Por:  
Mariana Lima

Golpistas tentam extorquir famílias de pacientes do HGE


Publicado em:  28/06/2016
Imagem: internet

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Quando Márcia* viu a expressão aflita no rosto da irmã Sandra* ao telefone, imaginou logo que seria uma notícia ruim sobre a outra irmã, Joana*, internada no Hospital Geral do Estado (HGE). Uma frase, em especial, chamou sua atenção:

“Mas a gente não tem esse dinheiro”, disse Sandra, quase chorando.

Do outro lado da linha, um homem que se dizia médico e estava com informações pessoais de Joana informava que ela estava com leucemia e precisava fazer exames fora do HGE, os quais o Sistema Único de Saúde (SUS) não cobria. Para isso, precisava de R$ 1.500,00 depositados em uma conta até às 15h. O suposto médico afirmava a todo momento que se Joana não fizesse os exames, a leucemia iria evoluir para um câncer e ela ia morrer.

O fato descrito acima aconteceu em 09 de junho, quando Joana completava seu quarto dia na UTI do HGE por um problema cardíaco já diagnosticado e em tratamento constante. A narrativa das irmãs mostra que um golpe aplicado no HGE e já identificado pela direção e até pela Polícia civil continua em curso, aproveitando-se de momentos de desespero das pessoas.

A família de Joana falou com a equipe de O Dia Mais, porém, por motivos de segurança da paciente, pediu que fosse esperada a alta hospitalar para divulgação da história. Os nomes das irmãs também foram trocados, a pedido.

“Era umas 10h da manhã quando o tal médico ligou. Eu só via Sandra agoniada no telefone e quando cheguei perto, ouvi sobre dinheiro. Peguei o telefone na hora e comecei a falar com o homem. Ele foi falando, falando, eu estranhei a situação e não demorei a perceber que era um golpe. Mas a Sandra ia cair se eu não tivesse em casa”, contou Márcia.

Ela própria uma cuidadora de idosos aposentada, com mais intimidade com temas de saúde e procedimentos médicos, achou estranho que um médico estivesse ligando para a residência da família ao invés de comunicar os acompanhantes no hospital. O pedido insistente pelo dinheiro, dizendo a todo momento que Joana iria morrer de câncer se não fizesse os exames, também a deixou Márcia desconfiada.

“O homem disse que era o doutor Marcelo Tiago Ribeiro, que minha irmã precisava fazer sete exames e uma tomografia computadorizada urgente e ele precisava confirmar com doutora Daiara até 15h, mas essa confirmação só podia ser feita quando o depósito fosse feito. Ele até perguntou qual banco seria melhor para mim, mais perto da minha casa, para que o dinheiro fosse logo”, conta.

É golpe

Imagem: Arquivo

Imagem: Arquivo

A confirmação de que havia sofrido uma tentativa de golpe veio quando Márcia chegou no HGE para visita, à tarde. Ela não conseguiu falar com nenhum médico, mas ao contar o que havia acontecido no setor de Serviço Social, a assistente social afirmou, sem cerimônias, que era o terceiro relato do dia sobre o mesmo tipo de golpe.

Outras duas famílias haviam recebido o mesmo tipo de ligação, 1.500 reais para exames ou seu parente internado ia piorar rapidamente e morrer. Uma família caiu e fez o depósito para os doutores. De três tentativas conhecidas, uma vingou.

Confronto e transferência

Foi apenas no dia seguinte que Márcia conseguiu falar com uma das médicas da irmã. A caminho da enfermaria, encontrou duas famílias que informaram ter recebido o mesmo pedido de R$ 1.500,00 para exames. Irritada, confrontou a médica, disse que havia uma quadrilha dentro do HGE e que ela ia denunciar.

“A médica tentou fazer pouco caso, tentou tirar por menos e que eu não desse atenção a isso. Quando viu que eu estava irritada, saiu rápido. Isso foi na sexta pela manhã. Saí do hospital e fui cuidar das minhas coisas. Quando cheguei em casa à noite, recebi a notícia de que minha irmã havia sido transferida para o [Hospital dos] Usineiros”, relata.

De acordo com Márcia, a médica havia dito, antes da reclamação, que Joana ainda ficaria três ou quatro dias no HGE, mas acredita que a transferência foi agilizada para evitar que a família formalizasse a denúncia.

Investigações

Golpe semelhante já foi denunciado na imprensa em janeiro deste ano – mesmo relato e mesmo valor. O caso foi investigado pelo delegado Robervaldo Davino, do 6º Distrito Policial.

