EPIs precisam vencer aspectos culturais e resistências no caminho da segurança do trabalhador

Encarado só como obrigação trabalhista, potencial de garantia de saúde e segurança dos equipamentos deixa de ser aproveitado por empregados e empregadores

EPIs precisam vencer aspectos culturais e resistências no caminho da segurança do trabalhador

Encarado só como obrigação trabalhista, potencial de garantia de saúde e segurança dos equipamentos deixa de ser aproveitado por empregados e empregadores

Por | Edição do dia 6 de abril de 2017
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Arte: Thalita Chargel

Arte: Thalita Chargel

Está lá, descrito desde 1943, no artigo 166 da Consolidação das Leis do Trabalho, a famosa CLT: “A empresa é obrigada a fornecer aos empregados, gratuitamente, equipamento de proteção individual adequado ao risco e em perfeito estado de conservação e funcionamento”. A proposta foi reforçada em 1978, com a Norma Regulamentadora nº 6 (NR-6), que definiu o conceito de Equipamento de Proteção Individual (EPI) e estabeleceu regras para seu fornecimento e uso. Mesmo assim, com tantas décadas de presença no cotidiano trabalhista, ainda há resistência entre empregadores e empregados a essas letrinhas.

A norma é a ferramenta do Ministério do Trabalho para definir regras trabalhistas complementares ou específicas de uma área. No caso da NR-6, ela define o que é EPI – todo dispositivo ou produto, de uso individual utilizado pelo trabalhador, destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no trabalho –, detalha quais itens o compõe, as obrigações de empregadores (fornecimento gratuito e treinamento) e de empregados (uso e conservação adequada). Há até obrigações para o próprio Ministério do Trabalho, fabricantes, importadores e vendedores de EPIs.

Um documento tão antigo e tão detalhado deveria ser de conhecimento e adesão de todos dentro dos espaços de trabalho, não é? Mais ou menos. E é aí onde mora o perigo para trabalhadores, patrões e famílias.

A grande informalidade que permeia a cultura brasileira, seja no comportamento, seja no trabalho, faz com que muitos não enxerguem os EPIs, Saúde e Segurança do Trabalho (SST) e outras Normas Regulamentadoras para além da obrigação trabalhista. Cumpra a lei ou seja punido. E nessa visão unilateral, acabam sem aproveitar a plenitude dessas ferramentas na garantia da segurança e saúde dos trabalhadores a longo prazo.

Para começar, é preciso consciência de que o EPI não é um fim em si mesmo, mas o “último recurso” de segurança dentro do ambiente de trabalho. A própria CLT, em complemento ao trecho destacado acima, diz que o uso dos equipamentos é necessário “sempre que as medidas de ordem geral não ofereçam completa proteção contra os riscos de acidentes e danos à saúde dos empregados”.

José Fernandes defende a adoção da SST para além da exigência da lei (Foto: Cacá Santiago)

José Fernandes defende a adoção da SST para além da exigência da lei (Foto: Cacá Santiago)

“Não podemos deixar de ser sinceros, a grande maioria das empresas enxerga SST como obrigatoriedade. Porém nós, como consultores, devemos trabalhar numa linha em que elas façam a mudança, dizer que não devem cumprir as Normas Regulamentadoras apenas para fins de fiscalização, mas fazer a gestão ocupacional, que é fazer com que os trabalhadores tenham a mudança comportamental. Essa mudança depende delas também”, afirma José Fernandes, técnico em Segurança do Trabalho há 11 anos.

Ele aponta que as empresas, hoje, voltam-se para o tema SST por questões de desperdícios financeiros, quando na verdade deveriam assumir uma postura de incentivadoras da cultura prevencionista.

“A norma diz que a empresa precisa cumprir e fazer cumprir, mas os trabalhadores também precisam ter essa conscientização. Quando falamos de gestão, falamos em controles, treinamentos e ferramentas de monitoramento. Não apenas SST para fins de fiscalização, e sim fazer com que o trabalhador tenha a consciência, através da mudança comportamental, de que ele é igualmente responsável pela sua segurança”, completa Fernandes.

