Fumantes contam porque preferem não abandonar o cigarro

No Dia Mundial sem Tabaco, motivação para deixar de fumar é o reflexo no bolso

Fumantes contam porque preferem não abandonar o cigarro

No Dia Mundial sem Tabaco, motivação para deixar de fumar é o reflexo no bolso

Por | Edição do dia 31 de maio de 2016
Categoria: Blog, Notícias, Saúde | Tags: ,,,,


mulher-fumando-2O dia 31 de maio foi consagrado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um dia internacional de combate ao fumo e alerta aos males do tabagismo. A data foi instituída em 1987 e, desde então, as campanhas de conscientização foram intensificadas, ao passo que foram criadas leis no Brasil para limitar o cigarro em ambientes coletivos. Um pensamento voltado para a saúde coletiva e bem comum, porém os fumantes vêem isso como uma série de constrangimentos a sua decisão de continuar fumando sim, obrigado.

Sem poder acender um cigarro em ambientes fechados, depois apenas em locais específicos (os fumódromos) e até a proibição de fumar em ambientes de uso coletivo, os fumantes viram seu status diminuir ao passo que os espaços eram limitados. Hoje, afirmar que sofrem preconceito e constrangimentos.

“É um preconceito violento, a gente está sendo discriminado como se estivesse fumando maconha. Eu entendo os males, sei que afeta a saúde, que fica o mau cheiro, mas não é fácil parar. Eu acho um absurdo ter que sair de um restaurante para ter que fumar lá fora. Há 15 anos, eu trabalhei em um banco e eu podia fumar lá dentro, olha a diferença”, conta Tania Leite, professora e fumante há 40 anos.

Ela conta que começou a fumar aos 15 anos, pois, na época, fumar era um sinal de afirmação e independência dos pais. “Era status, era para mostrar que era a gostosa. Era muito comum antigamente. Comecei vendo as amigas e acho que viciei rápido, porque na primeira semana já após passar a acender [o cigarro sozinha], já senti a necessidade por ele”, conta Tania.

E assim tem sido, uma carteira (20 cigarros) por dia. A professora não parou de fumar nem na gestação da filha, hoje com 25 anos e a mais ávida antitabagista que Tania tem que enfrentar. Das suas amigas e adolescência, apenas mais duas continuam fumantes. Os demais pararam porque quiseram ou precisaram, geralmente por motivos de saúde.

“Tenho colegas em grupo de apoio, outras só quiseram parar e deixaram. Eu mesma já tentei antes, tomei até remédio, mas eu não queria, no fundo, nunca quis. O pior que eu gosto de fumar”, diz, rindo.

Mas um riso nervoso, de quem tem que enfrentar olhares tortos ao ponto de se cansar. “Eu sei dos efeitos do cigarro, eu não consigo mais correr para pegar um ônibus, mas eu fico na minha. Se estou na rua ou no ponto de ônibus, me afasto para fumar, mas mesmo assim fico ouvindo coisas como ‘ai que fedor’ ou ‘que cheiro de fumaça’, só que eu estou na minha, mais afastada. As pessoas não param, elas começaram a falar ou pelo suporte dado pela lei ou porque ganharam mais voz, mesmo”.

E continua. “Nunca me senti abalada por nenhuma campanha antifumo, para mim, elas não representam nada, mas o fumante enfrenta uma série de constrangimentos hoje, preconceito mesmo. Eu sinto vergonha ao chegar em um lugar e só ter eu de fumante”, afirma Tania Leite.

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Ex-fumantes são os piores

Para a servidora pública Maria Eduarda, o peso do cigarro é tão grande que ela só concordou em falar com O Dia Mais se seu nome fosse alterado na matéria. Os motivos são o fato de seus pais, idosos e moradores do interior do estado, não saberem que ela fuma e para evitar chateação no trabalho e locais que freqüenta normalmente.

“Depois da popularização das campanhas, algumas pessoas se conscientizaram e pararam de fumar. Os ex-fumantes são os mais chatos, sempre tem lições de vida, de moral, suas verdades para dar aos outros. Fora eles, a maioria das pessoas se incomodam com o cheiro do cigarro e sempre soltam alguma frase do tipo ‘faz mal’ ou ‘tá se matando aos poucos’ e isso chega a ser irritante”, conta Maria Eduarda, de 32 anos.

