, Quinta-Feira - 9 de Abril de 2020

 

Cárcere da pessoa trans: o preconceito dentro e fora dos muros

Jamerson Soares - Estagiário / 8:00 - 15/03/2020

Crime da personagem de uma matéria sobre travestis e transsexuais na prisão foi revelado na internet, e repercussão gerou diversas opiniões


“Encarei vários fatores, vários monstros de vida. A fome, a droga, tudo isso me levou a uma coisa só: a cadeia, a prisão”. Essa foi a frase dita pela mulher transexual Thais Pereira de Lima, de 29 anos, em uma matéria exibida pelo Fantástico, da TV Globo, no dia 1º de março de 2020. Uma frase dita por ela e por tantas mulheres trans e travestis que tentam sobreviver em um sistema prisional brasileiro em decadência.

A reportagem seguiu os trilhos de uma espécie de mini documentário, que retratou a vida de transexuais e travestis dentro da prisão, lugar considerado masculino. Dados sobre a quantidade e a idade de transexuais na prisão, os tipos de crime e o percentual deles, também foram exibidos pela reportagem. O doutor Dráuzio Varella, médico conceituado e autor de diversos livros, como Carandiru (1999), ficou responsável por entrevistar e mediar a conversa entre ele e as personagens.

Nas imagens, vimos que há humanidade da parte do médico ao abordar o assunto e no modo como tratou as entrevistadas. O que Drauzio não esperava era a repercussão que ia dar após entrevistar uma das personagens, a Suzy. Nos exatos 10 min e 50 seg, dentro de um abraço que o doutor deu na personagem após ela falar da solidão que sofria há mais de 7 anos dentro da cadeia, houve internautas que identificaram, posteriormente, o crime que ela cometeu no passado e dispararam para milhões de pessoas a informação.

Em menos de dois dias, e através do compartilhamento de notícias, o caso viralizou. Um turbilhão de mensagens e discussões circularam pela internet, muitas de espanto devido ao crime hediondo cometido por Suzy, o de estuprar e matar uma criança.

Para Deraldo Francisco, jornalista alagoano, Drauzio está há muito tempo no trabalho com o sistema prisional e ele está apto para ter abordado a rotina das pessoas trans naquela reportagem. “Do ponto de vista jornalístico, a pauta é interessante porque é o que vem sendo discutido atualmente. A produção falhou em não ter explicado ao Drauzio sobre o caso da Suzy e por não ter perguntado a ele se, mesmo sabendo do caso, queria fazer”, conclui.

 

Distorção de visões e contextos?

PRINT DO MOMENTO DO ABRAÇO SUZY

Foto: Reprodução / TV Globo

No Brasil, todo indivíduo está sob assistência do estado democrático e da Constituição. Todos, sem exceção, têm direito à educação, saúde, lazer, moradia, saneamento básico, ressocialização, dentre outros. E com o preso, não é diferente.

Segundo a Lei de Execução Penal, instituída em julho de 1984, “a assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade”. São vários tipos de assistências destinadas ao preso que tem como finalidade dar uma nova chance para o indivíduo conseguir a liberdade e mudar após ser inserido no meio social.

“É importante que esse episódio não nos distraia da importância de discutir sobre as condições de vida das pessoas em privação de liberdade que, mesmo em processo de ressocialização, continuam sendo cidadãos garantidos de direitos pela Constituição”, disse a cientista social, Beatriz Costa, que enfatizou a importância de discutir sobre os direitos dos cidadãos e das cidadãs independente das circunstâncias.

Segundo Costa, a reportagem de Dráuzio Varella é bastante pontual em trazer a atenção para essas condições e para outras questões tangentes à existência das mulheres trans e de seus direitos. “A repercussão dos crimes cometidos por Suzy não pode ser razão para desviar a atenção das reais motivações da reportagem: a vida das mulheres trans nos presídios e a privação de seus direitos”.