Não se trata de um “jogo do empurra”, mas de assumir um compromisso de cooperação e responsabilidade compartilhada. Trabalhadores conscientes adotam as normas de segurança, usam os EPIs, permanecem saudáveis, produzem melhor (para a saúde da empresa) e voltam para suas famílias sãos e salvos.

Só que, para isso, são necessárias duas palavrinhas mágicas: educação e tempo.

Conhecer para diminuir resistência

Fernandes defende que o trabalhador é resistente por falta de conhecimento, um paradigma quebrado no treinamento, com orientação técnica, ao qual é imprescindível o apoio dos setores de alta direção da empresa, pois o reforço deve ser constante.

“A cultura não se muda da noite para o dia, é algo que leva um período. E isso não tem fim, porque é um trabalho de manutenção. Quando o trabalhador incorpora essa cultura organizacional como parte de sua segurança, consequentemente é só manutenção. Ele começa a ter consciência e a disseminar essas informações”, informa.

Um exemplo prático pode ser conferido em um dos clientes a quem José Fernandes presta consultoria de SST com sua empresa, a Soma. Trabalhando há quatro anos com O Borrachão, loja que vende produtos desde a área industrial a residências, passando ainda por serviços e materiais automotivos, a empresa aplica de forma bem-sucedida a gestão ocupacional.

Larissa apresenta o Manual do Trabalhador e a Ficha de EPI da empresa (Foto: Cacá Santiago)

Larissa apresenta o Manual do Trabalhador e a Ficha de EPI da empresa (Foto: Cacá Santiago)

Quando um novo funcionário é admitido, O Borrachão coloca todas as cartas na mesa: um Treinamento de Integração apresenta o Manual do Colaborador – guia que já tem uma década de vida –, a política de SST e Fichas de Controle de EPIs.

“No Treinamento de Integração, essas normas já são passadas, com conscientização e comprometimento para que eles possam usar os EPIs. A ficha é para controle, desde o fardamento até os equipamentos mesmo, para acompanhar quem está usando e atualização dos dados. Ali também é informado ao colaborador que ele tem suas obrigações e deveres para com a empresa, assim como tem seus direitos”, explica Larissa Fireman, do setor de Recursos Humanos da loja.

Essa política de mostrar que as normas também são de importância para o trabalhador tem permitido que Larissa execute suas funções sem grandes dificuldades para implantar ações de segurança, lidando com um ou outro caso ao longo do caminho.

Como exemplo, na loja para linha automotiva, alguns funcionários reclamavam das luvas, dizendo que precisavam do tato para verificar a execução correta do trabalho. O mesmo protesto ia para os óculos de proteção, que eram incômodos. A situação foi contornada com conversas e ajuda dos técnicos de SST.

“Aqui temos uma relação boa com o pessoal, canal aberto de diálogo com eles e em alguma situação, a gente conversa. Muitas vezes, eles ficam com medo de perguntar ao RH alguma informação, aí chegam e nos perguntam. Então damos essa orientação, fazendo com que eles venham entender e se preocupar com a sua saúde e a realização da sua atividade”, informa Rodrigo de Souza, técnico em Segurança do Trabalho da Soma responsável pelo Borrachão.

E quando todos são iguais?

Situações de conflito existem em qualquer tipo de convívio. Na relação laboral, a hierarquia colabora para resolver tais demandas, porém o que fazer quando não há uma linha de ordem definida que possa soar como palavra final?

Em cooperativas, por exemplo, por mais que haja a figura do presidente para fins administrativos, a proximidade dos integrantes faz com que alguns conflitos entrem na área do embate, e as normas de segurança são ponto cativo nessas discussões.

