Mães de bebês com microcefalia contam dramas, desafios e sonhos

Mães de bebês com microcefalia contam dramas, desafios e sonhos

Por | Edição do dia 8 de maio de 2016
Categoria: Artigos, Brasil, Notícias | Tags: ,,


“Se a gente soubesse que ia ter esse problema, como mãe a gente ia ter o filho, ia pagar pra ver, mas acho que muita gente desistiria. Por exemplo: eu vou engravidar, aí se tivesse uma certeza, se você engravidar hoje seu filho vai nascer com microcefalia. Acho que muitas mães desistiriam. E se fosse pai com certeza, 50% desistiriam, nem enfrentavam o desafio”, começa uma mãe. “100% deles”, ri outra. “90%”, estima uma terceira.

Foto: Agência Brasil

Foto: Agência Brasil

A conversa acima pode soar fria fora do contexto no qual ocorreu.  No entanto, quem participa da conversa fala com a propriedade da experiência. São mães de bebês com microcefalia atendidas em uma das sessões de grupo de apoio da Fundação Altino Ventura (FAV), entidade sem fins lucrativos que recebe parte dos pacientes do SUS em Recife, Pernambuco.

Grupos assim tiveram que ser organizados praticamente às pressas quando o estado começou a identificar o aumento incomum e crescente de casos de microcefalia. É um espaço onde as mães podem falar umas com as outras mães e para profissionais de saúde. Envolvidas em uma rotina de cuidados, viagens em busca de consultas, sessões de estímulo precoce dos bebês e dramas pessoais, a terapia é o momento específico para que reflitam e se exponham.

A liberdade de falar sobre assuntos que poderiam ser reprovados por quem não vive o desafio da microcefalia ajuda, mas a oportunidade de trocar informações com outras mães é o maior benefício, segundo as participantes. O que as feministas chamam de sororidade, a cooperação e o apoio entre mulheres, é expresso na troca de dicas e dúvidas sobre o tratamento e o desenvolvimento dos filhos.

“O que me ajuda na minha rotina é a conversa, saber de outras mães. O grupo de apoio me ajuda bastante, minha perseverança. Pensei em desistir, que não ia aguentar, e hoje estou aqui. Eu sigo em frente e cada dia é novo. Ver os outros bebês, ver o meu, principalmente, e ele precisa muito de mim. Tudo tem um significado para nós”, relata Ana Júlia Xavier de Araújo, de 18 anos, mãe de Anderson Gabriel, de 6 meses, e grávida de quatro meses.

Moradora de Glória do Goitá, no interior do estado, Ana Júlia aguarda exame para saber se o próximo filho tem a malformação. Ela teve os mesmos sintomas de suspeita de Zika que observou na gestação anterior.

Abandono

Enquanto na sessão, parte das mães aposta que muitos homens não encarariam o desafio de cuidar de um filho com microcefalia, algumas delas vivenciam a ideia de criar um bebê sem a ajuda do marido ou companheiro.

A segunda gravidez de Ana Júlia não impediu o marido de ir embora. A jovem não dá muitos detalhes da separação. Com tom de voz rígido e, até mesmo ríspido, Ana Júlia busca superar a perda. “Já pensei muito nisso e agora não quero saber. Não importa. Se Deus me deu meu filho, é porque tenho capacidade de cuidar dele. E se eu crio um eu crio dois”, decreta.

Daniele e o filho Juan (Foto: Agência Brasil)

Daniele e o filho Juan (Foto: Agência Brasil)

Com Daniele Santos, 29 anos, mãe de Juan Pedro, de 4 meses, a separação ocorreu após o nascimento. “Foi meio estranho porque ele [o filho] era muito irritado, chorava muito. Meu marido também na época estava sem trabalhar, aí juntou uma coisa com a outra. De repente, ele [o pai] foi embora de casa e disse que era porque eu não estava dando atenção a ele”, lembra.

“Ele não chegou a comentar nada, mas se isolava. Desejava muito um filho homem, então de repente aquele sonho […] A mídia falava que podia ser que o menino não falasse, não andasse, então o choque foi maior para ele [o pai] do que para mim. Eu aceitei melhor do que ele”.

Segundo Daniele, a história começa a ser revertida. “Depois que saiu as notícias, que ele viu que não era só o filho da gente, que viu os tratamentos, ele foi se apegando de novo ao bebê. Hoje, quando ele pode me acompanha em algumas terapias. A gente está separado, mas ele já aceita bem melhor o filho dele”.