O psicólogo clínico Edvan Filho, que tem capacitação profissional em Política Nacional de Saúde Integral a comunidade LGBTQ+, afirma que ao analisar a repercussão do caso da Suzy, observou que sim, houve uma distorção de visões. Para Filho, “fatores culturais e sociais influenciam em nossa visão, e são apresentados na sociedade fatores morais, aonde devemos seguir para se inserir em uma determinada cultura, assim buscamos sempre rever nossos conceitos”, explicou.

De acordo com o psicólogo, a reportagem em si foi bastante objetiva. Mostrou as vivências do setor penitenciário e suas respectivas reflexões sobre o contexto de forma ética e respeitando cada personagem envolvida.

 

Florescer em meio ao caos

FOTO DA ISIS FLORESCER REPRODUÇÃO INSTAGRAM

Isis Florescer, atriz alagoana. Foto: Arquivo Pessoal

Viver em uma sociedade patriarcal, machista e prepotente sendo diferente é um ato de coragem e resistência. Aceitar-se como se é e inserir-se no corpo social é um processo digamos que longo e árduo.

É o caso de Ísis Florescer, poeta alagoana e atriz formada pela Escola Técnica de Artes (ETA-Ufal). Ela diz que escreve para ressignificar sua existência no mundo. Ela conta que passou por inúmeros desafios desde que afirmou e expressou sua identidade de mulher trans, e o maior deles foi no ambiente de trabalho. “No mundo corporativo existe uma rigidez e uma norma a ser seguida, mas nesse ambiente, na medida que fui buscando meus direitos, fui legitimando minha identidade e a situação foi se normalizando”, explicou.

Florescer ainda comenta que acompanhou a repercussão da matéria, e que considera a reportagem relevante pois aborda um assunto delicado e complexo. Segundo ela, a situação de mulheres trans em situação de cárcere, exposta através da reportagem, ofereceu a oportunidade a sociedade de refletir sobre as violações e violências que esse grupo sofre.

“Muitas não são respeitadas na sua identidade de gênero e acabam tendo que performar uma farsa e falsa identidade masculina para sobreviverem na prisão. De imediato, a reportagem me comoveu profundamente, ao tornar explícito que dentro e fora das prisões o mundo é cruel com pessoa trans”, declarou.

Na vida de Ísis, a interação com outros espaços e pessoas em sociedade ainda está em processo pois, segundo ela, é bem difícil. Já com a família e entre a rede de amigos a aceitação foi mais fácil, e com ajuda deles ela foi conseguindo superar os desafios. A escrita foi um dos maiores escapes e foi o que ajudou em seu processo para enfrentar esses desafios. Foi através da poesia que ela conseguiu expressar suas inquietações, desejos e reflexões em ser uma mulher trans.

Sobre o caso da personagem Suzy, Ísis comentou que foi a personagem que mais a marcou na entrevista, por ter recebido um abraço do médico e ter revelado a solidão que passa em ser uma mulher trans na cadeia. “Ela [Suzy] recebeu sua sentença e cumpre a pena de acordo com as leis e a Justiça brasileira. E a matéria em questão tratava de tentar humanizar a vida amarga e difícil das entrevistadas”, comentou Florescer.

“Com o atual patrulhamento ideológico e virtual na era das redes sociais e fakes news, internautas foram desenterrar qual crime Suzy cometeu na tentativa de desumanizar, condenar e violentar mais uma vez toda população trans. Pois ao comparar Suzy com toda a população trans fica expresso e nítido a transfobia estrutural CISheteronormativa por  parte daqueles que tentaram invalidar o gesto de Dráuzio Varella”, concluiu enfatizando sua indignação.

 

Ser o que se é não é doença

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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O Brasil tem cerca de 209 milhões de habitantes e uma taxa de 30,5 homicídios a cada 100 mil habitantes, a segunda maior da América do Sul, perdendo apenas da Venezuela, com 56,8. No ano de 2019, foram confirmadas informações de 124 assassinatos de pessoas Trans, sendo 121 Travestis e Mulheres Transexuais e 3 Homens Trans. Destes, encontramos notícias de que apenas 11 casos tiveram os suspeitos identificados, o que representa 8% dos dados, e que apenas 7% estão presos.

