, Quinta-Feira - 9 de Abril de 2020

 

“Não sou competente porque sou negra, sou competente e negra”

Erika Messias – Estagiária / 8:00 - 09/02/2020

A professora Taynara Cristina, 25, contou detalhes de como era seu convívio no Colégio Agnes


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A professora Taynara Cristina, 25, foi vítima de racismo na última terça-feira, 4, praticado pela própria chefe, diretora e dona do Colégio Agnes. Foto: Jamerson Soares

“Se algum de vocês forem à Ouro Branco [município alagoano], tragam um chicote ‘do bom’ para ela lembrar do tempo que ela tanto teme”. Essa foi a frase racista usada por Suely Dias para ofender a professora negra, Taynara Cristina da Silva durante uma discussão. A mulher – que é diretora e dona da Escola Agnes, localizada no bairro Trapiche da Barra – invadiu a sala de aula e acusou a professora de ter feito seu filho bater o carro, pois ela ter mandando mensagens de texto no momento em que ele dirigia. Após dizer a frase destacada, a situação tomou um rumo criminoso e relevou um lado cheio de preconceito.

O dia 4 de fevereiro deveria ser alegre e cheio de comemorações para a jovem educadora Taynara, pois era a data do seu aniversário. Mas toda a animação foi substituída por uma dor que já a acompanha desde criança. Sua cor, ainda em pleno século XXI, continua sendo motivo para que pessoas como Suely acreditem na superioridade da raça branca.

Aos 25 anos, após ter revivido mais um episódio racista, Taynara Cristina denunciou o ataque e ganhou o apoio dos seus alunos. Em meio aos protestos e revolta, a dona da escola tentou se mostrar arrependida por meio de uma postagem em uma das redes sociais da escola. Em seguida, a mensagem foi apagada.  Mas, independente desse fato, ela deve enfrentar a Justiça

Em entrevista ao O Dia Mais, a militante da causa anti-racista, feminista negra e presidente do Coletivo União das Letras da Universidade de Alagoas (Ufal) relembrou o ataque e mostrou que pretende seguir lutando para ser exemplo no combate ao racismo.

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No colégio onde foi vítima de racismo, Taynara ensinava à seus alunos sobre respeito e combatia o preconceito. Foto: Jamerson Soares

Como era a convivência profissional entre você e a diretora antes desse episódio?

Comigo e a diretora, a gente sempre teve contato direto, no entanto havia – não só comigo, mas com outros professores também – um histórico de abuso, de entrar em sala sem pedir, já que era chefe de alguma forma. Vale enfatizar que ela [Suely], é dona da escola e eles deram uma nota afirmando que a diretora teria sido afasta, mas isso não aconteceu justamente por ela ser a proprietária. A minha presença no Colégio Agnes, ela tinha muito a ver com a atuação militante e não só como educadora especialista em gramática, redação e educação textual, eu educava seres humanos a serem seres humanos. Cheguei a realizar várias mesas redondas, uma delas até contra o racismo usando a educação como forma de combate.

Você chegou a notar esse comportamento racista na diretora em outras ocasiões?

Olha, o Colégio Agnes – quando eu falo nesse sentido estou me referindo a dona da escola – nunca demonstrou nenhuma situação parecida antes, mas depois do ato racista, ela disse uma frase que me faz sempre bater na mesma tecla. Ela falou que não era racista, que só foi naquela situação que ela acabou sendo e que quero deixar bem claro, que quando você mata alguém, você poderia não ter sido assassino, mas quando você mata você se torna. Então é possível ter a sua história inteira camuflada sem expor o racismo, mas quando o ato racista acontece, não tem como não dizer que ela não tornou racista. Suely sempre falou que eu gostava de ocupar espaço demais, que eu deveria saber meu lugar e mesmo não me impedido de realizar os debates com as mesas, ela nunca quis participar de nada promovido por mim.

Como você se sente nesse momento, após toda essa situação?

Para ser bem sincera, é uma mistura de tristeza e felicidade pelo apoio que estou tendo. A gente sabe que o meu caso está tendo repercussão e infelizmente colabora por eu não ser uma pessoa leiga, porque se eu fosse, isso não se tornaria tão grande. Existe racismo a todo momento, com inúmeras pessoas negras sem instrução e sem falar que ainda se tem a ideia de que empregadas domésticas só são negras, a favela é ocupada principalmente pela galera preta. Então assim, o tempo todo é descarado, no entanto me sinto mais triste por ter passado por isso para poder conseguir ser vista como uma atuante na causa. Mas aí volto a me sentir feliz porque meus alunos me mostraram que eu como professora, não sou competente apesar de ser negra, eu sou competente e negra. Eu falei essa frase porque a diretora argumentou que poderia ter escolhido uma professora branca, mas me escolheu mesmo eu sendo preta.

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Em meio a tristeza de ter sido tratada com tamanha violência, Taynara diz que sente feliz com o apoio de seus alunos. Foto: Jamerson Soares

 

O que você sentiu quando a diretora disse a frase racista?

Senti literalmente o cheiro de casa grande, de engenho. Porque não tinha a ver com o racismo de uma pessoa da mesma classe social que a minha, era um racismo hierárquico e tinha a ver com poder. Era um exemplo de uma “chefe”, uma senhora de engenho, que chegou na minha sala de aula e achou que fosse uma senzala e olhou para mim, e obviamente pediu para que eu fosse ao tronco ser chicoteada. Claramente ela falou nesse sentido e isso só demonstra que tem a ver com hierarquia, pois ela se sentiu no direito de fazer aquele tipo de coisa, então havia ódio no discurso dela.

Após a repercussão do ato, junto com os protestos dos alunos e a divulgação da notícia, a diretora tentou entrar em contato com você?

Ela me ligou umas oito vezes, assim que aconteceu a situação e eu saí da sala chorando. Ela mandou várias mensagens no WhatsApp para eu afirmar que ela não era racista e usou isso quando vários pais começaram a ligar para a escola, dizendo que os alunos estavam postando que ela era racista. Em uma das mensagens ela chegou até a perguntar se eu realmente a achava racista e eu fiz questão de não responder, pois agora tudo vira prova em ações judiciais e se eu afirmasse nas mensagens – o que eu não iria fazer – que ela não era racista isso seria usado. Além dela, o filho também tentou argumentar e agora quem responde por mim é o povo e as questões jurídicas junto as minhas advogadas.

Voltando para a questão de sentimento, como foi para você, enquanto professora, ver seus alunos engajados no protesto, se posicionado contra ao racismo?

Me senti protegida por quem eu sempre protegi. Teve um caso específico de uma aluna que estava no protesto e disse que estava ali por ela, porque eu tinha ensinado que ela deveria ocupar espaço. Hoje ela se assume como mulher, negra, gorda e bissexual, isso mexeu comigo. Outra aluna começou a chorar e pediu desculpas afirmando que eu sou uma figura representativa na vida ela, pois hoje ela não se sente mais silenciada. Então quando eu vi meus alunos e alunas com cartazes me vendo como um exemplo, eu percebi que não era uma luta apenas minhas. E é por isso que não vou aceitar que isso seja tratado como injúria racial, porque ela [Suely] não interferiu só em minha vida, ela sujou um povo, ela remeteu um período que a gente tem medo que volte. Ela não mexeu só com a Taynara, ela mexeu com um povo, com uma história.


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