Daniele conta com a ajuda dos vizinhos desde que Juan nasceu. “Como eu moro em uma comunidade pequena, todo mundo ficou mobilizado. Sempre tem alguém perguntando se queremos alguma coisa. Nos acolheram”.

Compromisso

No mesmo espaço onde se encontram histórias de abandono, há também lições de amor e responsabilidade. Quando a pequena Vitória, de 7 meses, apareceu na sessão de terapia na FAV, foi recebida com afeto pela equipe e pelas outras famílias. A mãe, Kely Romualdo de Oliveira, 35 anos, observou em silêncio, com um sorriso discreto. Confundida com uma cuidadora, Kely contou ao grupo a novidade que há três dias havia mudado completamente sua vida: era a mãe adotiva da menina.

“Não sei nem explicar, é muito amor que eu senti por ela. Eu me apaixonei por Vitória. É como se ela tivesse saído de mim”, recorda a dona de casa, ao contar como foi o primeiro encontro das duas.
Ela e o marido, Josimar Pereira, 57 anos, já têm um filho de 15 anos. Decidiram aumentar a família e recorreram à adoção. “Não pude mais ter filho, e sempre quis adotar. Ficamos um ano na fila, mas o perfil era outro. Quando visitamos o abrigo, onde ela [Vitória] estava e a vi, não pensei em nada. Disse: é ela, é minha filha”, completa, antes das primeiras lágrimas pingarem.

Josimar, Kely e a filha Vitória (Foto: Agência Brasil)

Josimar, Kely e a filha Vitória (Foto: Agência Brasil)

O casal conseguiu a autorização da Justiça para mudar o perfil e adotar uma criança com deficiência. Um mês depois, Vitória passou a fazer parte da família de Kely. “Meu filho, minha mãe, os filhos dele, a mãe dele. Quando a gente tirou a Vitória do abrigo fizeram uma festa para ela”, recorda.

De acordo com a dona de casa, nos primeiros dias, várias pessoas ajudaram nos cuidados com a menina. Agora, a maior parte da rotina é de responsabilidade dela. “Meu marido trabalha o dia inteiro. Como fica eu e ela, é bem mais tranquilo. Todo mundo da família já ama Vitória”.

Josimar é funcionário do Ministério da Fazenda no Recife. Na manhã da entrevista, havia conseguido uma folga para acompanhar, pela primeira vez, o tratamento da filha. “Não importa o dia nem a hora, a gente vai a hora que for necessário. Já que a gente assumiu esse compromisso, essa responsabilidade”.

Ambos garantem que não têm medo de encarar uma vida de dedicação a filha. “Uma criança precisa de muito amor e carinho, independentemente da condição em que ela esteja. Abandonar, acho que é um crime”, disse Josimar. A mãe também opina: “Eu diria paras mães que não tenham medo, não é uma coisa de outro mundo”.

Kely e Vitória ainda tiveram de enfrentar o preconceito. “Tinha gente que falou: ‘Por que você vai adotar? Eu que não adotaria’.’Vai procurar trabalho?’ Eu respondia: ‘Quando você tem um filho, quando você tá grávida, você sabe como seu filho vai vir?’ Não sabe se ele vai vir com saúde, se vem branco, preto, não é verdade? Pra mim é a mesma coisa. É a minha filha”, diz Kely.

E quem cuida das mães?

Protagonistas de um drama nacional, mães de uma geração que carregarão a marca de uma epidemia ainda a ser plenamente descoberta, as mulheres que deram a luz a bebês com microcefalia passam a viver, desde o diagnóstico, quase que exclusivamente para os filhos. Abandonam o trabalho, estudos, enfrentam deslocamentos diários de muitos quilômetros para garantir atendimento aos filhos. E quem cuida dessas mães?

Em abril, ao visitar o Recife, uma das cidades com o maior número de casos de microcefalia, a consultora regional da ONU Mulheres Linda Goulart alertou para a importância da saúde física, mental e emocional dessas mães.

“Todas as ações e propostas de políticas públicas precisam ter a mulher como seu sujeito, e não objeto. Por mais que seja relevante tratar da criança e exterminar o vetor, não se pode esquecer que a mulher tem que estar no centro disso no sentido de garantir seus direitos sexuais reprodutivos, autonomia econômica e social”, defendeu Linda Goulart.

 

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