Sua primeira experiência com o cigarro também foi para autoafirmação, aos “12 ou 13 anos”, acompanhando os primos mais velhos a um show em Maceió. Na primeira vez que saía sem a companhia dos pais e irmãos, o cigarro foi companheiro e proteção, ela diz.

Outra experiência e o hábito de fumar só veio mais tarde, aos 15 anos. O vício, ela já morava em Maceió, nos seus “20 e poucos”, e prefere manter longe de sua cidade natal. “Meus pais provavelmente saibam, já que tem muita foto minha com cigarro nas redes sociais e meus irmãos já viram. Porém, eles são aquele tipo de pessoa que se os olhos não viram o coração não vai sentir. Eu prefiro não desrespeitar. Fora que, se confirmasse para eles o fato de ser fumante, sofreria uma pressão constante pra parar por conta da saúde”, assume a servidora pública.

Maria Eduarda está ciente de todas as implicações que o fumo já traz e ainda pode trazer para sua vida, mas prefere continuar. Essa paz, contudo, não escapa incólume das campanhas de conscientização – de fato, elas são tão incisivas que, enquanto adolescente, Eduarda não entendia como pessoas podiam ter aquele conhecimento e mesmo assim acender um cigarro.

“Foi então que vi que a realidade é diferente, muitas pessoas fumam com total desconhecimento das substâncias do cigarro. Acho de suma importância para que as pessoas conheçam a realidade dos malefícios e tomem sua decisão. Então, as campanhas servem para conscientizar. Pena que, ao meu ver, elas existam mais porque o governo tem um gasto muito alto na saúde com doenças decorrentes do cigarro, do que por uma preocupação real com o bem estar dos indivíduos”, afirma.

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Cigarro é vício e companhia

De fato, programas antitabagistas podem ser encontrados nas secretarias de Saúde do estado e dos municípios, bem como em hospitais e faculdades da área de saúde. Em Maceió, o Núcleo de Cessação ao Tabagismo do II Centro de Saúde já atendeu 850 fumantes em seus dois anos de funcionamento. Deles, 207 conseguiram parar de fumar definitivamente.

“O tratamento tem que partir do fumante. Não vai adiantar a família falar ou até ele participar do programa porque não tem como parar de fumar se ele não quiser. O cigarro é um vício, mas é também um companheiro. Tem que ter força de vontade de deixar também essa companhia. É uma dependência emocional e psicológica, também”, esclarece Gilda Teodósio, coordenadora do grupo.

Gilda conta que, se forçados a participar contra sua vontade, mesmo utilizando remédios ou adesivos, o fumante pode acender até três vezes a sua quantidade normal de cigarros, pela frustração e ansiedade. Por isso, entre a equipe multidisciplinar que atende no Núcleo, estão psicólogos e assistentes sociais para ajudar nessa orientação.

De fato, a força de vontade é ferramenta fundamental, mas não é algo que vem fácil. Tania Leite está ponderando se esse vai ser seu último 31 de maio do lado de lá da fumaça, mas o grande motivador não foram os apelos da filha ou as campanhas que finalmente fizeram efeito, foram os custos de ser fumante.

“Eu tenho que fazer uma cirurgia na garganta – para a tireóide, sem relação com o cigarro – e peço a Deus força para parar depois desse procedimento. Fumar tem seu custo para a saúde e também financeiro. Eu gasto cerca de 300 reais por mês em cigarro e, nessa crise, é um valor alto, que pesa no orçamento. Não dizem que as coisa ssó mudam quando pesam no bolso? Então! Mas eu pesei as duas coisas, o custo da saúde e o custo financeiro. Só não sei se vou conseguir reunir a força de vontade necessária para largar”, assume a professora.

Para mais informações sobre o Núcleo de Cessação ao Tabagismo do II Centro de Saúde e como entrar para seu programa de atendimento, clique aqui.

 

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