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Mito de que não há tremores de terra no Brasil se desfaz

Pedro Barros - Repórter / 10:00 - 13/01/2019

Mesmo que em baixa atividade, AL está na rota de abalos sísmicos


Um dos prédios do Jardim das Acácias que foi danificado

Um dos prédios do Jardim das Acácias que foi danificado

Ainda um mito, a ideia de que tremores de terra não acontecem no Brasil aos poucos vai se desfazendo, diante de inúmeros relatos de sismos país afora. Embora não catastróficos, como os registrados em outros países, esses fenômenos ocorrem, praticamente, todos os dias no país. A grande maioria apresentam magnitudes abaixo de 3,0 na escala Richter e somente são percebidos pelas pessoas quando, em área urbana, provocam vibrações em portas, janelas e camas, por exemplo.

Portanto, a ideia, há muito difundida, de que o país estaria fora das estatísticas sismológicas literalmente desaba com os inúmeros registros do fenômeno. Após a instalação da rede sismográfica brasileira, em 2014, os pesquisadores puderam comprovar que o país é palco de centenas desses eventos por ano. Para dimensionar a quantidade desses abalos sísmicos, no biênio 2014/16 foram registrados 517 ocorrências, média de aproximadamente 1,5 tremores por dia. De 2017 a meados de 2018 já tinham sido catalogados 487 casos. A grande maioria imperceptível aos humanos e registrados em todo o território brasileiro.

Mesmo que em baixa atividade, AL está na rota de abalos sísmicos

Segundo informações do Centro de Sismologia da USP, o estado de Alagoas não tem histórico de tremores muito fortes, apresentando assim baixa atividade sísmica, “mesmo para os padrões brasileiros”, como destacam os pesquisadores da USP em boletim da instituição. A nota esclarece que “no Nordeste, o local relativamente mais ‘sísmico’ e próximo de Maceió, é Caruaru, em Pernambuco.” Lá já foram registrados tremores com magnitudes ate 3.8 ocorridos em 1967, 1984 e 2002, sem danos importantes”. Talvez fosse um caminho de investigação para os pesquisadores se a região de Caruaru apresenta-se tremores com magnitudes maiores que as historicamente registradas. No entanto, o histórico desses eventos registrados no estado vizinho não permitem nenhuma relação com o fato verificado em Maceió. Tanto pela magnitude, quanto pelo tempo ocorrido não há nenhuma possibilidade de se estabelecer “vínculos” entre essas regiões. O boletim destaca ainda que “os maiores(tremores) da região Nordeste do Brasil ocorreram em 1980 no Ceará (magnitude 5.2) e em João Câmara, RN, em 1986 (magnitude 5.1). Nestes dois casos, houve muitos danos como rachaduras e trincas em casas”.

No entanto, nos últimos meses as manchetes locais vem enfatizando relatos de moradores destacando a ocorrência do problema. Assustados, a população do bairro Pinheiro, parte alta da cidade, local mais afetado pelas graves consequências do fenômeno, aguarda algum tipo de solução que possa lhe devolver o retorno a sua habitual rotina. Rachadura nos imóveis, alicerces comprometidos, passeios e vias públicas danificadas são os resultados dos últimos abalos registrados. Mesmo sendo um estado com baixa atividade sísmica, mesmo para padrões brasileiros, de acordo com avaliação dos pesquisadores da USP, em março de 2018 o site da instituição recebeu diversos relatos de internautas fazendo menção aos efeitos de tremor de terra em vários bairros da capital.

Susto é seguido pela incerteza com o futuro

As 17:30: 32 (Hora Universal = 14h 30 min 32 s Hora local) do dia, 3 de março, de 2018, um tremor de terra assustou a população de Maceió. A precisão da hora mostra que o evento entrou nas estatísticas da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR). Um boletim foi divulgado a época pelo Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP) descrevendo o evento. O órgão é responsável por monitorar a atividade sísmica no território nacional utilizando os dados da RSBR.

Inúmeras casas e apartamentos foram danificados. Muitas dessas residências, estão com as estruturas comprometidas, colocando em risco a vida de seus moradores. As vias públicas danificadas já foram consertadas. No entanto, muito mais “danificados” estão os ânimos das pessoas diretamente afetadas pelos tremores que sem saberem suas causas temem pelo futuro cujos efeitos são facilmente previsíveis – destruição de imóveis, comprometimento dos passeios e vias públicas e risco de mortes.

