Longa-metragem alagoano participa de festival no RJ; saiba como assistir online

“Cavalo” teve estreia oficial adiada em decorrência da pandemia e foi selecionado para o Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais

Por Assessoria | Edição do dia 20 de agosto de 2020
Categoria: Brasil, Notícias


Após estrear em grande estilo na Mostra de Cinema de Tiradentes, no começo deste ano, e de ter a estreia adiada em Maceió devido à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), o longa-metragem alagoano Cavalo, de Rafhael Barbosa e Werner Salles, será exibido na 4ª edição do Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais, no Rio de Janeiro. O festival ocorre online e o representante de Alagoas estará ao lado de mais de 100 obras de todo o mundo. Para assistir, basta acessar o endereço www.festivalecra.com.br, entre os dias 20 e 30 de agosto. O acesso é gratuito.

Além de iniciar a trajetória de exibições em um dos mais tradicionais festivais de cinema do Brasil, Cavalo teria uma exibição especial em Maceió, marcada para março, no Centro de Convenções de Maceió, e com 1200 ingressos esgotados em três dias.

O Festival Ecrã, no qual Cavalo foi selecionado, é uma vitrine para as diversas expressões do audiovisual contemporâneo, com filmes, instalações, performances e experimentações em realidade virtual e outras tecnologias.

Para além da felicidade em ser selecionado no festival, a equipe ainda carrega outras importantes marcas nos eventos pelo País afora. O filme também será parte da edição online do CIndie Festival e na Mostra Olhares Brasil, que integra a programação do Festival Internacional de Curitiba. Em Alagoas, “Cavalo” fará parte da programação especial de longas-metragens do 10º Circuito Penedo de Cinema, em novembro. Paralelo às exibições no Brasil, o filme será visto em festivais internacionais, como o Mímesis Documentary Festival, no estado americano do Colorado, e no Festival Latinoamericano de Cine de Quito, adiado para 2021.

Filme é o primeiro longa alagoano a ser produzido com recursos de edital público

FOTO: ASCOM FMAC

Para Rafhael Barbosa, o sentimento ao receber boas notícias é recompensador, em relação ao tempo que o filme levou para ser finalizado. O sentimento é justificado ao conhecer os processos de produção.

“Qualquer longa-metragem, em qualquer lugar do mundo, leva muito tempo para ser concluído. Da concepção até a finalização, o processo de feitura do Cavalo durou cinco anos. Foi um período de muita entrega, imersão, pesquisa, envolvimento pessoal. Investimos uma fase das nossas vidas nele. E agora estamos compartilhando essa experiência com o público. Tem sido muito rico”, afirmou o diretor.

Cavalo é o primeiro longa-metragem alagoano produzido com recursos públicos. O projeto do filme foi contemplado no Prêmio Guilherme Rogato, da prefeitura de Maceió, em 2015, e contou com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para sua realização, o que representa um marco para a política cultural do Estado. O diretor Werner Salles aponta que o sucesso no retorno vêm de boas políticas públicas aplicadas ao audiovisual de maneira mais efetiva, reconhecendo o setor como gerador de emprego e renda, tanto como outros.

“Em Alagoas, os investimentos no audiovisual são relativamente recentes, mas são colhidos frutos muito visíveis. Em 2020, praticamente todos os festivais de cinema nacional contaram com a participação de produções alagoanas, de Tiradentes a Gramado, onde estaremos pela primeira vez na mostra competitiva de curtas. O cinema de Alagoas está contribuindo para ressignificar o imaginário do estado para o Brasil e para o mundo”, afirmou Salles.

O longa contou com o carinho e disposição de uma equipe de 56 pessoas. Todos os detalhes foram pensados por Barbosa e Salles para garantir que Cavalo seja mais do que uma experiência visual. A intenção é explorar os sentidos humanos através de sons e movimentos na tela. Portanto, com a grande onda de cancelamentos, o filme não escapou à regra e acabou sofrendo modificações no modo de ser assistido.

“Ver um filme num computador ou num celular nunca será igual a ver numa sala de cinema. Não há o que fazer além de se adaptar. Porém, o ambiente virtual traz algo extremamente positivo: um alcance muito maior e mais democrático. Na verdade, estamos muito curiosos para saber como será essa experiência”, comentou Rafhael Barbosa.

