Brasileiro Karim Ainouz ganha prêmio Um Certo Olhar, em Cannes

Brasileiro Karim Ainouz ganha prêmio Um Certo Olhar, em Cannes

Por | Edição do dia 25 de maio de 2019
Categoria: Cultura


O diretor brasileiro Karim Ainouz ganhou, nesta sexta-feira (24), o prêmio Um Certo Olhar, o segundo mais importante do Festival de Cannes, com seu “melodrama tropical”, “A vida invisível de Eurídice Gusmão”. O filme retrata o patriarcado no Brasil narrando, da adolescência à velhice, a vida de duas irmãs cariocas dos anos 1950, cujos sonhos são soterrados pelo peso de uma sociedade machista.

Ao receber o prêmio, Ainouz dedicou-o às suas protagonistas, Carol Duarte e Julia Stockler, bem como “a todas as mulheres do mundo”. “Vivemos um momento de muita intolerância” no Brasil, denunciou o cineasta. Em seu terceiro longa-metragem exibido em Cannes, Ainouz retoma a temática que mais o comove: as mulheres, uma forma de homenagear sua mãe, que o criou sozinha, e sua avó, que viveu até os 108 anos, a quem dedicou seu primeiro trabalho.

Baseado no romance homônimo de Martha Batalha, “A vida invisível de Eurídice Gusmão” acompanha Eurídice e Guida, almas gêmeas, mas que o destino separa e leva para caminhos muito diferentes.

 Voltando atrás

Elas compartilham a frustração de não poderem se realizar e a enorme dor de viverem separadas no Rio. Assim, Eurídice, cujo sonho é ser pianista, luta por anos para ser admitida no conservatório, embora seu pai e seu marido não consigam entender por que uma mulher não quer ficar em casa e cuidar da família. Guida é atingida muito jovem por uma tragédia e precisa formar uma família menos convencional.

“Minha mãe era solteira e quando pequeno não me dei conta de como foi duro para ela. Ao mesmo tempo, tinha a impressão de que as coisas tinham mudado nos últimos 30 anos para as mulheres, mas com o que está acontecendo politicamente no mundo e no Brasil, vejo que estamos andando para trás”, disse o cineasta à AFP na segunda-feira, após exibir seu filme na mostra Um Certo Olhar.

No Rio dos anos 1950 de Ainouz, uma mãe não pode sair do país com seu filho pequeno porque é necessária a autorização do pai. Uma jovem que ainda não quer ter filhos vive com medo de ser abandonada pelo marido. Outra mulher se cala quando o patriarca humilha sua filha.

O filme é uma “denúncia do patriarcado e do prejuízo que pode causar”, disse Ainouz. Mas também “quero evitar apresentar os personagens como vítimas e explorar suas possibilidades de resistência”, acrescentou.

 Novelas como inspiração

“Isso é o mais importante do cinema hoje em dia: mostrar que é preciso resistir e dar esperanças”. Potente em sentimentos, o filme reforça visualmente seu aspecto melodramático com grande densidade de cores e uma atuação com mais cara de teatro.

Sua inspiração: as novelas brasileiras dos anos 1970. “Tenho lembranças maravilhosas daquelas novelas, de seus atores, que vinham, em sua maioria, do teatro. Mas até agora sentia certo pudor para retomar seu estilo. É preciso ser muito cuidadoso para não fazer um filme sem graça”.

Ainouz afirma ter perdido o medo de deixar os sentimentos aflorarem. “As novelas têm força de chegar a um grande público, e não é por acaso que gostam tanto delas no Brasil”, resumiu.

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