Entregadores por aplicativo seguem arriscando saúde e sendo heróis da quarentena

Categoria pede mais valorização do trabalho e o lema “fiquem em casa” é motivação para eles

Por | Edição do dia 12 de abril de 2020
Categoria: Especiais | Tags: ,,,,,


assis soares portal o dia

Em meio as recomendações de isolamento social, cresce o interesse pelos pedidos de compras por aplicativos. Foto: Assis Soares / Portal O Dia

Com vários estabelecimentos fechados, o medo da contaminação e a falta de certezas sobre o fim da quarentena, um trabalho pouco lembrado pela população está sendo essencial para que as pessoas se mantenham bem durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Os serviços de entrega a domicílio ou delivery, feitos pelos conhecidos motoboys, nunca foi tão importante como neste momento. Esses trabalhadores estão arriscando a própria saúde para não deixar famílias desabastecidas, seja de remédios, comida e entre outros produtos necessários.

Diante de uma situação de desemprego iminente, o entregador de 22 anos, Jeferson da Silva Oliveira, que até dezembro do ano passado só trabalhava em uma pizzaria no período da noite, se viu preocupado com a redução no quadro de funcionários do estabelecimento e resolveu se cadastra no aplicativo ifood. Em fevereiro, quando já trabalhava como entregador, se deparou com os primeiros relatos sobre o novo coronavírus em Maceió.

Ele conta que começou a fazer serviços de delivery para algumas lanchonetes e não imaginou que o vírus fosse ter tamanha proporção. Assim que perdeu o emprego, e sua renda era única fixa para sustentar sua família, Jeferson virou entregador por aplicativo de vez, porém, o cadastro é na modalidade autônomo e é preciso ter certa quantidade de entregas para pelo menos conseguir formar um salário mínimo.

“É difícil se manter positivo com essa doença, eu mesmo já cheguei a pensar que era mentira, mas quando fiquei acompanhado os casos e assistindo mais jornal fiquei com medo e percebi que realmente estava acontecendo. Com todo mundo ficando em casa, o comércio fechado e a proibição de abrir até lanchonete, as minhas entregas aumentaram, mas ainda é difícil e cansativo juntar dinheiro até chegar o fim do mês”, disse o trabalhador.

Outro problema levantado pelo Ministério Público do Trabalho em São Paulo na semana passada é a falta de assistência financeira das plataformas digitais para cadastrados considerados do grupo de risco.

Ainda segundo a liminar, além da ajuda de custo – o equivalente à média dos valores diários pagos nos 15 dias anteriores à decisão, garantindo, pelo menos, o pagamento de um salário mínimo mensal – as plataformas devem garantir o fornecimento gratuito de álcool em gel (70%, ou mais) e água potável aos profissionais. Além disso, as empresas deverão oferecer espaços para a higienização de veículos, bags que transportam as mercadorias, capacetes e jaquetas, bem como credenciar serviços de higienização

Mesmo Jeferson não fazendo parte do grupo de pessoas com doenças crônicas ou dos acima dos 60 anos, a plataforma não fornece nada de proteção individual e caso ele precise utilizar máscara ou o álcool em gel, deve tirar dos próprios recursos.

“Evito tocar em locais que possam ser contaminados, uso luva, álcool em gel e a máscara para me proteger e ajudar o cliente. As três lanchonetes que faço mais entregas têm espaço reservado para lavar as mãos, mas tudo por conta própria também, só para amenizar a situação dos entregadores que ficam boa parte do dia e da noite na rua”, destaca Jeferson da silva.

A garantia desses benéficos deveria entrar em vigor 15 dias após a determinação da Justiça do Trabalho de São Paulo, no entanto, a plataforma Ifood conseguiu reverter à decisão, que defendia ao menos um salário mínimo (R$ 1.045) aos entregadores afastados por fazerem parte dos grupos de risco, por suspeita de coronavírus ou por estarem com a doença.

“Mal vejo minha filha, mas gosto de saber que estou ajudando as pessoas a ficarem em casa”

Revide

Entregador Carlos Fernandes passa boa parte do dia longe da filha de 1 ano. Foto: Revide

Outro entregador que se cadastrou nas plataformas digitais para complementar a renda familiar é o Carlos Fernandes, de 30 anos. Ficar em casa, segundo ele, é fundamental e isso está aumentando o seu período de entrega, mesmo que seja um sacrifício ficar sem encontrar a filha, de apenas 1 ano, acordada.

Carlos trabalha durante o dia como balconista de farmácia e boa parte da noite sendo entregador do Rappi. Para ele, o lema “fique em casa” deve ser cumprido e estar na rua entregando alimento é uma boa formada de demonstrar que existem pessoas que se importam com a saúde dos outros.

“Como trabalho diretamente com remédios e atendo muitas pessoas, eu sei da importância de estar bem, com saúde, é por isso que acho necessário que a população se mantenha dentro de casa. As minhas entregas aumentaram, fico cansado e quase nunca vejo minha Eloá, mas o dinheiro que estou apurando é para ela”, fala.

Assim como Jeferson, ele não conta com nenhuma ajuda da plataforma e toda a sua higienização depende somente dos seus recursos. E por não conseguir chegar em casa antes de 1h30 – horário que encerra suas entregas – Carlos utiliza álcool em gel com mais frequência e sempre que pode, troca as luvas de látex, que utiliza a todo o momento.

O entregador afirma que está fazendo pelo menos 10 entregas por noite e esse número costuma dobrar durante os fins de semana. Há um ano trabalhando pelo aplicativo, Carlos Fernandes também disse que a plataforma não dispõe de vínculos empregatícios e por isso não liberou ajuda financeira durante a epidemia do Covid-19.

“Desde que comecei a trabalhar com o aplicativo nunca recebi apoio da plataforma, o único vinculo é o da entrega e o dinheiro depositado na minha conta. Não fiquei surpreso quando aconteceu a quarentena e a empresa não se pronunciou sobre como os entregadores ficariam, mas logo depois disseram que o funcionamento do delivery seria normal e a minha sorte é o trabalho que tenho na farmácia”, declara o entregador.

Sem possibilidades de haver uma trégua no avanço do coronavírus, os entregadores devem continuar fazendo seus serviços e esperando que a população tenham mais consciência e respeitem as regras de isolamento social.

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