Bom Dia!, Sexta-Feira - 15 de Novembro de 2019

 

Ninguém conserta fissuras abertas no psicológico dos moradores

Deraldo Francisco e Jessyka Soares - Repórter O DIA ALAGOAS / 8:25 - 13/01/2019

Comunidade do Pinheiro está abalada com os resultados do tremor e a ausência de respostas


Moradora relata momentos de aflição que passou no dia do abalo sísmico (O DIA)

Moradora relata momentos de aflição que passou no dia do abalo sísmico (O DIA)

As fissuras abertas no psicológico dos moradores do Pinheiro não podem ser fechadas com concretos e vergalhões de aço. Ninguém morreu sob os escombros de um imóvel que desabou, as pessoas estão “morrendo um pouquinho por dia”. “Olhar essas rachaduras no lugar que eu vivi e criei meus filhos é muito triste. Saber que eu terei que sair da minha casa por uma coisa que eu não sou responsável é muito forte”. As declarações são de uma moradora do Bloco 15, no Jardim das Acácias, logo que foi informada pela Defesa Civil, nesta sexta-feira, dia 11, que terá que sair do seu apartamento. Moradores dos Blocos 7, 8 e 9 estão com os nervos abalados. “Estamos abalados. Se um prédio desse desabar quem mora aqui perto não tem o que fazer. É um medo. Eu estou assustada. Hoje mesmo saiu uma menina daí [choros] mais de quarenta e cinco anos no mesmo endereço [choros]. É horrível. Você ser obrigado a sair da sua casa sem ser para um lugar melhor, para um crescimento na vida e não ter uma autoridade que nos defenda”.

(O DIA)

(O DIA)

O desabafo é da moradora Regimeire de Oliveira, que mora há 30 anos Jardim das Acácias e precisou mudar de bloco porque o seu foi interditado. Outros moradores, como Dona Cleudes Brandão Barros, de 43 anos (mora há 34 no prédio no Bloco 8) estão sem acreditar e sem saber o que fazer. Ela tem que sair do prédio, mas questiona quanto vai receber para o aluguel social. As pessoas se queixam, principalmente, da distância entre elas e a Defesa Civil do Município. “Muito mais do que aberturas nas nossas paredes, essa situação abriu buracos na nossa cabeça. Cadê o pessoal para o atendimento psicológico e social aos moradores? Há moradoras aqui que se tremem e choram só em falar sobre este assunto.”, questionou a morador Gilmara Lima.

Ela era uma das mais indignadas nesta semana, quando da visita dos técnicos da Defesa Civil de Maceió para o cadastramento dos moradores desses blocos que terão que abandonar seus imóveis imediatamente. Na verdade, essa recomendação foi feita em junho de 2018, mas a Defesa Civil de Maceió estava marcando passo. Para fazer o cadastramento, o órgão “montou acampamento” com dois servidores embaixo da escada de cada bloco. Até a última sexta-feira, havia uma indefinição sobre o valor que eles iriam receber para o aluguel social: se R$ 450,00 ou R$ 1.000,00, como a Prefeitura de Maceió exigia.

Galindo: “São necessários testes de sondagens”

Engenheiro afirma que afundamento ocorre em proporção superior à prevista (O DIA)

Engenheiro afirma que afundamento ocorre em proporção superior à prevista (O DIA)

O engenheiro civil, com Mestrado em Geotecnia, Abel Galindo Marques, acompanha o fenômeno das fissuras e rachaduras no Jardim das Acácias há alguns anos. Embora tenha realizado alguns projetos para reforço na fundação de alguns blocos no local (como o Bloco 8, por exemplo), ele afirma que há a necessidade de testes de sondagens com grandes profundidades (mais de 1.000 metros) para se chegar a um laudo preciso sobre esse fenômeno.

