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Da guarita para os palcos: porteiro alagoano sonha em ser cantor de vaquejada

Carol Amorim - Repórter / 9:36 - 15/12/2019

Jessé Santos, 35, já passou por duas bandas, desistiu de cantar, mas renovou as esperanças após a ajuda de colegas de trabalho


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Jessé San busca pelo reconhecimento do seu talento como cantor. Foto: Jamerson Soares

O que passamos no decorrer da vida pode nos afastar dos nossos sonhos mais desejados ou, até mesmo, nos desestimular nos momentos mais críticos. Apesar disso, entre oportunidades perdidas e alcançadas, o sonho de Jessé Santos, ou simplesmente, Jessé San – nome artístico -, ainda o move. Quem vê Jessé na guarita de uma instituição em Maceió, não imagina que o simpático porteiro carrega com ele dores de uma vida difícil e o dom de cantar. Dom esse que o faz persistir na carreira de cantor de forró, sertanejo e vaquejada, apesar de quase ter desistido do sonho por alguns anos.

Nascido em Maceió, Jessé hoje tem 35 anos e vive com a esposa e a mãe numa humilde casa em Rio Largo. Todos os dois, eles vem do município para Maceió a trabalho e, durante o percurso, por vezes, mais precisamente, no canteiro próximo ao Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, ele encontra seu pai e a barraca onde o genitor vive, ali mesmo, no canteiro. “Meu grande sonho mesmo é um dia poder tirar o meu pai de lá”, confessou após dizer o quanto gostaria de alcançar o sucesso com a música.

Os pais de Jessé são separados há anos, decisão tomada quando Jessé ainda era criança. Após a separação, seus pais escolheram novos rumos. Ele se casou novamente, constitui nova família em Arapiraca e a mãe também chegou a ter um novo relacionamento. Essas vivências proporcionaram a Jessé a companhia de seis irmãos, nascidos dos pais quando juntos e separados, com outros companheiros.

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Jessé contou sobre as dificuldades que enfrentou e enfrenta com a família. Foto: Jamerson Soares

“Meu pai sempre bebeu muito e tem uma personalidade difícil. Quando vivia com a minha mãe, ameaçava ela, a mim e meus irmãos. Depois, quando se casou novamente, não deixou a bebida. Tempos depois, ele se separou, perdeu o emprego e veio morar comigo, em Rio Largo”, contou.

Na época, Jessé estava casado com a sua primeira esposa e teve dois filhos, um menino e uma menina. Hoje o rapaz tem 14 anos e menina tem 11 anos. O pai morou com eles por seis anos e, após esse período, o sonhador Jessé teve que sair de casa porque estava se separando da esposa. Por causa disso, ele teve que voltar a morar com a mãe também em Rio Largo e, como a relação de seu pai e sua mãe ainda era difícil devido às mágoas do passado, o pai decidiu viver na rua.

“Ele sempre dizia, desde quando eu era novo, que se saísse de casa, iria para qualquer canto, iria para a rua e foi o que aconteceu anos depois”, relembra.

Referência musical

Jessé ainda relembrou que o pai é uma das suas referências na música. Apesar de não cantar e nem de ser ligado à vida artística, o pai o incentiva a cantar desde criança.

“A gente [ele e os irmãos] não tinha tempo para brincar, meu pai não deixava. Nós trabalhávamos desde cedo para ajudar em casa. Para você ter ideia, eu só frequentei a escola aos 12 anos e só estudei até a 6ª série. Quando meu pai estava nas bebedeiras com os amigos, ele me chamava para cantar. Esse era meu momento de lazer”, contou.

O incentivo do pai, hoje, vem de outra forma. Agora, por meio de palavras. Jessé conta que ele é um dos seus maiores apoiadores juntamente com a mãe e a atual esposa.

“Ele diz: ‘Meu filho, seu eu pudesse, investiria em você. Daria tudo para que você alcançasse seu sonho’”, revelou.

Carreira artística

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Jessé já fez parte duas bandas de forró. Uma no ano de 2012 e outra em 2014. Foto: Jamerson Soares

Das confraternizações com o pai e os amigos na infância, até as referências músicas conquistadas ao conhecer as canções dos cantores Cara Veia e Claudio Rios, Jessé chegou a integrar bandas de forró e se apresentou por alguns estados do Nordeste. Em 2012, ele integrou a banda Beijo de Novela e em 2014 a banda Balada de Vaqueiro. Em ambos os projetos, a desejada carreira de cantor durou por pouco tempo.

“Depois de um tempo na banda Beijo de Novela, o empresário e dono da banda, perdeu o emprego que tinha e, por causa disso, ele não conseguiu manter o projeto e eu fui fazer outras coisas. Depois veio a Balada de Vaqueiro, que também não deu certo e, depois disso, desisti de cantar”, detalhou.

Nesse meio tempo, Jessé soube, por um amigo, que o cantor alagoano Mano Walter estava interessado em montar uma banda de estilo “forró de vaquejada” e que, em determinado momento, a ele foi apresentada uma música interpretada por Jessé. Segundo o amigo, Mano Walter gostou do que ouviu, mas alguém teria dito ao cantor que Jessé tinha contrato com a banda Beijo de Novela, fato esse que teria impedido uma possível negociação entre os dois.

“Eu soube disso uns três ou quatro anos depois, não sei se é verdade. Mas, de qualquer forma, não tive contrato com a ‘Beijo de Novela’. Era um acordo ‘de boca’”, explicou.

Recomeço

O tempo passou, Jessé decidiu parar de cantar, até que outro sopro de esperança fez com que ele tentasse novamente.

Nesse período longe de buscar algo com a música, Jessé se dedicou a outros trabalhos, até que foi contratado em uma instituição em Maceió como porteiro. Entre uma conversa e outra com os companheiros de trabalho, ele contava sobre a sua vida e sobre o fato de já ter participado de duas bandas de forró. Comovido pela história do colega, os amigos de trabalho e outros amigos de fora, decidiram se reunir e arrecadaram dinheiro para que Jessé gravasse um CD. A ação foi bem sucedida e Jessé conseguiu gravar seu CD solo após anos longe da música.

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Felipe Rocha, amigo de Jessé, contou que um grupo de colegas de trabalho ajudou na produção do CD. Foto: Jamerson Soares

“O Jessé é essa figura carismática, tem esse sonho, uma vida de tanta luta, então nós decidimos contribuir para que ele continuasse persistindo como cantor. A maior parte da ajuda veio da diretoria da empresa, mas cada um que se comprometeu, ajudou um pouco”, contou o colega de trabalho Felipe Rocha.

Até mesmo a capa do CD, que ficou pronto recentemente, foi um colega de trabalho quem fez a arte, Clauderlan Vilela.

O novo estímulo já proporcionou a Jessé a marcação de duas apresentações para este ano. Uma que será no dia 22 e outra no dia 31, ambas confraternizações privadas de fim de ano. E, apesar do CD está pronto, ele ainda precisa de mais contribuições para que novas capas sejam produzidas. Então, para quem deseja contribuir ou contratar o músico, basta entrar em contato através dos números (82) 99191-6435 ou (82)99998-2363.

As músicas de Jessé estão disponíveis para serem ouvidas e baixadas online e gratuitamente aqui.

Confira o vídeo com a música ‘Não adianta vir falar da tua vida’, composição de Gilberto Vaqueiro, sendo interpretada por Jessé San:


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