Este tremor, a que faz menção a nota da USP, teve magnitude bem pequena, apenas 2.4 na escala Richter. Foi registrado por estações da Rede Sismográfica Brasileira, operadas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). De acordo ainda com as informações “o epicentro foi determinado na área da cidade de Maceió, mas não há precisão para saber em que bairro exatamente”.

Nos relatos que a USP recebeu de internautas, não há nenhuma indicação de queda de objetos. No entanto as informações divulgadas, pela mídia e nas redes sociais, destacando o surgimento de rachaduras em paredes e buracos nas vias públicas são, de acordo com os pesquisadores, incompatível com um abalo sísmico de magnitude inferior a 3,0 na escala Richter.

Fissuras no subsolo podem ser causa de fenômeno

Os abalos sísmicos, denominados também de terremoto quando de grande magnitude, são resultados da liberação de energia na crosta do planeta, por conta da movimentação das placas tectônicas que “carregam os continentes” e que deslizam sobre o magma, liquido muito quente e pastoso – o mesmo que os vulcões expelem na forma de lava. O fenômeno verificado no Pinheiro com toda certeza não é resultado da movimentação dessas placas, pois o Brasil se encontra “apoiado” no interior da placa Sul-Americana, longe das bordas não corre o risco de sofrer terremotos e nem abalos sísmicos, a não ser de forma indireta como reflexo de terremotos em outros lugares. No entanto, os tremores também podem ter origem em outros fenômenos como fissuras existentes no subsolo.

A dúvida sugere assim que se pesquisem todas as possibilidades que possam justificar os trágicos efeitos. O boletim da USP não descarta a possibilidade de que as fortes chuvas da noite anterior ao fenômeno possam ter de alguma forma contribuído para o estrago. Para os especialistas, os bueiros da localidade poderiam ter desmoronado provocando pequenas movimentações no terreno encharcado, justificando as enormes crateras no solo. No caso das rachaduras nas paredes estas já existiriam – em forma de trinca – somente sendo percebidas após o evento, cogitam. A nota esclarece, no entanto, que não é possível afirmar que exista de fato relação do tremor com as chuvas. “Ainda não sabemos se o tremor teve alguma relação com as fortes chuvas da véspera ou se foi apenas uma coincidência. Em outros lugares do mundo e mesmo do Brasil, os tremores quase nunca têm relação direta com chuvas. Embora muito raros, há casos em que se verifica pequeno aumento da sismicidade em épocas de chuva”, esclarece o informe. No elenco de possibilidades não se pode descartar os efeitos da ação humana como indutora dos tremores, hipótese não considerada até o momento pelas autoridades.

Após ação humana, mais de 730 locais sofrem terremotos

Tido como resultado de uma ação inesperada das forças da natureza, tremores de terra também poder ter origem nas atividades de exploração dos recursos naturais pelo homem, pelo menos é o que aponta estudo publicado pela revista Seismological Research Letters. Assim o conceito de abalos sísmicos como resultado apenas da dinâmica da terra começa a mudar e dados científicos divulgados pela publicação reforça essa ideia. Pesquisadores catalogaram 730 locais onde a ação humana foi responsável por terremotos nos últimos 150 anos, em todo o mundo.

Assim, a exploração do subsolo pelas indústrias do petróleo, gás e mineração, por exemplo vem sendo apontada como desencadeadora de tremores de terra. O chamado terremoto induzido pela ação humana vem suscitando muitos muitos debates. Nos EUA a discussão tem se dado em torno da exploração de petróleo e gás. Não se tem nas imediações das localidades atingidas exploração de petróleo e gás, no entanto, sem fazer juízo de valor deve-se levar em conta a exploração do sal-gema, pela Braskem.

O termo sal-gema refere-se ao sal extraído de minas subterrâneas, diferente nesse aspecto do sal marinho que obtido pela evaporação da água do mar. Essas minas são formadas por mares e lagos que se extinguiram. Os grãos de sal em estado puro são compostos de cloreto de sódio, acompanhados de cloreto de potássio e cloreto de magnésio.

O sal e seus derivados são utilizados nos processos de fabricação de borrachas, papel,alumínio, produtos farmacêuticos, fertilizantes, inseticidas entra também como matéria prima de plásticos e PVC dentre outros produtos. A sua extração exige a perfuração de poços profundos e embora não haja registro de casos de tremores por conta desse tipo de atividade e necessário uma avaliação mais profunda desse processo para que se possa dirimir todas as dúvidas atribuídas a esse tipo de exploração econômica.


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