Aulas à distância: da adaptação à exposição da desigualdade durante a pandemia

Com as recomendações para o isolamento social, escolas tiveram que se adaptar durante a pandemia

Aulas à distância: da adaptação à exposição da desigualdade durante a pandemia

Com as recomendações para o isolamento social, escolas tiveram que se adaptar durante a pandemia

Por Carol Amorim - Repórter | Edição do dia 17 de maio de 2020
Categoria: Especiais | Tags: ,,,


Após as recomendações e decretos estadual e municipais que instauraram a suspensão de diversas atividades, inclusive as aulas presenciais, para o controle do contágio pelo novo coronavírus, diversas instituições passaram a adotar o ensino à distância. Para que o estudante continue a aprender neste momento, até mesmo as instituições que não possuem modalidade EAD estão implantando outras formas de fornecer conteúdos educativos aos estudantes. Apesar dos esforços em se adaptar, pessoas e entidades, demonstram preocupação com essa forma de ensino.

Devido a pandemia, a escola da pequena Emilly passou atividades para serem feitas em casa. Foto: Erika Messias

Helida Messias é mãe de uma criança de 6 anos, a Emilly Bianka, que cursa o primeiro ano do Ensino Fundamental. Quando as aulas de Emilly foram suspensas, a escola particular onde ela estuda informou aos pais que atividades seriam passadas todos os dias para os estudantes, como as lições de casa, por meio de um aplicativo de mensagem. A rotina durou algumas semanas, durante o mês de abril, e depois a escola deixou de recomendar as lições e informou que um simulado seria feito em breve com os alunos.

“Eles mandavam as atividades por um grupo, os alunos tinham que fazer e nós, os pais, enviávamos as respostas. Não durava muito tempo o momento de fazer a atividade, porque não eram como aulas normais. Mas era complicado para a minha filha manter a concentração e até mesmo lembrar o que já havia aprendido na escola”, relatou.

Helida conta que a escola não chegou a informar se adiantaria as férias dos alunos, mas confessou que pensa na possibilidade de cancelar a matrícula de Emilly para que ela refaça o primeiro ano no ano que vem.

“Tem pais de outros alunos que ainda trabalham, não tem tempo de ensinar as crianças as atividades. Então, para mim, essas aulas não estão servindo. Não vi desenvolvimento no aprendizado da minha filha”, contou.

Helida ainda aguarda um novo posicionamento da escola quanto a organização de novas atividades e disse que houve abatimento de 30% no valor da mensalidade dos estudantes.

Ensino médio

Para o jovem Eduardo, as aulas das disciplinas de exatas são as mais difíceis para serem acompanhadas à distância. Foto: Nexo / Reprodução

Para quem cursa o ensino médio, a adaptação ao ensino à distância também está sendo árdua. Eduardo Lima, 15, está no segundo ano, também estuda em um colégio particular de Maceió, mas já estava se preparando para o Enem deste ano. E apesar das incertezas e dificuldades de concentração, ele está tentando manter uma rotina de estudos.

“Estamos de recesso, porém está havendo aulas, destinadas ao Enem, tendo em vista o cenário atual do MEC em relação ao exame. A metodologia que o colégio adotou não faz o uso de câmera. Com isso, a atenção acaba sendo menor. As aulas presenciais permitem uma troca maior de contato aluno-professor. Mas sem dúvidas a maior dificuldade são as matérias de exatas junto a física. Ver os cálculos nos slides e não poder ter uma grande interação é complicado”, relatou.

Ele conta que seus colegas também estão sentindo dificuldades com as aulas à distância e que alguns já confidenciaram sentir frustração com as aulas, a sensação de improdutividade e até mesmo estarem com o sono desregulado. Em meio a essas dificuldades, Eduardo também aponta que manter o Enem neste contexto de pandemia é ato anti-democrático.

“É completamente controverso ao tema tratado na redação de 2019, “democratização”. Se não houver adiamento do exame será completamente anti-democrático, tendo em vista os níveis de desigualdade social que o nosso país tem. Até hoje não chega comida em todas as mesas, quem dirá internet a todos os estudantes”, enfatizou.

