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Cartas continuam sendo forma especial de comunicação entre jovens alagoanos

Nathali Duarte - estagiária / 11:06 - 29/06/2016

A tecnologia diminuiu o envio de cartas, mas a sensação de carinho na produção é o que motiva


A notícia de que a tarifa de envio de correspondência aumentou em Alagoas fez muita gente parar e pensar: “mas quem ainda manda carta hoje em dia?”. Em tempos de mídias sociais, é raro conhecer ou ouvir falar de alguém que escreva e mande cartas para se comunicar, relatar acontecimentos, demonstrar sentimentos, e, principalmente, esperar de volta a resposta.

Nos últimos 10 anos o índice de envio de cartas por pessoas físicas tem diminuído. De acordo com os Correios, em Alagoas, de 200 mil correspondências recebidas por mês, menos de 1% correspondem a cartas no sentido convencional – aquela enviada de pessoa para pessoa. Em períodos festivos, o número aumenta, mas não o suficiente para alterar os dados do índice.

Porém, a produção de uma carta é algo simbólico. O remetente, ao escrever, empenha grande dedicação. A escolha da palavra certa, da caligrafia mais delicada, o uso do selo caprichado e até o envelope são fundamentais. A sensação de parar por alguns momentos na correria das atividades e descrever sentimentos, histórias e acontecimentos é o que motiva alguns jovens em Maceió a enviar cartas.

João Victor Lemos começou a enviar aos nove anos, por influência de sua vizinha, que sempre mantinha a rotina de escrever cartas. Na maioria das vezes, ele acompanhava este momento.

Foto: arquivo pessoal

Foto: arquivo pessoal

Hoje, aos 22 anos, as cartas de João Victor vão para seus amigos. Uns são de outros estados, outros o contato iniciou através das redes sociais, além dos que conheceu pessoalmente e saíram de Alagoas.  Os assuntos são diversos, mas o predominante é o religioso.

“As redes sociais aproximam as distâncias, facilitam a comunicação, mas a carta é algo simples, discreto, mas que carrega consigo sensações boas. Um lembrete de que estou perto. A carta não finge que estou, ela confirma minha presença, mesmo estando longe”, afirmou João.

Ao mês, João chega a escrever de 20 a 25 cartas. Seus amigos têm a idade variada, são jovens como ele ou idosos. O contato com as pessoas mais velhas sempre é estabelecido por cartas. Mas segundo João, por mais inacreditável que pareça, seus correspondentes são jovens, na maioria. Eles preferem escrever cartas a manter um bate-papo virtual.

“Elas [cartas] provocam telefonemas de pessoas que vivem 24 horas conectadas nas redes sociais, provocam um contato bem mais próximo e verdadeiro do que as redes oferecem. Formam contatos sólidos, sinceros e recíprocos. As cartas me ajudam bastante, porque na escrita de cada amigo vem um pouco de saudade, de querer está mais perto, de estar junto de mim”, desabafa João Victor.

Cartas, bilhetes e desenhos

Autorretrato de Fellipe Ernesto e seu labrador, exemplo dos desenhos que ele produz e envia junto com suas cartas (Foto: arquivo pessoal)

Autorretrato de Fellipe Ernesto e seu labrador, exemplo dos desenhos que ele produz e envia junto com suas cartas (Foto: arquivo pessoal)

Outro jovem que também prefere o mundo lúdico das cartas ao imediatismo das redes sociais é Fellipe Ernesto, 26. Influenciado pela mãe, que tinha o costume de escrever bilhetes de aniversário e até lembretes de atividades do dia-a-dia. Então, logo na infância, começou a se “corresponder” com sua mãe – mesmo morando na mesma casa – e com alguns amigos.

Em 2009, Fellipe expandiu o número de destinatários e começou a enviar também cartões de Natal e desenhos que ele mesmo fazia, também como forma de registrar seus sentimentos.

“Os desenhos, eu faço para amigos ou pessoas que causaram impressões significativas em mim naquele ano ou em outro momento da minha vida. Como gosto muito de desenhar, acreditei que seria uma oportunidade de ‘deixar’ um pedaço de mim naqueles cartões e de registrar uma mensagem ou um desejo sincero que eu tinha àquela pessoa, além de resgatar o espírito natalino em mim e nas pessoas envolvidas”, disse Fellipe.

Para ele, as cartas têm muita importância. O tempo de parada para escrever é fundamental para causar a impressão de proximidade com a pessoa que posteriormente irá receber a mensagem. Os destinatários são amigos próximos, pessoas que por algum momento perderam o contato – sendo recuperado também com ajuda da internet – ou amigos que foram morar em outros estados ou outro país.

Fellipe envia as cartas a cada dois meses, mas no período de outubro a dezembro, quando são produzidos os desenhos e cartões de natal, são produzidos de 10 a 20 cartões, que além das imagens levam mensagens.

“Nos meus cartões, eu evito frases prontas de boas festas e escrevo desejos sinceros; cada cartão vai com uma mensagem particular e indiretamente está relacionado a algum momento significativo em que a pessoa falou algo importante para mim, um desejo, uma aspiração ou uma falta”.

Manufatura das cartas

É possível dizer que João Victor e Fellipe Ernesto não escrevem suas cartas, mas elaboram uma mensagem cuidadosamente gravada no papel. É um processo realmente artesanal, manufatura cuidadosa das mensagens, para que traduzam realmente um sentimento especial a seus destinatários.

Em sua máquina de datilografia, como prefere escrever, ou mesmo a punho, João Victor capricha na produção de suas missivas. A escolha dos selos é criteriosa, são em modelos diferenciados e vistosos. Se a escrita for manual, a caligrafia é desenhada no estilo colonial. Além das cartas, João envia cartões de Natal e de aniversário.

Já na produção de Fellipe, a carta vai junto com o desenho ou também com cartões, e sempre com envelopes diferentes para diferenciar das cobranças financeiras.  Ao levar as cartas aos Correios, os atendentes sempre ficam surpresos ao receber os envelopes. “Isso ficar explícito em suas expressões”, relata com um pouco de humor.

“Pode parecer estranho, mas às vezes eu sinto que estou indo viajar naquele envelope. Sinceramente, quando estou escrevendo uma carta, eu penso muito mais naquela pessoa que vai recebê-la. É por ela que estamos parando, refletindo e escrevendo. O difícil desse exercício, enviar e receber cartas, é driblar a ansiedade e não consultar o destinatário no Facebook para saber se a carta finalmente chegou”, desabafa Fellipe.


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