Bastidores do apito: a vida do árbitro em jogo

Bastidores do apito: a vida do árbitro em jogo

Por | Edição do dia 10 de maio de 2017
Categoria: Especiais | Tags: ,,,,,,,,,


Arte: Rodrigues

O silvo do apito inicia a partida. Em jogo: dois times e a profissão do árbitro. Com a tarefa de coibir a violência no campo, o funcionário encarregado de conduzir a partida sofre marcação cerrada da torcida, jogadores, dirigentes, imprensa, câmeras filmadoras. Além disso tudo, a arbitragem tem que encarar um ambiente de trabalho de insalubridade, periculosidade, com falta de pagamento, assédio, preconceito e até com ameaça de morte.

De acordo com a súmula da partida entre Lisbonense 0 x 4 Aliança, disputada no dia 8 de maio de 2016, pelo Campeonato Alagoano Sub-20, o árbitro Jonata de Souza Gouveia relatou que o jogador W.V.S.S, que na época tinha 17 anos, ao ser expulso com cartão vermelho direto, o atleta o ameaçou de agressão e de morte o assistente Francisco Raimundo Freitas. No final do documento usado para registrar ocorrências e observações do jogo, Jonata de Souza anotou: “Relato que a partida, tinha uma ambulância, mas não contava com nenhum policiamento ou qualquer outro tipo de segurança”. É dentro deste ambiente que os profissionais da arbitragem alagoana trabalham.

A profissão de árbitro foi regulamentada a partir da Lei nº 12.867/13. Para o presidente da Comissão de Árbitros de Futebol da Federação Alagoana de Futebol (CEAF/AL), Hércules Martins, o “juiz” de futebol continua sendo autônomo. Ele comparou o serviço da categoria a um “bico” e disse que não houve avanço na esfera trabalhista. “O árbitro é considerado um prestador de serviço”, disse Hércules Martins. Segundo o presidente da CEAF/AL, a lei não determina como deve ser o ingresso dos árbitros, a carga horária dos cursos e dos treinamentos, a remuneração fixa, o direito à diária e aposentadoria.

 

Árbitros abandonam a profissão com medo das ameaças

Arte: Rodrigues

Pressão mediante ameaça é um dos principais motivos que fazem os árbitros desistirem da carreira. Em 2016, cinco profissionais da arbitragem alagoana abandonaram o serviço por conta das ameças, segundo dados do Sindicato dos Árbitros de Futebol de Alagoas (Sindafal). O presidente do Sindafal, Pedro Jorge Santos, não quis revelar os nomes dos “homens de preto” que deixaram o trabalho. Hércules Martins disse que estes casos de ameaças sempre vão ocorrer. “Ameaça é uma questão cultural e sempre vai acontecer”, disse Hércules Martins.

Pedro Jorge disse que vai ao Ministério Público Estadual (MPE) e ao Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL) OLHOcomunicar dois casos de ameaças registrados em jogos do time do ASA no Campeonato Alagoano deste ano. Em um deles o árbitro Thiago Nunes relatou que o assessor de imprensa do ASA, Victor Hugo, invadiu o campo e incitou a torcida contra arbitragem, na partida do dia 16 de fevereiro, em que o Alvinegro perdeu por 1 a 0 para o CEO, no estádio Edson Matias, em Olho d’Água das Flores. O outro fato é o do caso registrado na imagem acima e que cita o torcedor identificado como Edmilson Ferreira, que segundo, Pedro Jorge, este suposto integrante da torcida alvinegra teria invadido o vestiário dos árbitros com uma arma em punho.

No ano passado, na partida CSE 0 x 0 Santa Rita, do dia 6 de março, o bandeira Maxwell Rocha registrou que foi ameaçado de não deixar o campo do Juca Sampaio, em Palmeira dos Índios. A ameaça partiu do preparador físico do CSE, Victor Albuquerque. No mesmo ano, em 10 de fevereiro, o árbitro José Reinaldo Figueiredo disse que o deputado estadual João Beltrão foi ao seu encontro, xingando-o, mas o parlamentar foi contido pela polícia, no Gerson Amaral, em Coruripe. O placar do jogo foi Coruripe 1 x 2 ASA.

AMEAÇA FEMININA – Ainda no ano passado, a goleira Rafa do Sete de Setembro xingou e ameaçou o árbitro Jonata de Souza Gouveia, segundo o que está relatado na súmula da partida Sete 0 x 2 CEO, de 18 de dezembro, pelo Alagoano da categoria feminina. “Esse juiz é de briga de galo. Vai apitar briga de galo. Vão a pé hoje. E não é pertinho não”, disse Rafa, de acordo com a súmula.