Ensino superior

Jessyca mora com seis pessoas, dois cachorros e sente dificuldades para se concentrar nos estudos durante a pandemia. Foto: Internet / Reprodução

Desde o fim de março a estudante de enfermagem, Jessyca Lins, 27, está tendo aulas à distância por meio da plataforma EAD da instituição privada que ela frequenta. Ela conta que antes da pandemia, ia ao estágio durante o dia e a noite ia para a faculdade para ter aulas práticas e teóricas. Agora, todas as disciplinas que ela precisa cursar no 10º período da graduação, estão sendo feitas à distância.

“A questão da concentração está bem complicada por questões de adaptação mesmo, pela quantidade de pessoas que tem em casa. As aulas produtivas só são com os professores mais conectados e que tem uma dinâmica do manuseio da internet. Quanto aos professores que não tem essa habilidade, as aulas não são produtivas”, revela.

Jessyca mora numa casa com seis pessoas e com dois cachorros que, segundo ela, fazem barulho no horário da aula. Além disso, ela também conta que não possui local adequado para estudar, o que dificulta ainda mais a adaptação com o ensino à distância.

Regularização do ensino à distância durante a pandemia

Eduardo Vasconcelos, presidente do Sinpro AL, afirma que o ensino à distância é a melhor alternativa no momento. Foto: Sandro Lima / Tribunal Independente

Nesta semana, uma decisão judicial determinou que as escolas particulares de Maceió reduzam suas mensalidades em 30% ou possibilitem a suspensão de contratos sem cobrança de multas. A decisão foi resultado de uma Ação Civil Pública (ACP) em desfavor de 148 escolas privadas, movida pelo Ministério Público de Alagoas (MPAL). Um abaixo-assinado online, com assinaturas de pais e estudantes, chegou ao MPAL para que fossem adotadas providências que disciplinassem e reequilibrassem as obrigações das instituições de ensino privado.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Professores de Alagoas (Sinpro), Eduardo Vasconcelos, os educadores e instituições privadas foram pegos de surpresa com a ACP porque uma regulamentação do ensino à distância durante a pandemia já havia sido protocolada no Ministério Público do Trabalho (MPT), para que professores sem e com recursos técnicos pudessem ministrar as aulas à distância em segurança.

Apesar disso, na ação movida pelo MPAL, ainda consta a reclamação dos pais em pagar a mensalidade integral para receber o serviço que não está sendo prestado como foi contratado anteriormente, ou seja, de forma presencial.

Por causa do atual momento, Eduardo Vasconcelos avalia que as aulas dadas à distância é a única alternativa possível.

“O que a gente é contrário é que muitas Instituições insistem em tentar reproduzir no mundo virtual a sala de aula física e isso é completamente danoso porque é cansativo, é cansativo para o professor. É comprovado cientificamente que uma aula remota equivale a quatro aulas presenciais. Por isso que tivemos o cuidado de regulamentar tanto o trabalho do professor que não tem condições técnicas como aquele que trabalha na própria casa”, relatou.

Vasconcelos ainda contou que as instituições de ensino superior, que já tem uma plataforma desenvolvida para ministrar aulas à distância, estão conseguindo passar o conteúdo “de uma forma muito mais didática e efetiva, do que muitas instituições de ensino básico”.

Após 15 dias de férias e reestruturação, as aulas das escolas particulares – ao menos das que estavam envolvidas na decisão judicial – devem recomeçar no próximo dia 19, de forma online.

Desigualdade no ensino

Maria Consuelo Correia, presidente do Sinteal, alerta sobre as desigualdades que as aulas à distância expõem no atual momento. Foto: Reprodução / Internet

Se a adaptação ao ensino à distância está difícil para quem estuda em instituições particulares, para quem depende do ensino público há barreiras ainda maiores, como aponta a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal), Maria Consuelo Correia.

“Tem muitas famílias que não tem nem o que comer. As vezes uma casa tem apenas um membro com celular e ele trabalha. Quando vai trabalhar, leva o celular. E ainda tem os pais que são analfabetos, não poderão ajudar os filhos com as lições. Então, nós não somos a favor do ensino à distância. As aulas podem ser compensadas posteriormente. Nós já fizemos greve de cerca de 60 dias e conseguimos cumprir depois com o calendário”, disse.

