Exame do toque: o tabu que pode levar à morte

Por | Edição do dia 3 de fevereiro de 2019
Categoria: Jornal o Dia


Imagine um exame simples, de curta duração, alguns poucos segundos para sua conclusão, e que este seja capaz de auxiliar o médico no tratamento e cura de uma doença grave, como o câncer. Imagine ainda que para a realização desse exame não são necessários equipamentos modernos, a bem da verdade, nenhum equipamento é utilizado, a não ser o conhecimento e habilidade do profissional médico. Um exame, que não depende de tecnologia e que é capaz de conferir ao especialista informações precisas no diagnóstico e se necessário na forma de tratamento mais adequado ao paciente, é sem sombra de dúvida um milagre da medicina.

A simplicidade da técnica rivaliza com a complexidade que o tema carrega para o público masculino, alvo desse tipo de exame. Assim os homens só precisam desmistificar alguns tabus e ter boa vontade para cuidar da própria saúde – pois, o exame em questão é o famoso e temido “toque retal”. Inimigo da grande maioria dos “machões”, essa avaliação, como destacado, não dura mais que poucos segundos e pode render ao paciente preciosos anos de vida – o que se constitui em um verdadeiro milagre. O tabu e as piadas em torno desse exame, pelo contrário, vem encurtando a vida de muitos homens, cujo diagnóstico tardio, pela inércia em procurar atendimento médico, deixa pouca ou nenhuma possibilidade de cura. E para os que, de alguma forma, resolveram enfrentar o problema e fizeram o PSA (Antígeno Prostático Específico), medido através de exame de sangue, parabéns. No entanto, não adianta se sentir satisfeito e com a consciência tranquila porque “A prevenção se faz com os dois exames, o PSA e o toque”, destaca Humberto Montoro, urologista.

Para reforçar a importância do toque ele explica que se o resultado do PSA for alto não significa, necessariamente, que o paciente esteja com câncer. “Pode ser resultado de hiperplasia benigna (aumento), de um trauma ou prostatite (inflamação)”. Já os níveis baixo do exame não é garantia de que se esteja livre da doença. “Por todos esses motivos a avaliação médica e o toque retal são importantíssimos”, confirma. Aliada a prevenção, baseadas nas avaliações amparadas pelos dois exames, bons hábitos, também, podem contribuir para diminuir o risco da doença. Assim, Montoro alerta para a necessidade de se evitar o sedentarismo e por tabela a obesidade e lembra que a Sociedade Brasileira de Urologia considera a prática de exercícios físicos regulares como coadjuvante na prevenção e tratamento da enfermidade.

Professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Coordenador da Urologia do Hospital Memorial Arthur Ramos e atualmente doutorando pela UFPE, o médico informa que a cada sete minutos há um diagnóstico novo de câncer de próstata e a cada 40 minutos os registros médicos contabilizam mais um óbito por conta da doença. Os dados ainda apontam o câncer de próstata em segundo lugar, atrás apenas do câncer de pulmão, no numero de mortes de homens. Montoro lembra ainda que o câncer de próstata é o mais comum entre homens acima de 50 anos, por isso “a partir dos 50 anos os exames devem ser feitos anualmente”.

Doença não apresenta sintomas na fase inicial

Um alerta especial que o médico faz diz respeito à sintomatologia da doença. “Na fase inicial, o câncer de próstata, não apresenta nenhum sintoma. Não há dor pélvica, não provoca sangramento e nem obstrução do jato urinário”. “Uma armadilha”, enfatiza o especialista, pois quando algum desses sintomas se apresenta, o câncer já está instalado e pode ser tarde para um tratamento eficaz. O lado bom dessa estória é que quando detectado no início, as chances de cura são muito altas: 90% ou mais de possibilidades de vencer a doença.

