O que fazem os artistas alagoanos nesta pandemia do novo coronavírus

O Dia Alagoas conversou com artistas de Alagoas de diferentes segmentos, para saber quais estratégias estão sendo criadas durante o isolamento social

Por | Edição do dia 19 de abril de 2020
Categoria: Especiais | Tags: ,,,,,


Elaine Lima faz parte do grupo alagoano de palhaçaria Clowns de Quinta - Foto: Reprodução/Alexandra Souza

Elaine Lima faz parte do grupo alagoano de palhaçaria Clowns de Quinta – Foto: Reprodução/Alexandra Souza

Teatros fechados, cinemas vazios, bibliotecas, bares, galerias de exposições, espaços culturais, casas de show, todos de portas fechadas. Eventos culturais também cancelados, alguns sem previsão de reagendamento. Esses são alguns dos locais de arte e cultura que foram também afetados pelo isolamento social, uma das medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde para combater a disseminação da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

No mundo inteiro, o total de casos confirmados da doença passa dos 2 milhões, e mais de 100 mil pessoas já morreram infectadas, segundo o mais recente boletim atualizado pela Universidade Johns Hopkins. De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil registrou até então mais de 30 mil casos confirmados e cerca de 2 mil mortes.

Em Alagoas, o número de casos confirmados subiu para 132 e até o último sábado (18) foram registradas 10 mortes por coronavírus. O Governo de Alagoas e a Prefeitura de Maceió decretaram desde março de 2020 o fechamento total de estabelecimentos não essenciais, com o intuito de evitar circulação de pessoas e aglomeração, que são as principais causas da propagação do vírus.

Muitos artistas alagoanos que são geralmente autônomos têm sentido o impacto da pandemia, seja nos projetos que já estavam planejados, como também no seu próprio sustento e da família. Eles têm criado alternativas e estratégias para a manutenção de seus lares. Cantores que se apresentavam em bares e em casas de show, agora fazem lives nas redes sociais ou tentam monetizar no Youtube; atrizes, atores e palhaços, performers que dependiam do público, agora aguardam editais de emergência do poder público, ou continuam produzindo nas mídias digitais. O cenário mudou, e junto com ele a humanidade tem tentado se reinventar.

A PANDEMIA CHEGOU, E AGORA?

O ator e palhaço, Victor Satti, há um tempo vem se envolvendo com a produção de espetáculos teatrais. Ele é formado em Arte Dramática, pela Escola Técnica de Artes, vinculada à Universidade Federal de Alagoas e graduado em Licenciatura em Artes Cênicas, pela mesma universidade. Ele já passou por diversos coletivos e companhias, passando pelo grupo Claricena, Joana Gajuru, até ser integrante do coletivo Mambembe. Segundo ele, desde 2019 está envolvido com alguns projetos, e outros projetos estavam previstos para darem início em 2020. Para Satti foi um baque receber a notícia de que não poderia seguir com os projetos, mas mesmo assim ele e alguns colegas de trabalho não pararam e estão se reunindo virtualmente para planejamentos futuros.

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“Não está sendo fácil para mim esse momento, e com certeza não está sendo fácil para os colegas da classe artística. Foi um baque receber a notícia de que não posso seguir com eles, claro, é um momento em que temos que nos proteger, a situação pede isso. Eu e alguns colegas de trabalho não paramos, as reuniões através de plataformas digitais nos auxiliam e aproveitamos essa tecnologia para pensarmos nos planos A,B, C… Todas as formas para agora e para quando isso tudo acabar e voltarmos ao nosso fluxo cotidiano, mas ainda assim não está sendo fácil”, relatou o ator e palhaço, Victor Satti.

Com o isolamento social, a ausência de público é evidente e consequentemente não há retorno financeiro, além dos trabalhos externos que tiveram que ser interrompidos.

É o caso da atriz, palhaça e produtora cultural Elaine Lima, que é uma das coordenadoras da trupe alagoana de palhaços ‘Clowns de Quinta’: grupo com sete anos de fundação, que utiliza da comicidade e linguagem circense como linha de estudo para apresentações de espetáculos. Os trabalhos importantes do grupo tiveram que ser cancelados, e referente à questão financeira. Elaine conta que o grupo aguarda o resultado do edital emergencial do Itaú, o “Arte como respiro” e aguarda também a publicação do edital da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), o “Festival Dendi Casa tem Cultura”. Ela conta que se inscreveu no auxílio emergencial do Governo Federal, e, enquanto isso, a família tem a ajudado.

