O trabalho e a saúde mental em tempos de crise

Instabilidade econômica faz trabalhadores suportarem calados situações que põem em risco sua saúde mental

O trabalho e a saúde mental em tempos de crise

Instabilidade econômica faz trabalhadores suportarem calados situações que põem em risco sua saúde mental

Por | Edição do dia 4 de abril de 2017
Categoria: Especiais | Tags: ,,,,,,,,,,,,,,,,


“O que você faz não vale sua paz de espírito”. A frase clichê está em vários momentos da vida virtual e livros de autoajuda. Se o trabalho te adoece, mude de trabalho! Algo que parece simples, mas na verdade, nunca foi. Neste ano de 2017, tal frase se faz especialmente cruel. A notícia de que a Organização Mundial de Saúde (OMS) posicionou o Brasil como o campeão em casos de depressão na América Latina saiu apenas um mês depois de a Organização Internacional do Trabalho (OIT) ter anunciado que um em cada três desempregados do mundo este ano será brasileiro. Não é à toa que, no mesmo estudo da OMS, foi identificado que quase um décimo da população brasileira sofre de algum tipo de transtorno de ansiedade.

A crise econômica que se arrasta há anos trouxe também os trabalhadores brasileiros a um extremo perigoso. Com medo de perder o emprego, eles se sujeitam a condições abusivas de trabalho e vivem no limite, na ameaça velada ou clara de que irão para a rua. Nesses casos, lembra-se muito do assédio moral, a violência que uma pessoa inflige a outra. Porém pouca atenção se dá ao mal que as pessoas sofrem sozinhas, dentro de sua cabeça.

Sob o tabu de que saúde mental é o oposto a doenças de fundo psicológico ou neurológico, sentimentos vão sendo empurrados medo abaixo e uma situação ruim – ou agente estressor – pode desencadear condições piores se não revertida através de ajuda especializada.

Esse é o caso de Paula (nome alterado a pedido), cabelereira nos seus 30 anos, divorciada, mãe de uma garotinha de 7. Profissional competente e comunicativa, ela começou 2017 com uma bomba: a dona do salão reuniu a equipe e disse que todas iriam para a rua se a situação não melhorasse. A alternativa à demissão era o trabalho por comissão a cada cliente atendido. As funcionárias ficaram abaladas. Paula quase ruiu.

“Desde então ficamos estressadas, tô com o nervo do meu olho tremendo – quando eu tô estressada, ele treme. Não só eu passo por isso, mas outras colegas também. São situações em que clientes fazem fofoca com a patroa e ela alimenta. Nunca está bom, nunca elogia, mas para julgar tá sempre pronta. O nível de stress é grande. Trabalhar sabendo que você vai ser colocada para fora, não tenho ânimo nenhum”, conta, num misto de resignação e tristeza.

E se a mente não está boa, o corpo acaba pagando. “Várias vezes eu fico doente, sinto dor no corpo. As colegas do salão sentem dor de cabeça. Isso é muito ruim, você trabalha sem ânimo. Eu já cheguei a desejar que me colocassem para fora por não aguentar mais”, relata a cabeleireira, que não se demite para não perder os direitos trabalhistas. “No momento, não tenho condições de deixar esse emprego, eu pedir para sair, porque fica muito complicado. Tenho uma filha, escola para pagar, o pai dela me ajuda com muito pouco e ainda tenho minhas despesas”, desabafa.

Perguntada se já pensou em procurar ajuda de um psicólogo para conversar sobre seu estado emocional, Paula desconversa. Fala de hobbies, de não ter plano de saúde, da mãe ter convidado para ir à igreja. Mas nenhuma palavra sobre terapia.

Janeiro Branco é um começo

Oficina de Colorir foi uma das ações do Janeiro Branco no Instituto da Visão (Foto: Assessoria IV/Cortesia)

Oficina de Colorir foi uma das ações do Janeiro Branco no Instituto da Visão (Foto: Assessoria IV/Cortesia)

Foi para abordar tabus como esses de frente que o Conselho Regional de Psicologia de Alagoas (CRP-15) aderiu e promoveu este ano, pela primeira vez no estado, a campanha Janeiro Branco, para desmistificar o tema saúde mental.

“A ideia do Janeiro Branco é que as pessoas também assumam a responsabilidade frente aos cuidados mentais. Tanto as organizações têm que ser orientadas da sua responsabilidade frente aos cuidados com a saúde mental dos seus colaboradores, quanto as próprias pessoas também precisam cuidar da sua saúde mental. E isso é buscar uma qualidade de vida adequada, condições de realização pessoal e profissional na sua vida”, alerta o psicólogo Robson Menezes.

De fato, escolas, faculdades e empresas tiveram palestras sobre o tema durante todo o mês de janeiro. Organizações das mais diversas, da clínica Instituto da Visão à petroquímica Braskem, abordaram o tema com seus funcionários, destacando a necessidade do equilíbrio e, o mais importante, não ter vergonha de procurar ajuda especializada.

De acordo com dados oficiais do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em 2016 foram concedidos 2.142.702 benefícios de auxílio-doença – quando o trabalhador precisa afastar-se por mais de 15 dias consecutivos do trabalho por estar incapacitado para a função. Deste total, 7,8% foram motivados por algum tipo de transtorno mental ou comportamental, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID), tendo como campeã a depressão.

