Autônomos e outros setores da economia buscam driblar crise provocada pela Covid-19

Por Carol Amorim - Repórter | Edição do dia 3 de maio de 2020
Categoria: Especiais | Tags: ,,,,


Autônomos se adaptam durante período de quarentena. Foto: Reprodução / Internet

A crise provocada pelo avanço do novo coronavírus atinge, principalmente, o sistema de saúde, mas também está causando danos a economia. Empresas e instituições que conseguem produzir à distante, aplicaram o sistema home office para seus funcionários. E autônomos e microempreendedores, também estão buscando formas para se reinventarem em meio a nova realidade. Há quem, movidos pela demanda sanitária, passou a produzir máscaras para vender ou revender álcool em gel e há quem remodelou a prática do negócio durante o momento de quarentena.

Há mais de 30 anos a maceioense Jaisa Silva de Carvalho, 57, trabalha como costureira. Seu foco sempre foi a produção de roupas de festas, mas, devido ao cancelamento de eventos, muitas de suas encomendas foram canceladas. Para aproveitar suas habilidades durante o período de isolamento social e para continuar buscando renda, Jaisa passou a confeccionar máscaras de tecido.

“Eu faço todos os dias, inclusive aos fins de semana, cerca de 30 peças e as revendo para três pessoas. Cada peça eu vendo para elas por R$3,30 e elas revendem pelo preço de R$5,00”, explicou. Ela conta que consegue dar conta das encomendas dessa forma, já que trabalha sozinha.

As últimas grandes encomendas de roupa que Jaisa teve foi durante o carnaval, contou. Ela também disse que, ao depender da época do ano, costumava arrecadar cerca de R$2.500 em um mês e que, agora, devido à crise provocada pelo novo coronavírus, sua renda com costura foi muito reduzida.

Apesar disso, Jaisa conta que está conseguindo manter as contas em dia, já que recebe outra renda proveniente de pensão.

Outra autônoma que se reinventou durante a quarentena foi a também maceioense Sthefany Fortunato, 30. Desde o fim do ano passado ela passou a revender aromatizantes para carros. Antes disso, ela cuidava da casa. Mas decidiu investir na revenda de produtos para ajudar nas contas.

“Com o início da quarentena, clientes meus começaram a perguntar se eu vendia álcool em gel também. Por causa disso, passei a comprar para revender e deu certo. No começo as vendas foram maiores, agora estão razoáveis”, relatou. O álcool em gel revendido por Sthefany custa R$20,00 e vem num frasco de 500ml. Quem deseja o produto, encomenda a ela e ela faz a entrega à domicílio.

A chef Ianara Valença, além de continuar com encomendas de bolos e doces, passou a dar aulas de culinária online. Foto: Arquivo Pessoal

Assim como Jaisa, a maceioense Ianara Valença também tinha uma grande demanda do seu negócio a partir das realizações de eventos. Ela é chefe de cozinha e tem seu foco na produção de doces finos e bolos. Seu trabalho, desde janeiro, é feito apenas por encomenda e, paralelo as entregas dos produtos, ela também dava cerca de 15 aulas presenciais e mensais para ensinar técnicas de culinária aos interessados.

“Com a quarentena, me readaptei. Passei a produzir kits menores de festa, para que as pessoas de casa mesmo comemorem alguma data especial e também passei a dar aulas do meu curso online, por meio de lives. Faço lives tanto gratuitas, como privadas, que são mais direcionadas a quem realmente quer se aprofundar”, contou.

Ianara também revela que ter parceria com uma marca de chocolates também está a ajudando para que consiga se readaptar na quarentena.

“Tem lives que faço no perfil da marca que tenho parceira e com isso e as outras mudanças, consigo manter com os meus compromissos como as contas de casa, insumos e também busco deixar alguma reserva em caixa para caso as coisas fiquem mais difíceis lá na frente”, relatou.

Para o período pós-quarentena, ela disse que deseja que o mercado possa se recuperar o mais breve possível.

Mercado

Em uma pesquisa divulgada pelo Sebrae no último dia 30 de abril, foi apontado que a pandemia afetou 98% do setor de eventos e que, para driblar a crise, 35% dos empresários ouvidos negociaram crédito para realizar os eventos cancelados futuramente. O estudo também aponta que 51% das empresas optaram pelo trabalho on-line e que 33% deram férias aos seus funcionários. Outras 43% dispensaram os servidores. E 64% dos entrevistados não pretendem dispensar funcionários nos próximos três meses.

