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Música e filme: sobrevivendo ao mercado injusto da pirataria

Danielle Henrique - Estagiária* / 7:02 - 09/02/2016


O jeito de consumir música se modernizou e hoje as pessoas têm em mãos diversas plataformas online e gratuitas, desde aplicativos nos celulares até sites para baixar álbuns inteiros. Apesar desse avanço tecnológico que a internet proporcionou aos consumidores, há quem acredite na “boa e velha” forma de comprar e ouvir música. É o caso da loja “O Vinil”, um dos poucos lugares que resiste na cidade.

Cícero Antônio Alves, de 49 anos, mais conhecido como “Kinkas”, é uma das pessoas por trás desse mercado de resistência da venda de discos de vinis, fitas cassete, VHS, DVD’s e CD’s originais e também vitrolas. Desde criança esteve envolvido com o comércio e herdou do pai não só a paixão pelos vinis, mas também o trabalho.

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Cícero Alves, o “Kinkas”, herdou do pai a paixão pelo vinil (Foto: Danielle Henrique)

“Meu pai era um comerciante de Rio Largo e já trabalhava com isso, tinha loja de vinis e sons de equipamentos para aluguel de circo. Eu o acompanhava e então comecei a pegar gosto por isso, e foi aí que crescemos nesse meio”, recorda.

Na época, existam aqui em Maceió, lojas de vinis como a “Carrossel Musical”, “Eletrodisco”, “Alagoas Disco” e “Pop Disco”. Observando as oportunidades, o pai de Kinkas começou a fazer negócios aqui em Maceió, lá na “Feira do Passarinho”, trabalhando muito no Comércio da Cidade. Depois, com a herança da família, Kinkas permaneceu desde então com sua loja “O Vinil”, somando 15 anos de história.

É difícil ter que manter um mercado de vendas onde os principais produtos musicais fazem parte de um grupo seleto de pessoas e a outra parte está bastante focada nas vendas que são facilitadas pela internet, no conforto do lar. Perguntado de o porquê manter uma loja de discos de vinil, Kinkas foi objetivo:

“O primeiro de tudo é você gostar, tudo o que você faz e ama, dentro do seu comércio, já tem uma grande vantagem. E eu gosto de trabalhar com vinil porque é a minha vida. Eu já tive outros comércios pra trabalhar, mas não quis, prefiro o vinil. Não é lá essa coisa lucrativa, mas é a paixão que eu tenho pelo vinil”, responde com amor.

Tradição familiar e a descoberta da cultura

Essa paixão não fica apenas com o dono do negócio. Os clientes chegam a loja principalmente para encontrar raridades que a internet não pode oferecer, como é o caso da Sandra Silva, cliente que chegou ao local na tentativa de encontrar um presente (disco de vinil) para a mãe e também discos raros que procurava há tempos:

“Eu vim para ver se eu encontro um vinil que a minha mãe quer há muito tempo e também pra pegar alguns pra gravar, porque minha mãe tem muito vinil em casa, tem até radiola. Mas o que ela quer, eu já olhei na internet e não encontrei aí eu me lembrei dessa loja. Pensei em vir e aproveitar pra fazer uma seleção dos vinis que eu quero transformar para o CD”, explica Sandra.

Para ela, uma loja como a “O Vinil” é de extrema importância para a cidade, “eu espero que ela permaneça para sempre”.

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O rock é um dos mais procurados na loja (Foto: Danielle Henrique)

Existem variações na faixa etária dos clientes, mas o público que predomina, é o dos jovens, inclusive com uma forte procura pelo rock. “Se todos os discos dessa loja fossem de rock, eu já teria vendido tudo”. A juventude vai em busca do vinil principalmente para conhecer um cenário do qual não foram inseridos quando nasceram.“Os antigões como eu e os outros já tem estoque em casa, agora o jovem quer ter o prazer de conhecer os discos”, revela Kinkas.

A maioria dos clientes chega à loja com um propósito definido do que está procurando, mas já começou uma movimentação de pessoas que chegam à loja para conhecer, procurando de tudo um pouco, querendo descobrir como é esse estilo tradicional de consumir música.