O FILME

Os premiados diretores Rafhael Barbosa e Werner Salles traçam a narrativa de Cavalo sobre uma linguagem híbrida apoiada entre a ficção, o documentário e a experimentação, com o objetivo de retratar a memória da ancestralidade no corpo. A ideia surgiu após o lançamento de “Exu – Entre o bem e o mal”, de Salles, que provocou nos diretores a vontade de desenvolver um projeto que se relacionasse com os arquétipos dos orixás e das entidades oriundas das religiões de matriz africana.

Para tanto, o projeto exigiu da dupla oito anos de pesquisa, estudando, entre outros assuntos, a história do Quilombo dos Palmares. “O Quilombo é uma das maiores narrativas de resistência do mundo, quando entendemos que seria instigante investigar os ecos desse passado em nossa contemporaneidade. A ancestralidade foi o caminho encontrado para expressar essa busca”, explicou Barbosa.

A execução do longa exigiu muita preparação corporal do time dos sete protagonistas, que dançam na chuva e deitam sobre o mar, em cenas do filme. O elenco é composto por artistas alagoanos de várias categorias, de cantores a dançarinos, os escolhidos pela dupla de diretores possuem em comum a forma de se expressarem usando somente o corpo.

“O corpo é o signo mais proeminente do filme. Alguns dos artistas que trabalharam conosco são cavalos (como são chamados os médiuns na Umbanda e no Candomblé), condição que potencializa a capacidade de expressão corporal”, completou Werner.

Somam no time, como peças principais, os protagonistas Alexandrëa Constantino, Evez Roc, Joelma Ferreira, Leide Serafim Olodum, Leonardo Doullennerr, Roberto Maxwell e Sara de Oliveira. Após um teste de elenco, o grupo passou a conviver de maneira intensa a cada processo de preparação, o que gerou uma imersão artístico-cultural que transparece nas telas e que os diretores utilizam como parte fundamental da narrativa.

Apesar dos personagens terem sua autoria baseada no roteiro, cada intérprete foi provocado a construir a própria performance, inspirada pelo arquétipo do cavalo e pelas simbologias que lhes fosse conveniente. “Fomos buscando o que nos movia de encontro a nossa ancestralidade, nosso desejo. O que movia nosso corpo, nossa dança. E, a partir disso, começamos a perceber questões como: O que é o candomblé, onde se fundamenta? Onde África vive em mim? Dentre outras que me rondavam para construção da minha performance, da minha presença no filme”, afirmou o ator Allexandrëa Constantino.

A partir dos dias intensos de gravação e da vivência no set, o ator conta que sentia a poesia de “Cavalo” nos corpos afro-indígenas em diáspora, nas danças e nas escolhas estéticas. “O filme apresenta Maceió e seu povo ao mundo, em seu potencial Afro Futurista, em outros devires, outras narrativas e dramaturgias”, concluiu Constantino.

Segundo os diretores, apesar da linguagem provocadora, “Cavalo” tem potencial para alcançar uma trajetória popular, o que pode vir a ser mais viável com o lançamento online. “O filme não tem uma narrativa clássica. Seguimos o caminho do cinema de poesia, mas sempre com uma vontade de nos conectarmos com o público por meio da sensibilidade. Num momento em que a intolerância religiosa e os diversos preconceitos avançam de maneira preocupante no País, ‘Cavalo’ é um grito poético que deve reverberar”, disse Rafhael.

O QUE DIZ A CRÍTICA

Nas mostras e festivais por onde passou, o “Cavalo” de Alagoas deixou sua impressão em quem sabe dar opinião. Bruno Carmelo, colaborador do site Papo de Cinema, disse que o filme consegue unir a apreensão do real, a representação do mundo e a criação poética num mesmo registro, etéreo sem ser abstrato demais, conferindo protagonismo a corpos, vozes e identidades marginalizadas dentro de um contexto de pura beleza estética.

Vitor Velloso, do portal Vertentes de Cinema, reconhece a postura física e corporal que Rafhael e Werner introduzem no longa, e escreveu que o filme possui a fluidez de transitar entre o documentário e o ensaio ficcional com uma organicidade louvável, pois reconhece, em sua estrutura, a necessidade de ampliar os horizontes da realidade para que haja uma compreensão mais dinâmica e concreta da temática que trabalha.

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