Essa pesquisa foi realizada entre os dias 14 e 22 de abril por meio de uma parceria entre a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc) e a União Brasileira dos Promotores de Feiras (Ubrafe).

De acordo com Marcos Alencar, gerente de relacionamento empresarial do Sebrae Alagoas, as empresas mais tradicionais, que não se adequaram ao modelo de negócio digital, deverão sofrer mais as consequências da crise do momento e que algumas empresas deverão fechar devido a falta de clientes e, consequentemente, de arrecadações. Mas apesar desse fato, Marcos aponta uma solução.

“Em momento de crise muitas empresas tenderão a fechar pela falta de cliente, pela falta de recursos para manter, mas não significa dizer que o empresário perdeu a sua capacidade de se reinventa e a partir dessa capacidade, buscar implementar na empresa um novo modelo de negócio”, expôs.

E por falar em modelo de negócio digital, Marcos conta que, desde dia 23 de março, subiu em 10% a venda de consultoria do Sebrae voltada para essa adequação. Além disso, ele reforça que o Sebrae também tem consultoria gratuita para quem desejar saber novas dicas para superar o momento atual.

“Nós estamos trabalhando com o objetivo de fazer com os pequenos negócios, na retomada, possam retomar com segurança e entrando com as normas de segurança e higiene, tanto no comércio, indústria e serviço, para que clientes e funcionários possam ter a maior segurança possível”, revelou.

Perspectivas de segmentos pós-crise do novo coronavírus. Foto: Sebrae

Economia

O economista Reynaldo Rubem afirma que ainda é cedo para estimar a velocidade com a qual a economia do país irá se recuperar após a crise provocada pelo novo coronavírus. Foto: Reprodução / Vídeo / TV Ponta Verde

O economista e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Reynaldo Rubem Ferreira Júnior, conta que, na opinião dele, ainda é cedo para prever com qual velocidade a economia irá se recuperar, apesar de muitos economistas apostarem na recuperação lenta.

Mas, para além dessa questão, Reynaldo aponta que a crise provocada pelo novo coronavírus trará novas lições, como a necessidade de investimento na saúde e na educação; que os setores econômicos não serão atingidos da mesma forma e que o setor informal ou de prestação de serviços autônomos estão fortemente comprometidos. Na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), haviam quase 40 milhões de brasileiros na informalidade, pontuou Reynaldo.

“Assim, do ponto de vista do setor de saúde, uma lição importantíssima dessa crise é que a assistência médica à população deve ser universalizada e financiada com recursos públicos. Grande parte dos danos à saúde das pessoas provocado pelo Covid-19 deve-se aos efeitos das políticas de austeridade nas áreas de educação e saúde”, contou.

O economista ainda chama atenção para o fato de que há uma dependência dos países ocidentais na importação de testes, respiradores e máscaras faciais de países asiáticos. Ele diz que essas importações refletem a deficiência dos países ocidentais em produzir os próprios insumos para cuidados na área da saúde.

Já sobre os autônomos e pequenas empresas, ele reflete: “Estas pessoas foram duramente atingidas nesta crise e só poderão sobreviver se obtiverem uma renda mínima, como os R$ 600,00 aprovados pelo Congresso, que contribui em parte para atenuar o sofrimento desses setores vulneráveis, e, no caso das micro e pequenas empresas, se tiverem linhas de crédito subsidiadas”.

O economista ainda opinou sobre o serviço delivery ao dizer que essa modalidade não é suficiente para compensar o impacto da crise no setor de serviços porque parte desse setor depende de aglomerações, como o caso dos shoppings, aeroportos, hotéis, bares e restaurantes, o comércio em geral.

Por fim, Reynaldo aponta que a velocidade da recuperação dependerá do tempo de quarentena e que o isolamento social é imprescindível para evitar o colapso do sistema de saúde e para que assim, vidas possam ser preservadas. Além do isolamento, ele também chama a atenção para a necessidade de eficácia das políticas públicas de preservação da estrutura da economia, “assegurando renda básica para os setores mais vulneráveis, tratamento diferenciado para as MPEs e transferências do governo federal para estados e municípios, que tem sofrido colapsos em suas arrecadações”.

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