Boa Noite!, Quinta-Feira - 5 de Dezembro de 2019

 

Estudo aponta a relação das bactérias bucais com complicações de doenças

Correio Braziliense / 11:36 - 24/09/2019

Cientistas investigam a relação entre a composição da microbiota da boca e a ocorrência de complicações como cárie e periodontite. Resultados poderão ajudar no desenvolvimento de novas abordagens preventivas e de tratamentos mais eficazes


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A chegada do mapeamento genético em 1990 foi um dos acontecimentos que revolucionaram a medicina. Graças ao estudo do DNA, surgiram tratamentos para doenças diversas. Atualmente, especialistas voltam os olhos para uma área que também pode impusionar o combate a doenças: a microbiota humana. Um dos ramos que mais têm dado atenção a esse tipo de pesquisa é o de saúde bucal. Cientistas vêm mostrando que a composição de bactérias presentes na boca pode influenciar problemas comuns, como a periodontite e a cárie.  Para odontologistas, essas informações ajudarão no desenvolvimento de abordagens  mais eficazes, incluindo as preventivas.

Ana Paula Vieira Colombo, professora do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Laboratório de Microbiologia Oral da universidade, é uma das pesquisadoras de olho na microbiota bucal. Ela participou da revisão de uma série de experimentos sobre a relação entre a composição de bactérias bucais e doenças odontológicas. Um estudo publicado em abril, na revista Journal of Dental Research, mostra como os resultados podem ajudar a entender complicações muito incidentes na população. “Eu e outros especialistas temos analisado a composição dos micro-organismos da boca e tentado relacionar as principais doenças, como a cárie e a doença periodontal. Comprovamos nossas suspeitas”, conta ao Correio.

Ao comparar a composição de bactérias bucais de voluntários saudáveis e com vários graus de doença periodontal, a análise trouxe dados altamente significantes. “Aprendemos que o biofilme dental é uma comunidade muito mais diversificada, composta por espécies ou filotipos que podem adquirir e expressar níveis distintos de virulência”, frisa Colombo. “Vimos também, pela alteração de bactérias, que doenças gengivais agravam ou contribuem para outras complicações sistêmicas, como as cardiovasculares, artrites reumatoides e até doenças autoimunes.”

Os dados foram obtidos graças à tecnologia avançada desenvolvida nas últimas décadas. “Enquanto os desafios das doenças dentárias permanecem como eram há 100 anos, os métodos para estudá-las, como mapeamento de genes  na clínica e no laboratório, evoluíram drasticamente. Agora, podemos ir além do paradigma ‘um patógeno, uma doença’”, destaca Anne Tanner, também autora do estudo e pesquisadora da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

A dupla acredita que as descobertas abrem caminho para melhores tratamentos. “Temos um estudo em andamento com pacientes que tratarão a periodontite por meio de probióticos. A ideia é que esses medicamentos melhorem indiretamente a doença. É importante manter as formas de tratamento atuais, mas queremos, ao mesmo tempo, visar o reestabelecimento do microbioma e ver se os resultados são mais positivos”, adianta Colombo. “Outra abordagem que cogitamos é o uso de probióticos em produtos de enxágue e pastilhas. Bactérias poderiam ser neutralizadas com essa alternativa. Seria uma saída eficaz e prática.”

Infância

A microbiota oral no início da vida também pode fornecer informações importantes para a área odontológica. Uma equipe  americana mapeou micro-organismos presentes na boca de 118 crianças com 3 a 5 anos, divididos em três perfis: livres das cáries, com a doença tratada e não tratada.

Por meio de mais de 712 milhões de leituras microscópicas de alta qualidade, a equipe identificou 85 gêneros bacterianos e 201 espécies bacterianas, 185 das quais foram destrinchadas em subtipos. Os investigadores encontraram diferenças notáveis na quantidade de espécies, conforme o perfil das crianças.

Segundo eles, essas distinções são valiosas para fortalecer a odontologia de precisão, que permite agir de acordo com micro-organismo específicos. “Esse conhecimento é fundamental para o desenvolvimento de abordagens de medicina de precisão, tanto para diagnóstico, quanto para a prevenção e o tratamento na área de saúde bucal”, frisa Kimon Divaris, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade da Carolina do Norte. “Nosso objetivo, a longo prazo, é caracterizar saúde e doença bucal no nível molecular; em outras palavras, definir as características do biofilme supragengival que definem a cárie antes do desenvolvimento da doença clínica”, complementa.

Para saber mais

Regulação por RNA

Um estudo feito por cientistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, fornece evidências claras de que o RNA — mensageiros celulares — presente na saliva pode ser capaz de regular o crescimento de bactérias orais responsáveis por doenças como a periodontite. No estudo, publicado na revista Journal of Dental Research, em maio de 2018, os cientistas explicam que uma classe nova e menor desses mensageiros é encontrada nos fluidos corporais humanos, incluindo sangue, lágrimas e saliva.

“Vimos um canal claro de comunicação entre mensageiros de RNA e bactérias em nossa boca”, destaca David Wong, um dos autores do estudo. “Definitivamente, os resultados desse artigo abrem um novo horizonte de pesquisa e de resultados que avançarão a saúde bucal, principalmente em tratamentos que busquem modular essas bactérias e evitar doenças relacionadas”, completa.


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