Espanhol forja armadura, incorpora Dom Quixote e refaz trilhas do cavaleiro

Espanhol forja armadura, incorpora Dom Quixote e refaz trilhas do cavaleiro

Por | Edição do dia 18 de julho de 2016
Categoria: Cultura | Tags: ,,,,


José Ramón Gandára trabalhava de vigilante em uma clínica psiquiátrica em Castellón, na Espanha, quando aproveitou a calmaria da noite, turno do seu expediente, para reler um dos seus livros favoritos: “Dom Quixote”, o clássico de Miguel de Cervantes. A leitura o ajudava a suportar o ambiente tenso do trabalho e, eventualmente, o remetia a uma aventura que tinha feito em 2012, quando trilhou de bicicleta os caminhos que o cavaleiro da triste figura percorrera pela Mancha. Foi então que ocorreu-lhe a ideia: por que não refazer aquela viagem, só que agora incorporando o próprio Dom Quixote?DSC_0545

Tomou, então, a decisão que hoje diz ter mudado sua vida: pediu dispensa do trabalho – e abriu mão dos mais de 1300 euros que recebia por mês –, construiu uma armadura (o escudo foi feito com uma bandeja, o elmo, com uma tigela de cozinha, as moedas ficavam em uma bolsinha de couro…), fez de sua bicicleta um Rocinante – o famoso pangaré de Quixote – e rumou para combater dragões travestidos de moinhos de ventos e encontrar a idealizada Dulcinéia. Ainda que sem um Sancho Pança para lhe dar suporte, queria passar pelos lugares que Cervantes eternizara no livro e aproveitar para fazer uma reportagem fotográfica que representasse cenas clássicas da obra.

Fez a rota em duas oportunidades: em julho de 2015 e em junho de 2016, tendo percorrido cerca de 500 quilômetros e passando por aproximadamente 20 povoados, sempre bancando tudo de seu próprio bolso. “Dou a viagem por acabado quando chego à praça de El Toboso e me posto aos pés da estátua de Dulcinéia. Nesse momento fico com a consciência tranquila e posso voltar para minha casa, como fiz nesses dois anos”, relata Quixote, ou melhor, José, em entrevista ao blog.

“Sou um apaixonado pelo Quixote. Quando chegava em algum lugar que aparecia no romance, parava e lia o trecho exato na sombra de alguma árvore ou algum moinho e aproveitava para fotografar a cena tal qual a imaginava. Isso me aproximou mais do personagem. Eu tinha um grande apreço por ele e, ao final, isso virou um grande carinho, já que nunca nada lhe saia bem, era sempre um incompreendido, que acabava atacado, mas não tinha nenhum tipo de maldade em suas ações”, diz José sobre sua relação com o cavaleiro.DSC_0425

Para ele, o que tornou a vivência completa foi justamente incorporar o personagem. “Tinha que viver as experiências, tinha que me vestir como Dom Quixote, passar calor, suar, suportar a armadura, o cansaço…”. Dessa forma, em alguns momentos, sentiu-se mesmo como um nobre errante de outros tempos. “Pedalando pelos campos infinitos da Mancha, passeando por ruas estreitas e antigas dos povoados, escutando o tilintar da armadura e lutando para que a minha espada não se cravasse em minhas próprias costelas, em algum momento acreditei que era um cavaleiro andante daquela época, em busca de aventuras e dono de um mundo sem dinheiro”.

Aos 32 anos, José acredita que o mais importante que aprendeu com a aventura, parcialmente registrada no blog “Tras los pasos del Quijote”, é que na vida as pessoas precisam mesmo fazer aquilo que gostam, que não é possível passar toda a existência “em um trabalho que odiamos só porque ganhamos muito dinheiro”, diz ele, que hoje estuda fotografia, uma antiga paixão.

 

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