora em Biologia, na Ufal, aí ele estava terminando o TCC [Trabalho de Conclusão de Curso], e mesmo assim ainda participou de umas atividades com a gente”.

Plantio de mudas para recuperação de áreas de mangue à beira da Lagoa Mundaú (Foto: cortesia JAP)

Plantio de mudas para recuperação de áreas de mangue à beira da Lagoa Mundaú (Foto: cortesia JAP)

Da mesma forma, Mayris nunca pensou em desistir do movimento ambiental ou das mobilizações, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento do protagonismo juvenil, com atuação real e direta de todos os jovens.

“Esse interesse fortalece uma causa que não é só minha e nem só do projeto, é algo que envolve todos como cidadão. Às vezes cobramos tanto por nossos direitos que esquecemos dos nossos deveres na sociedade. Todos nós temos um papel na sociedade e o legado que queremos deixar é a conscientização ambiental e o protagonismo juvenil. Somos os jovens do agora e não do futuro, fazemos agora e iremos colher os resultados ao longo do tempo”, defende.

Para entrar em contato com os grupos de Jovens Ambientalistas em Alagoas, basta procurá-los no Facebook:

JAF – https://www.facebook.com/Jovens-Ambientalistas-De-FlexeirasAL-187166048296768/?fref=ts

JAP – https://www.facebook.com/Jovens-Ambientalistas-do-Pontal-1613290065616845/?fref=ts

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