“Foi enviada uma carta precatória para a Delegacia Regional de Rondonópolis, no estado do Mato Grosso, que é onde está a conta na qual foi depositada o dinheiro, para que o delegado de lá localizasse a pessoa e pegasse os esclarecimentos, mas até agora nada, sem resposta”, disse o delegado.

Quanto aos nomes e contas dos supostos médicos, Davino disse que é algo comum entre os golpistas. “Eles passam nomes e contas, mas é preciso ver se essas pessoas realmente existem. Muitas vezes, são contas laranjas, onde o dinheiro chega e rapidamente é transferido, de forma online mesmo”.

O delegado relatou que casos de estelionato desse tipo acontecem de várias formas e em diversos lugares do país. A melhor forma de se proteger de tais golpes é ficar atento, pois são casos de difícil investigação e resolução muitas vezes insatisfatória.

“A pessoa tem que ficar ligada. Ligam e dizem que você ganhou uma casa num sorteio ou o prêmio do consórcio, para você depositar só uma parte. Ora, como você pode ser sorteado se não está participando de nada? É preciso ser frio nessa hora, perguntar a alguém se a informação procede, tirar a história a limpo”, alertou.

Se a família de Joana quiser mesmo formalizar a denúncia da tentativa de golpe, Robervaldo Davino informa que eles devem procurar a delegacia do distrito onde moram, e não aquele ao qual pertence o HGE. Casos semelhantes também devem ser comunicados, para ajudar na investigação dos criminosos.

Através de sua assessoria, o HGE informou que comunica o público, através de cartazes por todo o prédio, que nenhum procedimento deve ser cobrado aos pacientes e suas famílias, pois todo o atendimento do hospital é gratuito e coberto pelo SUS.

Quanto aos casos reportados ao Serviço Social como golpe, não havia maiores informações. Sobre a possibilidade de alguma sindicância interna para saber se algum membro da equipe do hospital teria envolvimento com a tentativa de golpe, a assessoria ia buscar a Direção Geral para um posicionamento, porém até a publicação desta matéria, não houve retorno.

Detalhes da ligação

Seguindo as dicas do delegado Robervaldo Davino, de que a divulgação sobre os casos é a melhor forma de chamar atenção e alertar outras pessoas, detalhamos a ligação recebida pela família de Joana e como sua irmã conseguiu identificar que se tratava de um golpe.

Márcia conta que foi bastante fria durante a ligação e tentou se manter calma. Ficou conversando com “Dr Marcelo” para ver o que ele sabia sobre a Joana e o que conseguia que pudesse identifica-lo. Enquanto isso, planejava ir ao HGE para falar com os médicos da irmã durante o horário de visitas, às 15h – coincidentemente, o horário final para a entrega dos 1.500 reais. A ligação durou quase 40 minutos.

“Eu fui perguntando o que eu precisava fazer, ele me passou duas contas de banco, uma no Bradesco para Daiara Daniel Araújo e outra na Caixa, para o Dr Wesley Vicente Café. Deu um número para conta dele que eu poderia resolver via lotérica, e eu anotando, perguntando sobre os exames, tentando ver se ele escorregava”.

Até que “Dr Marcelo” escorregou. Errou o nome da paciente e também o nome da colega que iria realizar os exames – Dra Daiara virou Dra Daiana duas vezes por alguns momentos.

“Então ele se irritou comigo, perguntou se eu estava brincando com a cara dele. Eu disse que só queria entender a situação, mas acho que ele percebeu nessa hora que eu não ia cair. Desliguei o telefone dizendo que ia falar com a família e ver o que fazia para o dinheiro, mas que só ia poder depositar depois das 16h. Ele não gostou disso”.

Quando desligou o telefone, Márcia começou a mobilização em casa, com a irmã e as filhas, explicando da tentativa de golpe para que todas pudessem ficar atentas. Ainda se arrumando para poder ir até o HGE saber da irmã, ela recebeu outra ligação em casa.

“Era o tal do doutor de novo, querendo saber se eu já tinha conseguido o dinheiro. Quando eu disse que isso levava tempo, afinal eram 1.500 reais, ele ficou irritado e disse que eu pegasse na Federal [empresa de empréstimos]. Então ele quis saber o telefone de outras pessoas da família para quem podia ligar, mas não passei”.

“Ele sabia o que dizer para deixar você preocupado, sabia dos dados da minha irmã, quando ela tinha chegado, e ficava repetindo que ela ia morrer. As assistentes sociais do HGE disseram que era golpe, que isso acontece volta e meia, mas que quando recebesse a ligação, não desse atenção e fosse denunciar o caso”, afirmou Márcia.

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