“De antemão, a gente tem procurado produzir conteúdo. A gente tem alguns projetos de lives com palhaços de outras cidades, estamos planejando produzir alguns vídeos para nos manter enquanto marca nas redes. A questão da monetização estamos começando a entender agora o que iremos implantar no formato online para viabilizar financeiramente. O momento agora é de repensar esse lugar de estar online e propor coisas online”, disse Lima.

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A cantora, intérprete e compositora Elaine Kundera, vem traçando quase a mesma estratégia de gravar vídeos para o Youtube e produzir lives. Desde os 15 anos Elaine tem a música como sua fonte principal de sobrevivência e conta que agora está passando por algo que nunca viveu na vida. Segundo a cantora, nos últimos dias ela criou uma campanha de divulgação de sua conta do Youtube para poder fazer transmissões ao vivo. Ela precisava de 1.000 inscritos para fazer as transmissões. Ainda assim, Kundera teve que se deparar com outra diretriz da plataforma: a geração de conteúdo durante um ano, ou seja, como ela não produzia com muita frequência na plataforma, o projeto de lives acabou ficando mais para frente.

“Estou galgando isso daqui para frente. Na verdade, a gente tá começando e recomeçando a fazer tudo novamente. A gente tá começando a rever todo o lado profissional. Na verdade, da vida inteira, em todos os sentidos, em todos os contextos da vida, porque estamos num tempo de cuidar do outro”, declarou Kundera.

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CLASSE ARTÍSTICA QUE RESISTE

Iniciativa da atriz Ivana Iza em arrecadar dinheiro dos ingressos antecipados vendidos para doar aos artistas alagoanos afetados pelo coronavírus - Foto Reprodução/Instagram

Iniciativa da atriz Ivana Iza em arrecadar dinheiro dos ingressos antecipados vendidos para doar aos artistas alagoanos afetados pelo coronavírus – Foto Reprodução/Instagram

Em meio a esse caos que atinge a sociedade, ainda existem aqueles que procuram alternativas e estratégias para a sobrevivência dos seus e dos outros. Nesse momento de pandemia a empatia vem abraçando muitas pessoas.

É o caso da atriz e produtora cultural alagoana Ivana Iza, que criou uma iniciativa em suas redes sociais. Ela antecipou a venda de ingressos de apresentações de um dos seus recentes espetáculos, “A velha”, que poderá ser assistida após o isolamento social. Com o dinheiro arrecadado, ela comprou alimentos e produtos de higiene para artistas alagoanos que foram afetados pelo coronavírus. 

Outra iniciativa considerada empática foi a do Festival Carambola, que iria trazer atrações artísticas no mês de março, mas foi cancelado devido a pandemia. Eles criaram uma lojinha com seus produtos a fim de arrecadar dinheiro (https://www.instagram.com/p/B_BH8icpRsG/) e ajudar os músicos, produtores e pessoas que auxiliam no cenário musical do estado.

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Durante o período de isolamento social o Festival Carambola vai arregaçar as mangas para ajudar a centenas de trabalhadores da cadeira produtiva da música que foram afetados pela pandemia do novo coronavírus. 👊🏼 . Nossa equipe lança, hoje, a versão online da Lojinha Carambola – espaço que seguirá funcionando até o período final de quarentena com 100% dos fundos arrecadados destinados aos trabalhadores do setor cultural que estão passando por dificuldades nesse momento. 👇🏽 . São músicos, técnicos, roadies, carregadores e artistas de outras linguagens culturais que ficaram sem trabalho e, consequentemente, sem uma forma de se manter e garantir o sustento de suas famílias. Com a venda desses itens pretendemos ajudar aqueles que em dias comuns são nossos braços e pernas – e fazem, de um jeito muito especial, acontecer esse evento que tanto amamos. 🤘🏽 . Vale ressaltar que os itens disponíveis na Lojinha foram amorosamente doados por vários artistas alagoanos para que, juntos, consigamos amenizar as consequências desse período tão difícil. Dúvidas e mais informações sobre os produtos podem ser tiradas por aqui, via direct. É isto ♥️ . Lojinha Carambola no AR! Entregas apenas em Maceió. Contamos com vocês! #arteresiste #deixeaartetelevar #festivalcarambola #carambola2020 #lojinhacarambola

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O ator, performer e produtor cultural alagoano, Alexandrea Constantino, tem 21 anos de carreira e trabalhou em mais de 30 espetáculos de teatro, dança, como também trabalhou no cinema. Ele é um dos coordenadores do Fórum de Teatro de Maceió (FTM), um conjunto de profissionais das artes cênicas que lutam para a conquista de políticas públicas para o artista da terra. Em relação ao atual momento de isolamento social, Constantino conta que tem aproveitado para criar e olhar para dentro de si e para “o que precisa ser aprimorado, enquanto um ser individual e social, coletivo.”

