Carência afetiva durante a pandemia fica mais enfatizada, afirma psicólogo

Por Carol Amorim - Repórter | Edição do dia 30 de agosto de 2020
Categoria: Especiais | Tags: ,,,,,


Durante a pandemia, encontros online contribuíram para a aproximação entre pessoas. Foto: Reprodução/Internet

Com as recomendações de isolamento social durante a pandemia do novo coronavírus, as pessoas que adotaram o isolamento se viram em um misto de sentimentos também devido à falta de contato físico com pessoas queridas. Aliada a essa falta, as pessoas também afirmaram ter sentido uma carência afetiva maior durante esse período. Segundo a psicologia, durante esse processo de isolamento, a carência fica mais enfatizada.

Para lidar com a falta de contato com o outro, encontros online se tornaram comuns, além disso, para os solteiros, os aplicativos de paquera também se fizeram presentes. Houve, inclusive, quem iniciasse um relacionamento amoroso por meio das redes sociais.

Solteiros viram nas redes sociais um meio para conhecer novas pessoas durante a pandemia. Foto: Reprodução / Internet

A tatuadora Alessandra Vieira, 24, contou que chegou a utilizar um aplicativo de relacionamentos, mas que não teve a paciência que costumaria ter se a pandemia não estivesse acontecendo. Ela cita que costumava ter disposição para conversas nessas redes, mas que, durante a pandemia, essa disposição não foi a mesma, apesar de sentir falta do contato com outras pessoas.

“Baixei o Tinder, conheci gente, enjoei antes mesmo de chegar a ver pessoalmente. Normalmente sou super sociável, mas a quarentena me deixou reclusa e chata”, conta.

Em meio aos seus acessos a uma rede social durante esse período, Alessandra notou que uma menina que ela já tinha interesse começou a curtir suas fotos e chegou a mandar mensagem para ela. Ela conta que foi a partir dessa atitude que as duas começaram a se aproximar por conversas online e que, inclusive, se prepara para conhecê-la pessoalmente, neste fim de semana.

“Eu vejo ela tomando os cuidados [com a quarentena] porque mora com uma idosa”, explicou Alessandra. Por isso, ela disse que decidiu conhecer seu interesse romântico pessoalmente.

A jornalista Mirra Ion, 24, também afirmou ter se sentido mais carente durante a pandemia. Ela diz que outros fatores contribuíram para esse sentimento, como o término de um relacionamento no começo deste ano e a ida para outro estado, para fazer companhia a avó, que mora sozinha.

“Eu terminei meu relacionamento no início do ano e ainda estava naquele processo de aceitação e de cura. Quando eu comecei a querer sair para me distrair e estar perto de amigos, foi quando tudo começou, então fui obrigada a ficar em casa e sofrer a bad do término sozinha mesmo, sem um ombro amigo, sem poder sair e ver gente nova. Então acabou aumentando totalmente minha carência de afeto e contato”, explicou.

Com o passar dos meses, ela disse que também decidiu utilizar um aplicativo para relacionamentos, para conhecer novas pessoas. Ao contrário de Alessandra, Mirra diz que foi uma experiência prazerosa por poder conhecer outras pessoas, ter novos assuntos, mas que, por outro lado, aumentou sua vontade por contato físico.

“Ainda estou com muito medo de sair. Pode ter aberto a economia, mas não tem vacina. O vírus ainda está solto por aí. Moro com pessoas de área de total risco, não posso me arriscar ainda. Mas também não posso mais me isolar do mundo, chega uma hora que o limite estoura e precisamos ver gente, socializar. Mas tomando todos os cuidados”, aponta.

O contato físico como uma necessidade humana

O psicólogo Edvan Filho reforça que os cuidados devem continuar sendo seguidos em meio à pandemia. Foto: Arquivo Pessoal

O psicólogo Edvan Filho (CRP-15/5269) explica que a carência afetiva está ligada a fatores emocionais e que, esses fatores, são específicos da dependência emocional. Ele explica ainda que a carência, nesse período de isolamento social, traz um sentimento de tristeza nas pessoas por causa da dependência do contato com o outro.

“[As pessoas] podem usar da tecnologia para estarem mais ‘próximas’ de quem se gosta.  O contexto online e os produtos eróticos, podem até estimular o casal, deixar o relacionamento mais ‘quente’, aumentar o desejo um do outro, pois está estimulando as possibilidades sexuais”, conta.

Sobre o contato físico com outra pessoa, ele diz que o ser humano sente essa necessidade e que esse contato é importante para os relacionamentos e que ele também deve existir. Como dica para os casais, ele aponta que as possibilidades de encontro podem ser estudadas entre eles, mas que os cuidados com relação a pandemia devem ser tomados.

“É importante seguir as orientações da OMS [Organização Mundial da Saúde]. Mesmo com a flexibilização no processo de isolamento, devemos sair só para o essencial, e se for receber visitas, ter os devidos cuidados, pois ainda estamos passando pelo processo de pandemia”, reforçou.

Quando perguntado como as pessoas poderiam diferenciar o interesse genuíno pelo outro da carência afetiva durante esse período de pandemia, o psicólogo orientou que as pessoas devem observar como está ocorrendo a construção desse relacionamento, se está sendo recíproco. Ele também ressalta que as pessoas não devem depositar no outro a responsabilidade de se sentirem bem.

“Observar realmente se está sendo saudável esse contato de início. A carência afetiva está ligada também a outros problemas emocionais, como perdas e etc. As pessoas dificilmente notam essas características”, disse.

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