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Drama humano está no centro de ‘O tradutor’, filme estrelado por Rodrigo Santoro

Estado de Minas / 10:22 - 15/04/2019


Rodrigo Santoro interpreta especialista que se dedica a crianças com câncer afetadas pela tragédia de Chernobyl. Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação
Rodrigo Santoro interpreta especialista que se dedica a crianças com câncer afetadas pela tragédia de Chernobyl. Foto: Galeria Distribuidora/Divulgação

Rodrigo Santoro estava num momento particular. Havia perdido um amigo querido, que morreu de câncer. Estava virando pai. Isso tudo mexeu com ele, e Santoro resolveu que ia dar um tempo. Queria pensar um pouco, reciclar-se. Foi quando lhe chegou às mãos o roteiro para o filme O tradutor, enviado por dois irmãos cineastas cubanos, Rodrigo e Sebastián Barriuso. Insistiram para que ele lesse. Santoro estava relutante, mas foi só ler e ele mudou. “Vou fazer, quero fazer.” O tradutor, que estreou na quinta-feira nos cinemas, baseia-se numa história real. Santoro interpreta Malin, um professor de literatura russa.

Começa com as imagens da visita de Mikhail Gorbachev à ilha. Com as sanções dos EUA, Cuba precisa mais do que nunca da ajuda da URSS. Mas ocorre a queda do muro de Berlim (1989), o colapso do império soviético, as aulas de literatura são suspensas e Santoro, como outros professores, é locado como tradutor num hospital que abriga pacientes que foram expostos à radiação atômica de Chernobyl (três anos antes) e estão morrendo.
Cabe-lhe a ala infantil. “Mexeu muito comigo. Decidi que tinha de aceitar. O convite vinha carregado de desafios e dificuldades. Teria de falar russo e não teria uma janela muito grande para aprender a língua. Em um mês, já estaríamos filmando. Estudei muito o roteiro, aprendi a dizer minhas falas em russo, mas não era suficiente. Contraceno com crianças. A maioria era de cubanas, que foram dubladas depois, mas o garoto que é o principal paciente falava russo. Como criança é muito espontânea, eu tinha de estar preparado para improvisar com ele. Deu um trabalhão danado, mas foi muito positivo.”
O próprio espanhol era outro desafio. Quando fez Che (de Steven Soderbergh), Rodrigo já havia estado em Cuba e aprendeu a falar o espanhol local, um pouco cantado, relembram os diretores. Malin, na verdade, chama-se Manuel Barriuso Andino e é pai da dupla. Na época do filme, havia somente Sebastián. A mãe é uma galerista de arte que começou a reclamar da dedicação do marido às crianças do hospital, acusando-o de negligenciar a família. Isso não a impede de ficar grávida de novo. O casal terminou por se separar. E, apesar de toda a importância das crianças, do hospital e da solidariedade humana, o verdadeiro tema é a crise do casal.
“Desde que começamos a fazer cinema, meu irmão (Rodrigo Barriuso) dizia que a história de nossos pais dava filme. Todo projeto termina por ser autobiográfico, mas essa história nos diz respeito, nos afetou. Fizemos para entender nosso pai, nossa mãe. E também para entender aquele momento da vida cubana. Nosso sistema de saúde sempre foi reputado como um dos melhores do mundo. Até quem era contra o socialismo de Fidel Castro reconhecia isso. A crise de combustível, o racionamento de víveres, tudo foi paralisando a vida em Cuba, mas pessoas como meu pai e a enfermeira (vivida pela atriz argentina Maricel Álvarez) continuaram emprestando seu idealismo ao programa de assistências às vítimas de Chernobyl, que prosseguiu até 2011”, detalha Sebastián.
Santoro diz que não se trata só de um filme. “Acho que tem qualidade como cinema, mas mesmo em São Paulo fomos convidados a debater com profissionais de saúde e visitamos pacientes infantis em situação terminal. O tradutor pede um comprometimento que não terminou para nenhum de nós.” E como foi para Santoro voltar a Cuba? “Peguei o país em outro momento. E desta vez não participava de uma megaprodução norte-americana, mas de uma coprodução local (com o Canadá, onde residem os diretores). A equipe era cubana, então eu conversava muito com a maquiadora, a figurinista. Como pai, trocava ideias, informações. É um povo muito alegre, hospitaleiro. Tudo está mudando muito rápido, mas quem ficou na ilha e não renegou o socialismo tem outro olhar para a vida, para as coisas.”

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