A resistência do mercado

Nem tudo é um “mar de rosas” para quem deseja enfrentar esse mercado, além da paixão pelo o que faz, é preciso também pensar em estratégias de como manter o negócio, e assim, conseguir tirar uma grana legal por mês. Kinkas revela que no auge da música de vinil era ótimo, mas hoje é questão de sobrevivência:

“Como comerciante aqui, eu pago aluguel. Quando sobra alguma coisa, dá pra gente fazer um ‘à mais’, mas tem meses aqui que é o taxativo. Vem aluguel, água, luz, despesas do dia a dia e olhe que eu não tenho empregado, sou eu mesmo aqui pra tudo. Sendo assim, dá pra sobreviver, se eu mantesse um empregado aqui, não daria”, explica.

O pequeno grande negócio

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Os clássicos da música brasileira podem ser adquiridos por preços que cabem no bolso (Danielle Henrique)

No começo de tudo, os vinis tinham valores bem especulados no mercado e isso foi se desenvolvendo durante muito tempo. Aqui no Brasil, o vinil durou no comércio aberto até 1996, no final da década de 1980 o CD (compact disc) começou a surgir no país, migrando a população para os discman e microsystems, e depois, a internet surgiu para mudar radicalmente o estilo de vida de milhares de pessoas.

Com todas as mudanças tecnológicas que aconteceram no mundo da música até hoje, houve questionamentos se a cultura do vinil permaneceria por muito tempo no Brasil. Talvez a resposta esteja nesses lugares que sobrevivem com isso:

“Eu vou morrer, nascer de novo e ainda vou encontrar vinil aqui na Terra. O vinil sempre teve valor para aqueles que são apaixonados”. O comerciante também relata que esse “pequeno negócio” toma boas proporções país afora. “Eu tenho um pessoal de outros estados que entram em contato pelo facebook e chegam até aqui, eles vêm de São Paulo, Rio de Janeiro e até de fora do Brasil”, explica.

Sem se entregar à contemporaneidade do mercado avançado da música, lojas como a “O Vinil” mostram que a paixão pelo o que faz é sinônimo de resistência e a clientela define um cenário de que a boa música, seja como for, sempre terá seu lugar de glória.

O outro lado da moeda

Apesar de alguns quererem resistir até hoje com a venda desses produtos originais, a força do mercado que surgiu com a internet deixa para trás outros que tentaram até agora manter a tradição.

Aqui em Maceió a tradicional locadora “CM Vídeo”, localizada no Farol, encerrará suas atividades após 27 anos de história com o aluguel de DVD’s, procurados pela reportagem do O Dia+, não quiseram falar sobre o assunto.

Pablo Toledo, dono da locadora “100% Vídeo”, na Ponta Verde, anunciou que também vai fechar as portas em breve e está vendendo todo o estoque de DVD’s da loja, com preços que variam de R$ 4,90 à R$ 17,90, com horário de funcionamento de 11h às 23h. Só em três dias, eles já conseguiram vender 2.500 títulos.

O advogado Fernando Padilha sempre foi usuário das locadoras de Bluray e DVD, sendo cliente da “100% Vídeo” desde sua abertura em fevereiro de 2007. Ele nutriu a paixão pelo cinema ainda na infância, com referências de seus pais. Para ele, o mercado das locadoras está se extinguido devido a internet:

“Com a facilidade de poder ter filmes de forma gratuita (pirataria), cada dia mais as pessoas deixam de alugar filmes para assistirem em sua casa. Há uma inversão de valores neste caso, que seria o preço dos filmes piratas em detrimento da qualidade de um filme original”, explica Fernando.

Ele também fala que os clientes que gostavam de alugar filmes agora se encontrarão “órfãos”, deixando para trás as locadoras de filmes que iam muito além de um simples lugar, mas que traziam diversão, lazer, cultura e educação para a população e que agora ficarão apenas na lembrança:

“Uma sensação estranha. É uma mistura de saudade e tristeza. A locadora não é apenas um ambiente de locação de filmes, mas um ambiente de aprendizado, culturalmente falando, e de fazer novas amizades”, diz.

Essa é uma tendência que aconteceu e deverá acontecer com as locadoras de DVD’s que ainda existem, principalmente nessa competição injusta que é a venda de produtos originais com a gama de serviços que existem do outro lado: Netflix, TeleCine Play, iTunes Store, sites para assistir filmes online gratuitos e o programa Torrent que baixa arquivos de forma gratuita na internet.

Esse cenário é triste, mas existe. Nem todos que tentaram enfrentar o mercado ascendente de músicas e filmes gratuitos ou bem mais baratos conseguirão resistir a essa competição, mas enquanto houver clientes, haverá resistência.

*Com supervisão da editoria.


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