O papel das boates LGBT numa sociedade de exclusão e preconceito

Locais funcionam desde os anos 1960 como trincheiras em sociedades homofóbicas

O papel das boates LGBT numa sociedade de exclusão e preconceito

Locais funcionam desde os anos 1960 como trincheiras em sociedades homofóbicas

Por | Edição do dia 14 de junho de 2016
Categoria: Educação, Notícias | Tags: ,,,


Foto: Steve Nesius/Reuters

Foto: Steve Nesius/reuters

O mais letal atentado a tiros já registrado em solo americano ocorreu dentro de um tipo de lugar carregado de significado e importância histórica. A boate Pulse, em Orlando, no Estado da Flórida, onde um atirador matou 50 pessoas e deixou 53 feridas neste domingo (12), é uma das inúmeras casas noturnas frequentadas pelo público LGBT nos EUA. Desde os anos 1960, casas como essa ganharam um significado de resistência política e cultural para uma população que foi discriminada e perseguida por anos.

A simples existência de bares gays já foi tratada como crime. Foram necessárias grandes lutas pelos direitos civis – muitas delas físicas mesmo – até que a simples existência de homossexuais começasse a ser, primeiro, tolerada e, em seguida, respeitada na sociedade.

O autor do atentado, o cidadão americano Omar Mir Seddique Mateen, já havia se ofendido com demonstrações de afeto entre homens no passado, de acordo com o pai. “Ele viu dois homens se beijando e ficou muito bravo. Eles se beijavam e se tocavam, e ele disse ‘olha isso, fazem isso na frente do meu filho’”, disse Mir Seddique, em entrevista à emissora americana NBC.

A escolha do local do atentado não passou desapercebida pelo presidente dos EUA, Barack Obama, que, no primeiro pronunciamento sobre o ocorrido, fez referência ao significado da casa noturna, dizendo que o local “é mais do que uma casa noturna – é um lugar de solidariedade e de empoderamento onde as pessoas têm que se reunir para se informar, para dizer o que pensam e para defender seus direitos civis”.

O presidente americano fez referência direta às vítimas “gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros”. Parece óbvio, uma vez que o crime ocorreu numa conhecida boate gay, mas o fato foi ignorado tanto por outros políticos americanos, quanto por outros países.

No Brasil, a nota oficial do Itamaraty não fez qualquer menção à natureza do local do ataque, limitando-se a dizer genericamente “a casa noturna”.

“O governo brasileiro recebeu com profunda consternação e indignação a notícia do ataque a casa noturna em Orlando, Flórida, que provocou a morte de mais de 50 pessoas, e deixou dezenas de feridos. (…) Ao transmitir sua solidariedade às famílias das vítimas, ao povo e ao governo norte-americanos, o governo brasileiro reafirma seu mais firme repúdio a todo e qualquer ato de terrorismo. Nenhuma motivação, nenhum argumento justifica o recurso a semelhante barbárie assassina”, disse a nota.

A suposta neutralidade brasileira não combina com a declaração de analistas, ativistas e imprensa internacional. “Bares gays são mais do que estabelecimentos com licença onde homossexuais pagam para beber. Bares gays são terapia para quem não pode pagar, templos para os que perderam sua religião, ou para os quais a religião os perdeu, são férias para pessoas que não podem sair de férias, lares para o pessoal sem família, santuários contra a agressão”, afirma Richard Kim, editor-executivo da revista americana The Nation. 

A importância da revolta de Stonewall

A importância das boates gays para o reconhecimento dos direitos da população LGBT tem na Revolta de Stonewall seu episódio mais simbólico. A casa noturna, localizada no Greenwich Village, em Nova York, era objeto de inúmeras batidas policiais nos anos 1960.

Foto: Mark Kauzlarich/Reuters

Foto: Mark Kauzlarich/Reuters

O assédio dos agentes acontecia sob o pretexto de combater o tráfico, mas revelavam, no fundo, a criminalização da comunidade gay que, naquele tempo, sequer sonhava com as garantias de direitos existentes hoje em muitos lugares, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Em junho de 1969, uma das inúmeras incursões policiais no local foi rechaçada à força pelos frequentadores, com amplo apoio dos moradores do bairro, então um conhecido reduto da contracultura e dos movimentos pelos direitos dos negros e contra a guerra no Vietnã.

O episódio passou para a histórica como “Stonewall riots” (a revolta de Stonewall) e teve papel fundamental na tomada de consciência e na articulação dos movimentos por direitos civis. Nos meses seguintes, surgiram nos EUA alguns dos primeiros grupos locais de defesa da comunidade LGBT, além de jornais dedicados à causa. No ano seguinte, ocorreriam as primeiras marchas do orgulho gay em Nova York, Los Angeles, São Francisco e Chicago.

Veja matéria original do site Nexo Jornal clicando aqui.

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