 

Sem auxílio, alguns param ao se lesionar e outros seguem em campo 

Arte: Rodrigues

Pedro Jorge disse que sofreu ameaças durante o período em que atuou até na arbitragem nacional, mas o que o fez abandonar a profissão por alguns anos foi uma lesão sofrida na região da parte de baixo dos pés. “Durante os jogos eu sentia o incômodo na planta dos pés. A dor foi aumentando, mas como não tinha tempo para tratar das dores, o incômodo virou uma lesão”, disse Pedro Jorge. Como já trabalhava como funcionário público e tinha salário fixo, o ex-bandeirinha não sofreu financeiramente com o período em que ficou sem receber dinheiro das competições que atuava.

A mesma lesão que parou por um tempo Pedro Jorge, aposentou Ticiana Falcão dos gramados. A ex-bandeirinha da categoria Fifa disse que mesmo sofrendo com o problema em seus pés teve que seguir trabalhando. Há sete anos, ela se aposentou e parou uma história construída em 14 anos de carreira.

Ex-bandeirinha Otávio Correa (Foto: Divulgação)

Outro bandeirinha que parou de trabalhar na arbitragem foi Otávio Correa. Em fevereiro de 2015, ele disse que fazia aquecimento minutos antes de entrar para bandeirar o Clássico das Multidões entre CSA e CRB pelo Alagoano. Otávio Correa disse que fez algumas séries de treinamentos que alternavam saltos e corridas de cerca cinco metros de distância. O ex-árbitro assistente disse que ao tocar o gramado após alguns pulos sentiu uma dor no tornozelo e não conseguiu mais movimentar o pé e caiu.

“Quando eu desci após um dos saltos do aquecimento que fazia, eu ouvi um estalo no tornozelo e não tive nem força de ficar em pé. Quando caí no chão, passei a mão na minha perna e vi que a ‘batata’ da minha perna tinha encurtada. A lesão acabou com a carreira de Otávio Correa nos campos que iniciou em 1994 e durou 21 anos.

 

 

Árbitra assistente enfrenta preconceito e assédio

Arte: Rodrigues

FERNANDA FÉLLIX

Bandeirinha Fernanda Félix (Foto: Arquivo pessoal)

Além de passar pelas mesmas situações enfrentadas pelos homens da arbitragem, as mulheres também têm que encarar o machismo e o preconceito. Há três anos, a assistente Fernanda Félix sofre com os xingamentos que menosprezam a capacidade técnica feminina sobre conhecimento das regras do futebol. Para se ter uma ideia, no ano passado, quando ela bandeirava a partida do Alagoano Sub-17 que terminou Agrimag 2 x 0 Zumbi, o técnico da equipe derrotada, Alex Sandro Dias, proferiu as seguintes palavras contra Fernanda Félix: “Aqui não é passarela, nem lugar de mulher! Você não faz nada que preste”, disse o treinador segundo a súmula do dia 9 de setembro do ano passado.

Houve ainda registrado um caso de assédio praticado pelo jogador M. N. S. do Sub-15 do Santa Cruz, no dia 26 de setembro de 2015. Segundo a súmula da partida Santa 3 x 0 Ponte Preta, disputada no Andradão, na Barra de São Miguel, o atleta se dirigiu para o trio de arbitragem no final do jogo “Você é linda”, sendo dito em tom de sedução e ousadia segundo relatou o árbitro Wellington Thiago, que expulsou o garoto em seguida.

Mesmo diante destes fatos, Fernanda Félix disse que nunca pensou em desistir, mas contou que amigas que estavam na arbitragem não suportaram os xingamentos e abandonaram os campos. “Me sinto privilegiada por ter o direito de estar atuando em uma profissão que muitos entendem que somente homens podem cumprir a função. Quanto aos xingamentos registrados nas súmulas, as pessoas que fizeram nunca mais repetiram a atitude contra mim. Sou chata. Nem tudo que escuto, relato para o árbitro central. Há casos que eu mesmo resolvo. Estou para trabalhar e não levar grito”, disse Fernanda Félix, que não sobrevive da arbitragem. Paralela à profissão de bandeirinha, ela se divide nos trabalhos de personal trainer.

 

Vestiário quente e campo irregular compõem ambiente de trabalho

Arte: Rodrigues

Além das ameaças, os árbitros enfrentam outros problemas no ambiente de trabalho. Há reclamações da arbitragem de falta de água, calote, campos com o gramado irregular e vestiários inadequados, que vão de encontro ao que rege a Norma Regulamentadora de número 15 (NR-15), do Ministério do Trabalho e Emprego, que trata da proteção do trabalhador diante de agentes insalubres, como o calor. Segundo a NR-15, o local de descanso deve ser um ambiente termicamente mais ameno.

Mas conforme o árbitro José Ricardo Laranjeira, o vestiário do estádio Olival Elias, em Boca da Mata, não apresenta boas condições climáticas para acomodações para a arbitragem. “Espaço com temperatura altíssima. Precisando urgentemente de melhoria”, relatou Chicão, na súmula do jogo entre Santa Rita e Murici, disputada em 5 de fevereiro deste ano, no Olival Elias de Moraes, em Boca da Mata, pelo Alagoano.