“O episódio depressivo nunca se torna ‘grave’, ele é gradativo. Inicia no stress, na grande maioria das vezes, depois passa para um episódio depressivo leve e aí a pessoa vai adoecendo, vai ficando triste. E ela não procura ajuda ou busca se cuidar. Às vezes, não pede apoio dos familiares e as pessoas não entendem o que vai acontecendo até que chega o momento em que é insustentável. Ela não consegue se manter trabalhando ou manter relacionamentos, se isola, e só aí os outros identificam que ela está doente”, aponta Robson Menezes.

Características culturais acentuam a ansiedade nos brasileiros, de acordo com Robson Menezes (Foto: Cacá Santiago)

Características culturais acentuam a ansiedade nos brasileiros, de acordo com Robson Menezes (Foto: Cacá Santiago)

Já a ansiedade, outro grande mal que aflige os brasileiros, pode ser considerada uma face cruel desse processo. Em um país com muitos trabalhadores autônomos ou informais e, ainda, irregularidades nas relações laborais, aqueles que não contam com o apoio de garantias trabalhistas básicas acabam ‘sofrendo dobrado’.

“Pensando no cotidiano do trabalho, [o terceiro setor] gera muito mais ansiedade, insegurança e dúvida do que o emprego estável. Não estou dizendo que quem é servidor público não sofre tanta ansiedade, mas inevitavelmente há muito mais estímulo à ansiedade no camelô que vive de vender água de coco na praia, mas choveu no domingo. Como ele vai conseguir manter as suas contas?”, exemplifica o psicólogo.

A competitividade do mercado atual, baseada na velocidade da informação e das negociações, são um agente estressor em particular na história das relações do trabalho. As pessoas estão adoecendo mais. Se por um lado elas estão envelhecendo e ficando mais solitárias, como apontou a pesquisa da OMS, do outro os jovens estão sucumbindo a uma pressão que antes não existia.

“Temos um universo bem diferente, essa é a questão. A geração anterior não tinha um mercado tão competitivo, exigente e tão dinâmico quanto temos hoje. É por isso que temos um índice de adoecimento maior, porque a realidade do mercado de trabalho é diferente”, pondera Robson Menezes, com o conhecimento de causa adquirido, também, no mestrado em Direção de Recursos Humanos.

Arte: Thalita Chargel

Arte: Thalita Chargel

Rotas de escape

Contudo, outra grande diferença na relação de comportamento laboral também separa as gerações antigas e a atual no que se refere à entrega ao trabalho. Enquanto os mais velhos demonstram-se mais devotados à empresa, os mais jovens entendem e aplicam (ou tentam aplicar) a separação da vida pessoal da profissional. Rosa Lucena, 30, conseguiu fazer isso em sua primeira experiência profissional com carteira assinada, mas só até certo ponto.

“Lembro de um período quando eu estava lidando com um chefe abusivo, que fazia com que eu tivesse minhas habilidades e competências questionadas. Entrei em um processo de adoecimento, de ter crise de choro no meio do jantar, com a família toda sentada à mesa. Um aperto no peito e angústia no domingo, porque na segunda-feira tudo ia recomeçar”.

Nessa situação, Rosa começou a se planejar para mudar de emprego, estudando para concurso.

Passou para a Caixa Econômica Federal. E viu a situação se repetir.

Colegas em crise, posturas que estimulavam horas excessivas de trabalho, reuniões fora de hora, chefes que pressionavam funcionários a fazer procedimentos indevidos, entre outras situações. Mas deixar esse emprego não era possível e a bancária teve que aprender a preservar sua saúde mental.

“Conheci pessoas que lidaram com a situação mudando de função dentro do banco, que foi o meu caso, ou foram para psicoterapia, se apegaram a hobbies e outras formas de escape”, elencou a bancária.

Uma dessas rotas de fuga, o humor, virou o artigo ‘Sofrimento no Ambiente de Trabalho: o Humor Online como Estratégia de Enfrentamento’, que Rosa apresentou, ao lado da colega Daiana Amorim, durante seu mestrado em Administração, no maior congresso acadêmico da área no país, o EnANPAD, ou Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, em 2016.

“O sofrimento no trabalho é um fenômeno reconhecido por autores pertencentes à corrente crítica em Administração, a exemplo de Dejours. É visto como uma consequência originada da falta de reconhecimento, das precárias condições de trabalho e do distanciamento entre a organização prescrita e a organização real. Para conseguir o equilíbrio e a manutenção da sanidade nestes ambientes, aponta-se que os trabalhadores lançam mão de estratégias defensivas”, citava o artigo.

“Mas esses escapes eram meramente superficiais”, concluía Rosa Lucena, tanto no estudo como na observação do seu dia a dia. “Tive um colega que passou 30 dias de férias, viajou, foi para fora do país, mas quando voltou para a agência, em dois dias já estava em um estado emocional bem pior do que antes”, relembra a bancária, que teve, também, sua cota de atendimento terapêutico.

Por isso campanhas como o Janeiro Branco são tão necessárias, defende Robson Menezes. “Existe uma grande fatia da população brasileira que tem uma síndrome ansiosa ou depressiva, que sofre demasiadamente com stress. Você não está sozinho. Na sua rua existem outras várias pessoas sofrendo silenciosamente em casa, então entenda que você não é uma exceção, que não há nenhum motivo para ter vergonha de buscar ajuda”.

“Você é responsável pela sua felicidade ou ela sua infelicidade. Não espere que alguém te pegue pelo braço e te leve para procurar ajuda. Se abrace e busque alguém que possa te ajudar a melhorar, a estar bem e a ter qualidade de vida”, convida o psicólogo.

Arte: Thalita Chargel

Arte: Thalita Chargel

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