As aulas presenciais das redes municipal e estadual foram suspensas após a publicação dos decretos de emergência. Mas, atividades à distância, estavam e estão sendo repassadas aos alunos.

Correia informou que nesta semana, teve uma reunião com a secretaria Ana Deyse, da Secretaria Municipal de Educação (Semed), juntamente com outras entidades da educação, para expor as preocupações e recomendações das entidades com relação ao ensino, aos estudantes e professores. Ela disse que o município foi sensível as demandas das entidades e que o município informou sobre a possibilidade de parceria com a TV Educativa, para que atividades, não obrigatórias, para manter os estudantes motivados, sejam repassadas.

Com o estado, Correia afirma que o diálogo está sendo mais difícil, que um ofício foi encaminhado, mas que o sindicato não obteve resposta. Por causa disso, o Sinteal pretende acionar o MPAL para intermedir as demandas, já que o sindicato recebeu denúncias de que as atividades à distância que estão sendo fornecidas pelo estado estariam contando como horas deste ano letivo. Fato este negado pelo estado.

Diante do cenário de pandemia e da desigualdade ainda maior que ficou visível entre as possibilidades de ensino da escola pública e privada, Correia ainda se posiciona, em nome do sindicato, contra a manutenção da data do Enem deste ano. Ela, assim como diversas entidades nacionais, apoiam o adiamento da prova.

Resposta do Estado e do Município

O município de Maceió e o governo do estadual estão traçando estratégias para lidar com o ensino diante da paralisação provocada pelo novo coronavírus. Foto: Valdir Rocha

A Secretaria de Estado da Educação (Seduc) informou que estabeleceu para a rede estadual de ensino, no dia 7 de abril, o Regime Especial de Atividades Escolares Não Presenciais (REAENP), um documento que orienta como as atividades escolares devem ser realizadas neste momento de pandemia. Cada unidade de ensino construiu um plano de ação para o REAENP, com atividades que serão desenvolvidas, objetivos, metodologia, ferramentas estratégicas de acompanhamento e avaliação dos estudantes, professores envolvidos e carga horária para cada atividade.

“Neste primeiro momento de execução do REAENP, as atividades desenvolvidas não deverão ser registradas no Sistema de Gestão Escolar (SAGEAL) e não serão consideradas para cálculo dos dias letivos referente ao ano letivo de 2020”, enfatizou.

A Seduc ainda explicou que, para o REAENP, os educadores estão sendo capacitados por coordenadores pedagógicos e articulares de ensino e que essas capacitações incluem as temáticas sobre encontros virtuais, lives e webinários.

Além disso, as treze Gerências Regionais de Educação estão pesquisando o número de alunos que estão participando das atividades não presenciais para identificar diversos pontos e montar melhores estratégias.

Sobre os alunos com dificuldades de acesso à internet e às tecnologias, a Seduc relata, em uma matéria publicada na Agência Alagoas, que professores prepararam apostilas impressas e que elas foram entregues aos estudantes. Um dos casos especificados pela secretaria foi o material feito pelos professores da Escola Estadual Indígena Mata da Cafurna, em Palmeira dos Índios.

A apostila possui questões para que os estudantes respondam em casa. Posteriormente, a apostila é buscada para ser corrigida e um novo material é entregue. O telefone para contato com os professores também é disponibilizado.

Por fim, a Seduc informou que está construindo um protocolo de retorno pós-pandemia, mas não detalhou como seria esse protocolo.

Já a Semed informou que um plano sobre as aulas municipais está sob discussão e confirmou que uma parceria com a TV Educativa está sendo definida.

Sobre as horas do ano letivo, a Semed explicou que “somente será efetivado perante o Parecer do Conselho Municipal de Educação, que é o órgão normativo do Sistema Municipal de Educação” e que o Conselho irá decidir o que será computado, que inclui “tempos de aulas ofertados antes do retorno e tempos presenciais e não presenciais ofertados de forma concomitante, após o retorno das atividades escolares”.

Em ambas as redes, kits com merendas escolares estão sendo distribuídos as famílias dos estudantes.

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