Ele disse também que é impossível trabalhar com arte neste momento visto “que não temos políticas públicas que nos fortaleçam, e principalmente também por compreender a importância de ter que ficar em casa no momento como esse, visto a pandemia que toma conta do mundo e os cuidados necessários que devemos tomar consigo e com o próximo”.

O QUE O PODER PÚBLICO ESTÁ FAZENDO?

No dia 4 de abril de 2020 foi anunciado que a Secult lançaria um edital emergencial para artistas alagoanos durante o isolamento social, o “Festival Dendi Casa Tem Cultura”, sem previsão de data. Passaram duas semanas e nada tinha acontecido. Foi nesse ínterim que o FTM publicou uma carta aberta aos governantes com o objetivo de pressioná-los e conseguirem um retorno urgente para os artistas.

De acordo com representantes do Fórum, a carta é um manifesto que apresenta demandas sociais, econômicas e jurídicas, diante do impacto socioeconômico causado pela pandemia do novo coronavírus, que dentre outras situações também acarretou na paralisação das atividades do segmento teatral. “Neste sentido, busca-se chamar a atenção do Poder Público com relação às questões próprias de trabalhadoras e trabalhadores da arte e cultura, pois entendemos que é necessária essa aproximação e diálogo constante”, explicou o Fórum.

Confira aqui o vídeo da carta aberta do Fórum de Teatro de Maceió

O site O Dia Mais entrou em contato com a Secult na terça-feira (14), e em nota, a secretaria comunicou que a Procuradoria Geral do Estado despachou o processo referente ao edital, apresentando algumas condicionantes. Eles ainda disseram que a equipe técnica da Secult/AL está respondendo às demandas do referido órgão para retornar os autos para aprovar de orçamento e financeiro junto à Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) e Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz).

Na última sexta (17), após reuniões com o FTM e lives no Instagram da Secult, a secretaria divulgou a data que o edital do festival vai ser publicado, que será na próxima segunda-feira (20). O festival tem o intuito de selecionar conteúdos digitais de artistas que atuam em artes cênicas, música e literatura. É previsto que mais de 300 artistas sejam selecionados para apresentar seus trabalhos nas redes sociais.

VOZES DE QUEM TRANSFORMA DOR EM ARTE

Elaine, Alexandrea, Victor, Elaine Lima. Todos artistas alagoanos que gostam de apresentar seus trabalhos, gostam do que fazem e ainda têm projetos futuros. Eles conseguem ressignificar a dor em arte, e isso contagia quem assiste.

“[Estou] vivo!”, declarou Constantino, “Sou um artista que hoje me compreendo afro indígena, que compreendo o processo de escravidão no Brasil, com isso quero dizer que o Brasil pra nós, sempre foi luta, seguimos lutando”, relatou Alexandrea, questionado sobre as expectativas no pós-pandemia. Ele conta que está sem expectativas, e que está vivendo, lutando e construindo aqui e agora. “Temos muito a aprender com esse momento”, completou.

Cantora Elaine Kundera atualmente faz lives nas redes sociais - Foto: Reprodução/Instagram

Cantora Elaine Kundera atualmente faz lives nas redes sociais – Foto: Reprodução/Instagram

Já Elaine Kundera afirma que está aguardando o edital que vai ser lançado, e que por enquanto está fazendo lives nas redes sociais em casa. Ela comentou que está todo mundo trancafiado, os artistas estão angustiados, mas disse que talvez outras pessoas estejam mais, e que por isso está vendo como alegrá-las um pouco com seu trabalho virtual. “A gente está começando e recomeçando os trabalhos, os planejamentos… O pensar no outro. A gente está angustiado, mas as pessoas talvez estejam mais. Vamos nos cuidando”, disse.

A expectativa de Victor Satti é de que depois de tudo isso, todos possam valorizar mais o ofício de ser artista, que saiam das lives e ocupem poltronas dos teatros, praças, ruas e todo lugar onde a arte estiver. “Acho que esse é um momento também de mostrarmos que não, não se pode viver sem arte! E sim, continuo produzindo para continuar a trabalhar, fazer e sobreviver com o que amo”, declarou Satti.

O intuito de Elaine Lima é não parar, continuar com os projetos online, fazer o que gosta, e continuar as reuniões coletivas que o grupo, a qual ela faz parte, vem fazendo. “Agora só temos o online para trabalhar no momento. É uma situação que realmente estamos sem o nosso recurso, recurso que já tínhamos mensalmente, e tudo foi cancelado. Agora a gente tá tendo realmente que se reinventar”, afirmou Lima.

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