O toque retal permite ao médico verificar se há aumento da próstata e caso verificado a alteração a investigação seguinte irá comprovar se o aumento é benigno ou maligno. O médico, no entanto, explica que esse aumento é um fenômeno natural, pode atingir a maioria dos homens, à medida que envelhecem, e nem sempre esta ligado a um caso de câncer. Por outro lado, segundo estimativa, o câncer de próstata está presente em 15% dos homens com níveis normas de PSA. Assim, a importância do toque retal é inquestionável.

RESISTÊNCIA

Como visto a única forma para se evitar as consequências de um câncer de próstata é o acompanhamento, o mais cedo possível, com o exame de sangue (PSA) e toque retal. Descobrir a doença em estágio inicial faz toda a diferença no tratamento que será adotado pelo médico e na enorme chance de cura. Silencioso o câncer de próstata só dá sinais quando em estado avançado. As pessoas são pegas de surpresa e uma reviravolta na vida se processa: a duras penas, muito sofrimento e dor desestabilizam o paciente e seus familiares.

Foi o que aconteceu na família de Cícero Norberto, 52 anos, casado, dois filhos, comerciante, cujo pai faleceu vitimado pelo câncer de próstata, há 15 anos. Seu João Francisco dos Santos, 69 anos, fazia parte das estatísticas dos “resistentes” ao exame físico. A falta de acompanhamento e prevenção do câncer de próstata culminou com o estado de metástase – a doença já tinha se espalhado para outros órgãos. “A medicina não pode fazer mais nada”, essa foi a resposta que Norberto ouviu do médico e que caiu como uma bomba no seio da família. “Se meu pai não tivesse relutado em fase o toque o desfecho teria sido diferente”, supõe Norberto esclarecendo que o pai era um homem com costumes antigos e que não cogitava em realizar o toque retal.

Um homem é diagnosticado a cada 7 minutos

Apesar da crítica aos tabus que ainda hoje impedem que parcelas significativas dos homens se mobilizem para monitorar a saúde da próstata e de reconhecer a importância do toque retal, o comerciante, surpreendentemente, ainda não fez nada pela sua própria saúde. Mesmo afirmando que não que ser pego de surpresa, Norberto tem o mesmo perfil daqueles que apenas discursam e que não agem. Mesmo diante dessa inércia acredita que tal situação só acontece com os outros e assim apostam que estarão livres da doença. Para estes é bom relembrar alguns números da Sociedade Brasileira de Urologia, destacados pelo médico Humberto Montoro, e que dimensionam a incidência da doença: Um diagnóstico de câncer de próstata a cada sete minutos; um óbito pela doença a cada 40 minutos; 25% dos portadores de câncer de próstata morrem devido a doença; 20% dos pacientes com câncer de próstata são diagnosticados em estágios avançados; 95% dos casos já estão em fase adiantada, quando os sintomas começam a aparecer.

Hereditariedade é um dos fatores de risco do câncer de próstata

Para quem tem histórico familiar da doença, a recomendação é que se façam os exames antes dos 50 anos. A hereditariedade é um fator de risco. “ Se tem um parente de primeiro grau as chances são duas vezes maior. Dois parentes de primeiro grau as chances da doença se manifesta nos homens dessa família são seis vezes maior com parentes que já tiveram a doença as chances nos familiares crescem geometricamente”, explica o urologista. Montoro destaca ainda que homens de idade mais avançada, negros, obesos e com hábitos alimentares pouco saudáveis têm maior risco.

Apesar de o cenário preocupar os médicos, as campanhas de combate à doença, vêm trazendo um alento e já se pode falar que “há uma diminuição na incidência do número de mortes, reflexo direto dessas campanhas”, constata. Vale lembrar que a Lei 13.045 garante a realização de exames para a detecção precoce do câncer de próstata pelo Sistema Único de Saúde. O atendimento começa pelo posto de Saúde mais próximo. caso a critério médico os procedimentos sejam considerados necessários o paciente será encaminhado para as unidades de referência da região.

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