Avós da Praça de Maio recuperam mais um neto sequestrado na ditadura

Por | Edição do dia 6 de outubro de 2016
Categoria: Internacional, Notícias | Tags: ,,,,,


Uma das líderes do grupo das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, anunciou nesta quarta-feira (5) que o grupo conseguiu identificar mais uma criança sequestrada durante a ditadura militar no país. O Neto 121, como são identificados os netos recuperados, é um homem de 40 anos, filho de Ana María Lanzillotto e de Domingo “El Gringo” Menna, ambos membros do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) e do Exército Revolucionário do Povo (ERP), que foram sequestrados pelos membros da ditadura em julho de 1976.

A denúncia sobre o sequestro de Lanzillotto foi feita por uma irmã de Ana María, Irma Ferrara de Menna, que foi para o exílio no México em 1982. Na época, ela afirmou que sua irmã estava “grávida de oito meses e em perfeito estado de saúde”. O bebê era chamado pela família de Gustavo. O casal tinha um filho mais velho chamado Ramiro, que não foi levado pelos militares.

O homem é sobrinho de Alba Lanzilotto, a única integrante da comissão diretora das “Avós” que tinha apenas o sobrinho – e não um neto – desaparecido. Segundo estimativa do grupo, há cerca de 150 argentinos que foram retirados de suas famílias, que lutavam contra a ditadura, ainda bebês e que cresceram sob identidades diferentes.

Reencontro de irmãos

A história do Neto 121 tem um contorno dramático a mais pela relação entre Gustavo, o bebê roubado, e Ramiro, o irmão dois anos mais velho que passou décadas em busca do caçula, procurando o irmão sem saber se ele teria sobrevivido. Quando os pais foram presos, Ramiro foi enviado para um orfanato em Buenos Aires, onde foi encontrado por tios três semanas depois.

Ramiro Menna ainda bebê, com os pais, e hoje com sua família, prestes a reencontrar o irmão (Foto: Agência AFP)

Ramiro Menna ainda bebê, com os pais, e hoje aos 42 anos, prestes a reencontrar o irmão (Foto: Agência AFP)

“Esse é um momento muito esperado pela família, mas por outro lado uma surpresa tremenda. Há situações que se pensa que esse momento nunca vai chegar, mas no final chega. Estamos muito comovidos e mobilizados”, disse Ramiro Menna Lanzilotto a uma rádio argentina na terça (4), quando a notícia da localização de seu irmão começou a circular.

Os avós de Gustavo e Ramiro, que hoje têm 40 e 42 anos, já faleceram. Ramiro é professor e seu irmão, segundo a imprensa, um médico de Buenos Aires. Eles ainda não se viram diretamente.

“Sei que tem dois filhos e que é calvo com barba, como eu. Ainda não o vi, nem falei com ele. Não sei o que fazer porque o que ele está vivendo é muito ruim. Ele soube às sete da noite (de segunda-feira) que não era quem pensava que fosse. É muito difícil e tenho que respeitar o processo que ele está vivendo e que não é nada fácil”, afirmou o irmão mais velho.

“Conhecer a vida de Domingo Menna e Ana Lanzilotto para mim foi motivo de orgulho, exemplo. Meu peito encheu de orgulho e espero que meu irmão sinta o mesmo”, concluiu Ramiro.

“Ladrões de bebês”

Durante a ditadura de 1976 a 1983, dezenas de milhares de ativistas políticos, sindicalistas, profissionais, estudantes e até empresários foram sequestrados, torturados, desapareceram ou foram ameaçados de morte. Estima-se um total de cerca de 400 bebês roubados pelo regime.

A maioria dos 121 netos já recuperados nasceram quando suas mães estavam em cativeiro em 500 centros clandestinos de tortura e extermínio pelo país. A ditadura deixou mais de 30 mil mortos ou desaparecidos na Argentina.

Parentes de desaparecidos mostram jornal antigo com militares onde se lê ‘ladrões de bebês’ (Foto: Victor R. Caivano /AP)

Parentes de desaparecidos mostram jornal antigo com militares onde se lê ‘ladrões de bebês’ (Foto: Victor R. Caivano /AP)

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