Meure, o aviso do curso de SST e a placa que veio "no lixo" (Foto: Cacá Santiago)

Meure, o aviso do curso de SST e a placa que veio “no lixo” (Foto: Cacá Santiago)

“Eu falo pra eles: tem que usar os EPIs, a gente batalhou tanto pelos equipamentos, pediu tanto, que tem que usar. Ameaço que vai vir a fiscalização. Aí todo mundo diz que sim, que concorda, mas quando eu dou as costas, um tira a bota, outro tira a luva, diz que incomoda. Acho que vai melhorar mesmo é quando tiver o treinamento em SST, que o instrutor vier falar e eles perceberem que não sou só eu com coisa, que tem uma lei e é pro bem deles”, conta Maria José dos Santos, a Meure, presidente da Cooperativa dos Recicladores de Alagoas (Cooprel) – Unidade Serraria.

Com 18 cooperados trabalhando diariamente na separação e processamento dos resíduos recicláveis, a Cooprel passa por uma fase de profissionalização dos serviços e da equipe, através de um projeto da cadeia da Química e do Plástico. É nesse projeto que os cooperados vão receber o Curso de Saúde e Segurança do Trabalho nos dias 27 e 28 de abril, o grande momento onde Meure deposita suas esperanças.

“Já tivemos um curso sobre finanças e outro sobre desmontar aparelhos eletrônicos e a coisa melhorou muito. Fiz um curso sobre 5S no Senai, com outros três colegas, e a gente fica repassando. Nesse do 5S, eu fui convidada para apresentar na Secretaria Municipal de Finanças, para os funcionários de lá”, lembra Meure, orgulhosa.

Wellington

Wellington mostra marca de suor nos óculos (Foto: Cacá Santiago)

Santo de casa pode não fazer milagre, porém continuar em casa é uma alternativa estratégica para aumentar o engajamento dos integrantes da Cooprel Serraria. O curso de SST será feito na cozinha do galpão, um espaço que pode ser pequeno, mas que não altera a rotina dos cooperados e ainda vai permitir o uso de seus próprios EPIs: farda, bota, luva, protetor auricular e óculos.

Coisa demais para usar, segundo José Wellington da Silva, há quatro anos na Cooprel. Ele ainda não conseguiu acostumar com o plugue no ouvido e os óculos. “Não é bom não, incomoda. A luva e a bota ok, porque protege, né? Mas a pessoa sua com os óculos e embaça, olha”, e tira o EPI do rosto para mostrar a marca. Mas não é para proteção, Wellington? “É, é importante sim”, responde. E como fica a segurança? “Aí fica difícil”, emenda o homem, rindo desconcertado.

Palavra-chave: confiança

Consolidar os preceitos de saúde e segurança do trabalho é algo que leva tempo, reforço da mensagem e a confiança nos benefícios daquela informação. Uma boa relação entre empresa e trabalhadores é fundamental para que se ultrapasse a obrigação de cumprir a norma e se desenvolva um ambiente saudável para todos.

“Podemos dar uma carga horária de treinamento de ‘x’ horas e o trabalhador participar daquele momento só por obrigação. Com o envolvimento de todos os setores, chega-se no operacional de forma que ele confia naquela relação. Ele precisa saber que a empresa necessita dessa mão de obra sadia, com qualidade de vida e, consequentemente, com maior produtividade”, pondera José Fernandes.

É preciso envolver a equipe, defende Larissa Fireman, e não apenas trazer mais uma norma.

“A gente tem que estar perto da emoção das pessoas. Se eu chegar simplesmente explicando do ponto de vista racional o porquê vai ter que usar, não vai adiantar. Isso é desde a escola para a vida. Sempre busco trabalhar chegando nas emoções das pessoas e encontramos na Soma uma parceria que tem esse mesmo pensamento. Tem todo um processo que faz com que o colaborador atenda com satisfação, com mais preocupação e com responsabilidade”, arremata Larissa.

Arte: Thalita Chargel

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