Boa Noite!, Quinta-Feira - 18 de Abril de 2019

 

Grupo dissemina a cultura do rap em viagens de coletivos em Maceió

Carol Amorim - Repórter / 9:44 - 02/03/2019

Formado por seis MCs alagoanos, o grupo Rap em Movimento aproxima a cultura do hip hop para público diverso, com apresentações diárias.


Por Carol Amorim – Repórter O Dia+

Há menos um ano, mais precisamente, no dia dos namorados do ano passado, um grupo de amigos se juntou para fazer rimas em forma de rap nos coletivos de Maceió.  Um dos membros, Fellipe Motta, 20, conheceu o trabalho de uma dupla independente que fazia a rima nos coletivos, experimentou, e passou a se apresentar periodicamente com outros amigos. Atualmente, ele e mais cinco membros, juntamente a um produtor, formam o grupo Rap em Movimento, que leva a arte do hip hop pelas ruas de Maceió por meio dos coletivos.

(Foto: Jessyka Soares)

O grupo Rap em Movimento, que leva a arte do hip hop pelas ruas de Maceió por meio dos coletivos é formado por seis integrantes.(Foto: Jessyka Soares)

A rotina dos rappers do grupo começa com a definição da rota que eles traçarão no dia seguinte e dos horários que eles farão. Um dos locais que o grupo mais se apresentou, segundo eles, foi a Avenida Fernandes Lima. Para os membros, o local é o mais central da cidade. Além da Fernandes Lima, os bairros Ponta Verde, Poço e também a parte alta da cidade fazem parte da rota do Rap em Movimento.

A equipe de reportagem do site O Dia Mais acompanhou o grupo na jornada de trabalho e arte e observou que, geralmente, em dupla, os membros do grupo esperam nos pontos de ônibus um transporte que esteja mais vazio, com passageiros sentados. “Para não atrapalhar a passagem e não gritar no ouvido de alguém”, explicou Fellipe.

Além desse detalhe, os artistas observam se no ponto de ônibus já estava algum vendedor ambulante, para não passar a vez dele na entrada do coletivo. E, antes de entrar no ônibus, os rappers pedem autorização ao motorista para entrarem pela traseira do transporte.

“No começo eles [motoristas] ficavam desconfiados da gente, perguntavam se a gente ia bagunçar o ônibus, mas agora, a maioria já nos conhece”, contou Michel Santos, 18, o membro mais jovem do Rap em Movimento. Ele também enfatiza que há cerca de dois meses os membros trabalham uniformizados, com camisetas que tem a logomarca do grupo.

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Há cerca de dois meses os membros trabalham uniformizados, com camisetas que tem a logomarca do grupo. (Foto: Jessyka Soares)

Ao entrarem no coletivo, acompanhados da equipe de reportagem, foi possível notar olhares curiosos e até mesmo sorrisos de adultos e crianças. A dupla em questão (geralmente eles se dividem em dupla) se apresentou a todos e em seguida ligou a caixinha de som portátil que fica pendurada no pescoço de um deles. O beat – como é chamada a música instrumental que acompanha os rappers nas rimas -, que o grupo utiliza, segundo Fellipe, foi retirado da Internet, mas, no momento, o Rap em Movimento se prepara para mobilizar MCs que produzem música em Alagoas, para que eles possam disponibilizar beats para o grupo utilizar em suas apresentações diárias nos coletivos de Maceió.

Enquanto isso não acontece, o grupo utiliza as músicas encontradas na web e, ao começarem a rimar, expressam um repertório improvisado com a ajuda das características que eles encontram nos passageiros dos ônibus. No momento em que a reportagem esteve presente, essa forma de rima provocou riso em diversas pessoas que estavam presentes.

Além dessa forma de inspiração, Abraão da Silva, 19, mais um membro do Rap em Movimento, comenta que tudo ao redor dos membros do grupo pode virar inspiração na hora da rima. “A gente procura passar uma mensagem que faça sentido e procura também representar aquele que não tem coragem de fazer um trabalho expositivo como o nosso”, explicou. Abraão também enfatizou sobre a importância de passar uma mensagem de cunho social por meio do rap.

Ao final da apresentação da dupla que o site O Dia Mais acompanhou, a maioria dos usuários do coletivo aplaudiu a apresentação e se mostrou satisfeitos. Logo mais, quando a dupla passou pelos acentos do coletivo com um boné, para colher as doações que as pessoas quisessem dar pelo trabalho realizado, muitos também contribuíram com o incentivo a arte dos rappers em movimento.