De acordo com o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil é o país que mais mata Transexuais e Travestis. Enquanto os Estados Unidos, com população estimada em 327 milhões e terceiro do mundo em mortes de pessoas Trans, apresenta taxa de 4,88 para cada 100 mil habitantes. O que explicita o cenário de violência que nos encontramos, onde temos cerca de 6 vezes mais mortes de pessoas trans no Brasil em relação aos Estados Unidos, que tem uma população 50% maior que a nossa.

Ser o que se é em um país que assassina tão facilmente e que usa da força para oprimir, é um ato de muita coragem e resistência.

“Nossas dinâmicas sociais estão sempre pautadas em relações de poder… Seja relações de gênero, classe, raça ou orientação sexual. Para quem está em posição de poder nessas relações, pode ser difícil compreender a necessidade de garantia de direitos do outro”, disse Beatriz Costa, ao explicar no quê pode se basear o preconceito da maioria das pessoas em relação ao que é diferente do padrão imposto na sociedade.

A sociedade sempre vai está em processo de desenvolvimento, e aos poucos a desconstrução de ideias rígidas está evoluindo, mas ainda há muito que caminhar.

O público LGBTQIA+ é o que mais é atingido pela brutalidade da civilização ainda em desconstrução de ideais conservadores e extremistas. Houve um período em que as pessoas LGBT’s eram consideradas pela sociedade pessoas com transtornos mentais. Alguns foram até obrigados a frequentarem retiros para reverter a condição sexual.

Segundo Edvan Filho, a homossexualidade deixou de ser considerada doença em 1990, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e que no artigo 001/99 a  psicologia é proibida de fazer ou oferecer o que chamam de “reversão sexual”.

“Ou seja, de acordo com o código de ética profissional do psicólogo, não pode tratar o público LGBTQI+ como doença. O que se falta é informação na sociedade, e é onde devemos trabalhar a inclusão. A falta de conhecimento faz que conceitos conservadores enfatizem o preconceito, mas estamos lutando para que se possa ter esse processo de conhecimento e a desconstrução do preconceito”.

 

Humanidade

Nos últimos dias, Dráuzio Varella postou uma nota em suas redes sociais para esclarecer que nos mais de 30 anos que frequenta presídios, sempre fez seu trabalho de médico sem perguntar o que os seus pacientes fizeram de errado para estarem presos. Na nota, ele diz que “segue essa conduta para que seu julgamento pessoal não impeça de cumprir o juramento que ele fez ao se tornar médico” e que seu trabalho na televisão faz a mesma coisa. Ainda concluiu dizendo que “era médico, não juiz”.

Passaram-se os dias e viralizou na internet uma matéria feita pelo programa do Sikeira Jr., exibido pela RedeTV!, cujo um dos repórteres do programa vai até a casa da família da vítima que foi morta por Suzy para falar com a mãe do menino sobre o caso. O repórter também deu um abraço na mãe do garoto.

No dia 10 de março, Drauzio gravou um vídeo com sua imagem pedindo desculpas à família da vítima e explicando que não sabia do crime da Suzy, afirmando que não julga a vida dos pacientes.

A humanidade que se percebe nas atitudes de Varella, também se vê na poesia de Ísis Florescer. A escrita a auxilia na solução de desafios.

Muitas pessoas trans são marginalizadas e oprimidas na sociedade, seja por um olhar prepotente, seja por vários golpes de faca, ou por uma bala de revólver, e não conseguem sobreviver por muito tempo. O crime da personagem Suzy não representa toda a população trans, e ela está pagando na Justiça por isso.

Segundo Ísis: “Ainda precisamos lutar diariamente contra essas injustiças e desigualdades de gênero, de cor, de sexualidades que implicam numa violência e controle dos corpos que não se adequam ao padrão da minoria colonizadora (branco, hétero, cis, de condição financeira privilegiada)”.

Fazer poesia para Ísis Florescer, é como ir cuidando de uma flor que nasce em meio a pedras, asfalto, terra bruta… Até que ela continue sobrevivendo sendo ela mesma.


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