Carros abandonados representam risco para pessoas e meio ambiente

Veículos acumulam água, ferrugem e entulhos enquanto SMTT conta com apenas um guincho para todas suas operações

Carros abandonados representam risco para pessoas e meio ambiente

Veículos acumulam água, ferrugem e entulhos enquanto SMTT conta com apenas um guincho para todas suas operações

Por | Edição do dia 20 de maio de 2016
Categoria: Artigos, Meio Ambiente, Notícias | Tags: ,,,,,


Em 2016, o país declarou guerra ao Aedes aegypti. Das pré-escolas aos grupos de idosos, todos foram mobilizados e nenhuma tampinha de refrigerante foi deixada em paz. Mesmo assim, vários bairros de Maceió contam com um recipiente acumulador icônico, que além de água parada, junta ferrugem, mato, bichos e até entulho jogado pela própria população. Veículos abandonados estão em todos os tamanhos e estados de conservação pela cidade, mas existe apenas um guincho para dar conta de todos.

Os tipos são variados: um fusca colorido no bairro do Poço – nos fundos da Escola Superior do Ministério Público (ESMP) e da sede do Ministério Público do Estado (MPE) –, ônibus e carros menores no Tabuleiro, carros há muito abandonados misturados aos veículos de ferro velho no Clima Bom, à beira da rodovia, aos olhos de todos. Além do perigo à saúde pública, ameaçam a segurança da população, pois servem também como esconderijo para bandidos e espaços para uso de drogas.

Veículos no Tabuleiro, imediações do Loteamento Recanto do Maynard (Foto: Cacá Santiago)

Veículos no Tabuleiro, imediações do Loteamento Recanto do Maina (Foto: Cacá Santiago)

O risco é reconhecido pela Prefeitura de Maceió, que intensificou no começo do ano a campanha para denúncias desses veículos através no número 118 e seu recolhimento pela Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT). Até agora, em 2016, foram retirados das ruas 30 veículos, dos 87 veículos totais recolhidos desde 2013 – ou seja, quase metade de toda movimentação. Um avanço e tanto, considerando que o município tem apenas um guincho para todas as ações da SMTT.

“Temos mais de 100 denúncias da população este ano e já temos um rol de carros mapeados. Inserimos esses recolhimentos nas folgas, de acordo com o mapeamento dos bairros, pois é um guincho só para tudo: veículos estacionados em local errado, carros com irregularidades em operações com o BPTran [Batalhão de Polícia de Trânsito], combate aos clandestinos, multas”, informou Nicolas Albuquerque, assessor de comunicação da superintendência.

SMTT x Slum

Uma vez que a denúncia é feita, de acordo com a assessoria da SMTT, seus agentes vão ao local e fazem a verificação do estado e regularidade do veículo (alguns estão com placas e chassis ainda) e se ele está realmente abandonado, para então realizar os devidos procedimentos.

“Se o veículo estiver completamente deteriorado, ele é considerado lixo e é competência da Slum [Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió] recolher. Se o veículo está estacionado regularmente e sem características de abandono (como surgimento de vegetação embaixo do veículo e vidros quebrados), ele não pode ser recolhido pela SMTT. Mas, se o veículo apresentar características de abandono ou estiver cometendo alguma infração que caiba recolhimento, aí ele será recolhido pela SMTT”, informou a assessoria do órgão.

Outro fator que pesa na hora de um possível recolhimento é a possibilidade de identificação do dono do veículo. Se ele for encontrado, é notificado e tem dez dias para tirá-lo do local e dar correta destinação. Caso contrário, a SMTT leva.

Ferro velho a céu aberto

Os ferros velhos na orla lagunar chegam a deixar carros por semanas no acostamento e canteiro central (Foto: Cacá Santiago)

Os ferros velhos na orla lagunar chegam a deixar carros por anos no acostamento e canteiro central (Foto: Cacá Santiago)

Um caso peculiar na questão do abandono são os veículos de ferro velho. A recomendação dos órgãos de fiscalização de que todo material fique em espaços cobertos, é comum que os sucateiros usem espaços ao redor do estabelecimento para estacionar e trabalhar os carros e afins. Algo normal, já que nem todos possuem espaço interno e a atividade é rotativa. O problema aparece quando esse tempo começa a se estender demais. Em regiões como a orla lagunar e o Clima Bom, os carros podem ficar alguns dias ou semanas esperando para serem totalmente desmontados ou consertados para repasse. Na região do Dique Estrada, a cena é comum e os veículos chegam a passar de duas a três semanas antes de serem encaminhados pelo dono.