O campo que é outro setor do local de trabalho dos árbitros que apresenta problemas, que podem ocasionar lesões graves. Ao apitar o jogo Miguelense 1 x 4 CRB, em 22 de fevereiro deste ano, pelo Alagoano, o juiz de futebol Francisco Carlos do Nascimento, o Chicão, informou que o gramado do José Gomes da Costa, em Murici, estava muito irregular e os jogadores dos times reclamaram dos buracos. No mês seguinte, o árbitro gaúcho Jean Pierre Gonçalves Lima que apitou o jogo do Murici contra o Cruzeiro, pela Copa do Brasil, também reclamou do gramado e do vestiário do José Gomes da Costa.

O árbitro Denis Ribeiro registrou que no jogo CRB 2 x 1 Coruripe, do dia 19 de março do ano passado pelo Alagoano, não havia água no vestiário do Rei Pelé. “A mesma (água) só chegou no término da partida”, disse Denis Ribeiro na súmula.

CALOTE – Outro dificuldade é a falta de pagamento do serviço prestado. Chicão relatou na súmula que o quinteto de arbitragem não recebeu o dinheiro da alimentação e do transporte, na partida entre Murici 0 x 0 CSE também jogada em 1º de fevereiro. Este jogo foi disputado no José Gomes da Costa, em Murici.

Arte: Rodrigues

MPT/AL apura denúncias da arbitragem

Murici x Santa Rita

Apesar de registrar em súmulas as dificuldades enfrentadas em seu ambiente de trabalho, os árbitros de futebol preferem não relatar os casos aos órgãos competentes como o Ministério Público do Trabalho, em Alagoas (MPT/AL), da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, em Alagoas (STRE/AL) e o Tribunal Regional do Trabalho da 19ª Região. O procurador-chefe do MPT/AL, Rafael Gazzaneo, disse que entre os anos 2011 e 2016, recebeu quatro denúncias relacionadas aos árbitros de futebol, cujas informações relatavam situações de supostas irregularidades trabalhistas, tais como “pagamento por fora”, FGTS, ausência de registro na CTPS, atraso ou não pagamento de salários, além de não repasse das taxas de arbitragem. Destes, três foram arquivados e o processo segue em andamento.

Procurador-chefe do MPT/AL, Rafael Gazzaneo (Foto: Rafael Maia/Ascom).

Rafael Gazzaneo entende que não há vínculo empregatício entre os árbitros e as entidades desportivas diretivas perante as quais atuem. De acordo com o procurador-chefe do MPT/AL, a situação profissional do árbitro de futebol está definida no artigo. 88, da Lei nº 9.615/98 (Lei Pelé), como sendo de trabalhador autônomo. “Dito isto, em razão da inexistência de relação de trabalho entre os árbitros e as entidades desportivas, fica restrita a atuação do órgão do MPT, conforme decisões judiciais já adotadas nesse sentido,”, disse Rafael Gazzaneo.

O superintendente Regional do Trabalho e Emprego em Alagoas, Israel Lessa, disse que o entendimento que prevalece é que a atividade do árbitro de futebol trata-se de trabalho sem vínculo empregatício. Quanto a denúncias, o superintendente disse que a SRTE/AL não tem denúncias relacionadas ao ambiente de trabalho dos árbitros. “Com relação aos vestiários e condições do campo de futebol, esclarecemos que é possível uma fiscalização do Ministério do Trabalho, uma vez os mesmos são utilizados pelos jogadores que, por lei, são empregados dos clubes”, disse Israel Lessa.

Em contato com o TRT-19ª Região, a assessoria de comunicação informou que não há reclamações trabalhistas ingressadas no judiciário.

 

Nenhum árbitro sobrevive somente da profissão

Arte: Rodrigues

Nenhum árbitro alagoano sobrevive somente da arbitragem. O presidente do Sindafal, Pedro Jorge, disse que um árbitro pode chegar a ganhar cerca de R$ 10 mil se for um profissional de elite, ou seja, que consiga escalas para atuar em jogos de campeonatos estaduais e das Séries A e B do Brasileirão. Apesar do valor, Pedro Jorge explica que há os custos que a arbitragem tem que arcar, como ter que em todo o jogo repassar 11% do valor ganho ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), bem como usar uma outra parte do dinheiro em treinamento físico.

APOSENTADORIA – Cada entidade esportiva determina o tempo de aposentadoria. A Fifa estabelece aos 50 anos e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) segue. Já a Federação Alagoana de Futebol (FAF) aposenta os homens de preto aos 45.

A reportagem de site O Dia mostra a seguir o que fazem os árbitros centrais de Alagoas que são categoria CBF – elite da arbitragem nacional -, quando não estão atuando em campo:

Charles Hebert Cavalcante Ferreira
Educador físico e empresário

Denis da Silva Ribeiro Serafim
Empresário

Francisco Carlos do Nascimento
Assessor parlamentar

José Reinaldo Figueiredo
Empresário

José Ricardo Vasconcellos Laranjeira
Educador Físico

Julio Cesar Ferreira Farias
Educador Físico

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