Abel Galindo se confessa bastante impressionado com o que viu antes do tremor e o que viu depois. “Antes eram pequenas fissuras e trincas. Hoje há espaços que cabem uma mão aberta. Isso é muito sério”, disse o engenheiro. Ele é um profundo estudioso desse assunto em Alagoas e se frustra com o fato de a maioria dos estudos ter sido patrocinado pela Braskem. “Naturalmente, hoje, os geólogos que fizeram esses estudos se sentem receosos de falar sobre o assunto. Cada um tem a sua razão. A CPRM também não pode se basear apenas em resultados de estudos patrocinados pela Braskem”, disse Abel Galindo.

O engenheiro disse que, após várias pesquisas sobre o assunto, chegou à conclusão, a subsidência (afundamento) está ocorrendo numa proporção bem maior do que o que se previa e que isso está acontecendo, provavelmente, devido a três situações: rebaixamento do lençol freático; falhas geológicas grande extração de água, o que é feito pela Braskem, no processo de extração do sal-gema. Abel Galindo disse que, nos estudos realizados pelos geólogos Carlos Maurício Barroso e Cláudio Florêncio, na região, restou provado que havia falhas geológicas no trecho do Pinheiro. Ou seja: o bairro teria sido construído sobre um relevo de bastante instabilidade, o que foi sendo agravado com as chuvas, redes de esgotos e entu pimentos das galerias de águas pluviais.