“Antes eles ficavam mais tempo, mas aí veio a ‘lei’ e mandou tirar, né? Mas fica aqui por duas, três semanas, depois o Domingos, do ferro velho, vem buscar. Ele traz os carros pra gente desmontar, consertar o que dá e depois leva. Deixa aí no canteiro, um monte de gente faz a mesma coisa aqui”, conta o mecânico Feu, de 66 anos, morador do bairro há 20. Quando perguntado o que seria essa lei que cita, ele explica. “Ah, a prefeitura, né? SMTT, Detran. Eles aparecem, mandam tirar, aí o rapaz do ferro velho tira”.

De acordo com Feu – “chama de Feu que bom demais, todo mundo me conhece assim” – já ficaram no canteiro central da orla veículos que derramavam óleo, outros com peças enferrujadas e caindo, ou então com “muita sujeira dentro”.

Ele, que se recupera da chikungunya, começou a preocupar-se com os focos de mosquito da dengue que os carros podem virar, entre os outros bichos que atraem. “Mosquito, rato, barata. Tem rato demais por aqui e esses carros trazem mais. Só que é com isso que a gente trabalha, né? Então a gente tem que se virar, pede pra não deixar aqui tanto tempo, vai levando”, conta o dono da Auto Mecânica do Feu.

Carros trazem ratos e são criadouros de "mosquito da dengue", segundo moradores (Foto: Cacá Santiago)

Carros atraem ratos e são criadouros de “mosquito da dengue”, segundo moradores (Foto: Cacá Santiago)

No caso dos carros de ferro velho, a SMTT busca o caminho da orientação. “Só retiramos se tiver atrapalhando a via pública. Geralmente o pessoal deixa nos canteiros centrais, o que é permitido. Procuramos conversar com o dono para ver a situação do carro. Eles dizem que estão por ali, que estão realizando algum serviço, então orientamos para que guardem na oficina ou deem destino ao veículo”, disse Nicolas Albuquerque.

Gato e fusca de rua

Como tudo na vida, há casos que também carregam sua dose de humor. Ou de inocência, como é o caso de amor de André Luiz, seu gato preto Estique e “seu” fusca laranja. André tem 5 anos, três dos quais convive diariamente com um fusca laranja esquecido na Praça Recife, no Poço, por trás da Escola Superior do Ministério Público. De tanto ver o carro parado na frente de casa, o menino adotou o fusquinha chamativo.

O fusca laranja divide opiniões na Praça Recife (Foto: Cacá Santiago)

O fusca laranja divide opiniões na Praça Recife (Foto: Cacá Santiago)

“Ele disse que o carro agora é dele, quer adotar. O André virou para o pai e disse ‘pai, arruma pra mim, pra me levar pra escola!’. A gente fica rindo, diz que vai chamar o povo pra tirar e ele diz que não vai deixar levarem o fusca”, conta a mãe, Simone Simões, rindo com a inocência do garoto.

De acordo com os moradores da Praça Recife, o fusca laranja pertencia a uma moradora, que mudou-se há alguns meses, mas deixou o carro lá. Um funcionário do Condomínio Imperial, que também fica na praça, contou que os frequentadores da Escola do MP já ligaram para a SMTT para retirar o veículo, mas os agentes voltaram atrás ao perceber que a documentação e taxas do carro estavam regulares.

“Eles disseram que iam notificar o dono para tirar o fusca, mas isso tem meses e nada foi feito. Todo mundo reclama, porque já tem mato embaixo e está começando a juntar entulho. Junta mosquito da dengue, barata, todo tipo de bicho ali”, contou o rapaz, que preferiu não se identificar.

O rapaz explica que outro carro já foi deixado no local também, de outro dono. Passou alguns meses e foi retirado. O fusquinha laranja vivo permanece e, há três meses, passou a abrigar um gato preto, que encontrou nele um abrigo perfeito. Como um “dono” preocupado com seu fusca, André Luiz também adotou o gato de rua, para desespero de sua mãe, que teve que ceder, mas não sem antes estabelecer algumas condições.

“O nome dele é Estique e ele dorme lá no carro e ele come aqui em casa. Eu boto a comida dele aqui na frente, minha mãe não deixa ele entrar pra dentro de casa”, conta o garoto, tranquilamente sentado na escadinha da frente de casa, fazendo carinho no gato, muito confortável em seu colo.

Pelo menos uma pessoa e um gato estão felizes com o fusquinha laranja esquecido na Praça Recife.

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