, Sexta-Feira - 24 de Maio de 2019

 

Observatório econômico: Mais educação, por favor

Diário de Pernambuco / 11:49 - 13/05/2019

Visão antipática e equivocada do atual ministro da educação coloca universidades em risco


Como professor universitário e educador não poderia me furtar da possibilidade de rebater as visões antipáticas, equivocadas e patéticas do atual ministro da educação. Como se não tivéssemos problemas mais sérios para resolver na educação, a ação do ministro em cortar verbas das universidades públicas como resposta a uma suposta “balbúrdia” causada por elas, além de ferir a autonomia universitária revela uma visão míope do que se faz no dia-a-dia das universidades. Ao contrário do que pensa, ou ao menos verbalizou o ministro, nas universidades públicas, não se faz “balbúrdia” e sim, ensino, pesquisa e extensão. Se há um ou outro episódio que pode ser condenado, diria que sim, mas isso não reflete a prática e o cotidiano da vida universitária.
No dia-a-dia das universidades públicas se faz ciência, forma-se capital humano, ambos com enorme impacto sobre a sociedade. As universidades públicas têm garantido o pouco de ciência que ainda se faz num país que parece não dar muita atenção a isso. Mais ainda, são inúmeros os exemplos de atividades de extensão que impactam positivamente comunidades de perto e de longe, são nas universidades que são formados os futuros profissionais que nas mais diferentes áreas do conhecimento contribuem para o desenvolvimento do país. Particularmente em regiões mais pobres, como o Nordeste, as universidades garantem a formação de capital humano de qualidade.

Defender a universidade pública não significa dizer que não há nada que precise ser melhorado. Muito pelo contrário, creio que o momento é a apropriado para que as universidades repensem seu papel na sociedade, a maneira como são organizadas e administradas, de reavaliar o emprego dos recursos (humanos e financeiros), na qualidade da ciência que é feita e do capital humano formado, da empregabilidade dos egressos e assim por diante.

As universidades precisam sim, formar capital humano apto para o novo mundo do trabalho, para as novas áreas de pesquisa e desafios que se apresentam. Precisam repensar a maneira como as aulas são ministradas, com mais autonomia para os alunos, com uso de novas tecnologias e recursos didáticos. Além disso, as universidades precisam aumentar a eficiência no uso dos recursos públicos, não há dúvidas, mas precisam ter autonomia para isso. Não é cortando recursos que se resolverá o problema, mas sim se estabelecendo metas claras de qualidade e eficiência. As universidades precisam ser cobradas pela qualidade do capital humano formado. Dê-se mais autonomia para contratar e demitir, para gerir os recursos orçamentários, para remanejar pessoal, para estabelecer parcerias com o setor privado. Os professores e pesquisadores precisam se aproximar das empresas, do mercado, do mundo real.
O argumento de que precisamos investir mais em educação básica é extremamente válido, mas o “mais” deve ser relativo. A educação básica é de responsabilidade dos estados e municípios, e tampouco o governo sinaliza a manutenção do FUNDEB para os próximos anos. Isso sim poderia estar sendo discutido. Precisamos aprender com experiências exitosas na educação no próprio Brasil. A cidade de Sobral, no Ceará, e tantas outras vêm apresentando desempenhos fantásticos na educação, mesmo com recursos limitados. O ministro precisa ter a humildade para aprender com exemplos de sucesso no país e, com ajuda de quem entende de educação, criar maneiras de expandir as experiências exitosas para outras realidades. Precisamos reavaliar a formação de nossos professores, revalorizar a carreira.  Nossos desafios são enormes, estamos perdendo o “bonde da história” e o ministro, ao invés de focar nessas questões, fica, ele próprio, criando “balbúrdias”. Ministro, por favor, tenha mais educação e respeito com quem faz a universidade pública neste país. Não somos idiotas.

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