Geólogos estudam as causas para fenômeno no complexo laguna
Em fevereiro, março, abril e junho do ano passado Maceió recebeu equipes de geólogos de várias partes do País. O objetivo: verificar as causas das rachaduras nos imóveis do bairro Pinheiro. Muitos estudos e poucos resultados, menos ainda informações concretas à população. Em outubro passado, após uma nova avaliação, o CPRM do Serviço Geológico do Brasil, órgão ligado ao Ministério das Minas e Energia recomendou às autoridades municipais medidas urgentes que iam de evacuação de prédio à preparação para um desastre de grandes proporções,conforme relatório divulgado aqui, na edição passada.
Nem o básico: instalação de núcleos para comunicação e atendimento à população sobre o andamento dos estudos foi
feito em Maceió. Uma tenda sequer foi montada no bairro. A Coordenadoria Municipal de Defesa Civil alega falta de
recursos e de pessoal para o caso e pediu reforço ao Governo Federal, inicial com o aval para o Decreto de Emergência, que dispensa licitação.
Investigações sobre fenômeno se arrastam e são contraditórias
Na semana passada, mais uma equipe chegou, agora com o objetivo de investigar a impli – cação do complexo lagunar no fenômeno. Ou seja: eles levaram um ano para verificar que há uma proximidade entre o Pinheiro e a Lagoa Mundaú. Sem contar que, às margens da lagoa estão outros bairros com geologia semelhante, como Chã de Bebedouro e Santa Amélia onde não há registro de fissuras, trincas ou rachaduras.
Os especialistas são do Serviço Geológico do Brasil e estão em Maceió com a missão de realizar ajustes de equipamentos para uma batimetria sísmica do Complexo Lagunar. O teste busca detectar sinais de subsidências (rachaduras) no fundo das duas lagoas. Sendo que, nesse período, nenhum pescador ou morador da beira da lagoa registrou nenhuma anormalidade.
Conforme a Coordenadoria de Defesa Civil do Município, ainda esta semana, outras dezenas de estudiosos estarão em Maceió estudando o fenômeno. O assunto ganhou repercussão nacional na semana que passou, muito mais do que em março passado, quando ocorreu um tremor de magnitude 2.4 na Escala Richter. Com esse tremor, o que era fissura virou racha – dura e boa parte dos imóveis do Pinheiro apresentou sinais de desabamento. As rachaduras abriram o chão a profundidades que não foram reveladas ainda. Era o que faltava para mostrar às autoridades que, no Pinheiro, o “buraco era mais embaixo”. Em 2010, uma cratera com capacidade para “engolir” um ônibus foi aberta num cruzamento entre blocos do Jardim das Acácias. O caso foi tratado apenas como uma super erosão provocada pela chuva e por um vazamento na rede da Casal. Mas os estudos dos geólogos já apontaram como hipóteses para o fenômeno – que não é novo – a exploração do sal – -gema que é feito para Braskem, superexploração do aquífero da região (que também é feito pela Braskem) ou movimentação de placas tectônicas. Há ainda a hipótese do aparecimento e uma dolina (depressão no solo) pelo fato de o Pinheiro estar numa área “tectonicamente ativa”
Paralelamente, a Braskem também está investindo milhões de reais em estudos para identificar as causas do fenômeno. O setor de Relações Institucionais já adiantou que, pelos laudos que obteve por conta própria, não há relação entre as rachaduras nos imóveis do Pinheiro a exploração do sal-gema que é feito através de cinco poços instalados no bairro a partir da unidade do Mutange. A reportagem conseguiu informação dando conta de que, na verdade, há 35 poços da Braskem entre o Pinheiro, Bebedouro e Mutange, sendo que alguns estão desativados. Mesmo desativados, a retirada do sal-gema deixou o vácuo que pode gerar instabilidade da camada de terra e, inclusive, ser uma das causas da famosa “dolina”.
O que argumenta a Defesa Civil de Maceió
O engenheiro Dinário Lemos, chefe da Defesa Civil de Maceió, disse que “a batimetria sísmica é um dos trabalhos previstos para as próximas semanas seguindo o cronograma de trabalho realizado para investigar o surgi – mento das fissuras”.
“Conforme anunciado anteriormente, o Serviço Geológico do Brasil iniciou uma nova etapa dos estudos sobre a situação do Pinheiro. Uma grande equipe deve chegar a Maceió nos próximos dias. Alguns dos pesquisadores já estão na cidade e iniciaram os preparativos. Foi foi iniciada a instalação de réguas no Porto que vão auxiliar neste estudo. Os pesquisadores estão ajustando e aferindo os equipamentos para que logo o estudo seja iniciado”, explicou Dinário Lemos. (Ascom)
Aflição e medo entre moradores de três blocos
Aflição, desespero, muitas perguntas sem respostas e dramas diferentes. Pessoas que tiveram suas residências danificadas pelo tremor estão sofrendo um processo traumático. Blocos cheios de rachaduras, portas empenadas, janelas trincadas e um cenário preocupante até para quem está de longe: esta é a situação atual de dezenas de famílias moradoras dos blocos 7, 8 e 9 – Potengy, Palma e Jequitibá – do conjunto Jardim das Acácias, no Pinheiro. Segundo a Defesa Civil a evacuação desses três blocos deve ser feita imediatamente. As pessoas que seguem morando em áreas de risco – as mais afeta – das pelos tremores – começaram a deixar as residências em meio a um turbilhão de dúvidas.
Na última quarta-feira (9), a Defesa Civil da capital esteve no local cadastrando as famílias que tiveram que deixas seus imóveis para que elas recebam uma ajuda humanitária do Governo Federal. O órgão faz um alerta para os moradores dos imóveis que ainda não tiveram recomendação de evacuação e não foram avaliados entrem em contato e solicitem a visita de engenheiros para comprovar os danos e depois efetuar o cadastro.
O bloco 8 já foi quase todo evacuado, aproximadamente 60 pessoas abandonaram o local. Já não há esperanças de que ele se sustente por muito tempo devido às condições em que se encontra. Quase todas as paredes estão rachadas e faz até medo pisar no chão. Receber a notícia de que será preciso deixar para trás a sua casa, as tantas histórias vividas naquele lugar, os amigos e mudar de endereço é no mínimo aterrorizante.
O morador Manoel Soares, 59, do bloco 8 – um dos mais danificados – teve seu aparta – mento castigado pelas rachaduras que vão do chão ao teto. Eles precisaram se retirar às pressas em plena madrugada, quando sentiu o teto se abrindo. “Era possível ouvir a terra se movendo. Assustador”, declara sua esposa, Maria Luíza.
Abandonar os imóveis é tarefa árdua e assunto delicado para muita gente, mesmo diante da certeza de uma tragédia, alguns moradores se mostram resistentes e por não ter para onde ir são obrigados a conviver com o risco.


Comentar usando