Durante 4 horas de apresentações nos ônibus da capital de Alagoas, o grupo consegue arrecadas cerca de R$50 e ao final do mês, avaliam que conseguem adquirir uma quantia capaz de arcar com as despesas de cada um. Além disso, eles revelaram que já chegaram a ganhar refeições e até roupas, devido ao trabalho que eles realizam por meio da música. Todos eles, que fazem parte do movimento, o têm como a principal fonte de renda e até mesmo única.

SUPERAÇÃO

Sobre os possíveis preconceitos que enfrentam no dia a dia como artistas de rua, o membro Gabriel Vita, 21, confessou que já sofreu opressão nos coletivos e os demais relataram que já passaram por situações de preconceito devido ao estigma negativo que o rap ainda possui na mente de muitas pessoas. Entre as situações que já enfrentaram, eles relatam que ao entrarem nos coletivos, pessoas já chegaram a esconder os celulares e os fones de ouvido.  Mas, para eles, é unânime a visão de que é possível mostrar para as pessoas que o rap é uma arte, por meio da aproximação que as apresentações nos ônibus são capazes de proporcionar. “Após situações como essas, notamos que as pessoas pegaram o mesmo celular e começaram a filmar a gente”, relembraram.

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“Tem pessoas mais velhas que a gente sabe que conhece a rima por meio do repente e, quando se deparam com o rap, vêem algo familiar e começam a olhar com outros olhos. Isso é gratificante para a gente”, ressalta Michel. (Foto: Jessyka Soares)

Além disso, os membros também reforçam que reconhecem o papel social que eles carregam não apenas por disseminarem o rap alagoano nos coletivos como também por serem negros e terem estilos diversos, que fogem do padrão social.

No momento, o grupo Rap em Movimento não possui MCs femininas no quadro de membros, mas eles explicam que estão abertos a integrarem meninas na equipe e elogiam o trabalho das amigas MCs que eles já se depararam no cenário alagoano do rap.

Em meio das dificuldades que possam encontrar nos transportes, eles avaliam que a recepção nesses espaços são em 90% positivas e que, por meio das apresentações diárias, o grupo já coleciona algumas conquistas, como a participação em um documentário produzido por estudantes do curso de publicidade, de uma da faculdade da capital. Além desse primeiro registro audiovisual, o grupo também participou de mais dois documentários e que, inclusive, um deles, será exibido em breve na Noruega.

APOIO

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Fellipe tem o total apoio da mãe (Foto: Jessyka Soares)

Ao se tratar da reação dos familiares, Fellipe contou que a sua mãe já consegue ver o rap como um trabalho na vida dele e que, inclusive, já pediu para que ele não procurasse mais um emprego formal e continuasse no caminho do rap. Ele avalia esse apoio da mãe como uma conquista pessoal também.

No caso de Josias Brito, 20, mais um membro do Rap em Movimento, sua família também passou a compreender melhor o seu trabalho como artista de rua. Ele nota que seus familiares passaram a encarar seu trabalho com mais naturalidade.

Para Gabriel, porém, o apoio da família ainda é um obstáculo por muitos deles ainda valorizarem mais os empregos formais. Mas, apesar disso, ele segue satisfeito com sua escolha.

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Abraão da Silva (Foto: Jessyka Soares)

E, no caso de Abraão da Silva, ele conta algo curioso sobre a sua entrada para o grupo. “Foi a minha mãe que viu a apresentação do pessoal nos ônibus e sugeriu que eu fizesse o mesmo, já que ela sabia que eu gostava. A partir disso, eu procurei o grupo e comecei a participar. Para ela, se eu estou feliz, isso é o que importa”, contou.

Entre as inspirações artísticas do Rap em Movimento, eles citam artistas alagoanos como Singelo,  Alex NSC e o grupo Nós que Faz. E expressam que o objetivo do grupo também consta em atrair mais público e apresentar, para cada vez mais pessoas, o projeto que apresenta o rap para quem não costuma ter contato com o estilo musical.

Para apresentações e outros contatos, o Rap em Movimento pode ser encontrado por meio do Instagram @rapemmovimento_ e também através dos números (82) 99974-9727 e (82) 99116-2815.

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