Às margens: A prostituição como sustento de travestis no interior de Alagoas

Devido ao preconceito, falta de apoio e oportunidades, travestis e transexuais ainda buscam sobrevivência por meio da prostituição

Por Carol Amorim - Repórter | Edição do dia 2 de agosto de 2020
Categoria: Especiais | Tags: ,


A rodovia BR-101 como espaço de sobrevivência para quem a usa para atuar na prostituição. Foto: Prefeitura de Teotônio Vilela

A falta de oportunidades e o preconceito estão entre as causas que fazem com que travestis e mulheres transexuais tenham a prostituição como única ou uma das poucas opções para o sustento financeiro. Em cidades do interior de Alagoas, como Teotônio Vilela, com cerca de 44 mil habitantes, há menos postos de trabalho quando comparado a capital. No município, as margens da rodovia BR-101 já se tornaram locais de trabalho para travestis e transexuais da cidade e regiões circunvizinhas, que atuam como garotas de programa.

Augusto atualmente é instrutor de dança no município alagoano. Foto: Arquivo Pessoal

Augusto dos Santos, 30, já foi Mila, uma garota de programa que ficava em um posto de combustíveis da cidade, às margens da BR-101, a espera de um cliente, possivelmente, caminhoneiro. Há cerca de três anos, Augusto montou um estúdio de dança e, atualmente, trabalha como instrutor e também atua como influenciador digital. Em uma única rede social, onde costuma compartilhar suas vivências, ele acumula mais de 5 mil seguidores.

Para sair da prostituição e ter mudando o rumo da sua vida, ele contou com o apoio do dono de uma academia de ginástica da cidade, que conheceu Augusto – na época ainda conhecido como Mila -, e uma outra transexual que também atuava como garota de programa.

“Ele convidou a minha amiga para dar aulas de dança na academia. Essa minha amiga disse que toparia se eu fosse junto e ele acabou aceitando. Pouco tempo depois, essa minha amiga faltou em uma das aulas e fui convidado a assumir. A minha primeira aula foi experimental, o pessoal gostou e assim que comecei, larguei a prostituição”, contou.

Nessa época, Augusto se considerava mulher e dava aulas como Mila. Como garota de programa, ele conseguia ganhar cerca de R$1mil por mês. Já na academia, seu salário não ultrapassava os R$200. Apesar da diferença de valores, o instrutor encarou o desafio e viu como uma oportunidade para largar a prostituição, algo que ele já desejava.

“O meu pai era cortador de cana e eu sentia a necessidade de comprar coisas de menina”

Antes, Augusto se identificava como mulher e era conhecido como Mila. Foto: Arquivo Pessoal

Augusto foi criado pelos pais adotivos e só soube disso anos depois, quando era um jovem adulto. Ele também perdeu a mãe adotiva aos 10 anos de idade e passou a viver somente com o seu pai de criação.

Abalado com a morte da mãe e iniciando uma nova fase da vida, Augusto disse que desejava conhecer o mundo e que um tempo depois, por volta dos 15 anos, fez amizades com pessoas que o apresentou a prostituição.

“Eu sentia a necessidade de comprar coisas de menina e o meu pai não me dava dinheiro para isso. Na época, eu achei que para ser gay, eu tinha que me vestir como menina e comecei aos poucos, até que uma vez, depois de voltar para casa tarde e ter dormindo com uma roupa de menina, o meu pai me viu”, contou.

Ele disse que o pai não o aprovava travestido com roupas que são remetidas ao sexo feminino, mas que, apesar disso, o pai nunca o tratou com violência ou desprezo.

Com o tempo, o pai também percebeu que o filho atuava na prostituição e, ainda assim, não o abandonou, apesar de, novamente, não aprovar a escolha do filho. Augusto conta que o pai chegou a dar-lhe conselhos para que se protegesse na rua.

Quando perguntado se ele acreditava que o apoio do pai foi determinante para que ele almejasse outros caminhos, ele disse que sim. Augusto também confessou que às vezes se veste como drag queen, geralmente na parada do orgulho LGBTQIA+ da cidade, mas que não sente mais vontade de se travestir o tempo inteiro como antes.

As marcas da marginalização e da opressão

Augusto relata que as dificuldades que viu e viveu quando atuava como garoto de programa. Foto: Internet/Imagem Ilustrativa

O professor de dança ainda contou que, quando atuava na prostituição, existiam dois grupos separados na pista. Um ponto, onde fica um posto de combustíveis, era destinado aos travestis e transexuais e outro, mais escondido, próximo a povoados, e já na zona rural da cidade, ficavam as mulheres cisgênero (mulheres que se identificam com as características biológicas dadas ao sexo feminino).

No espaço onde ficava, destinado aos travestis e transexuais, ele conta que algumas colegas chegavam a cobrar R$5, R$10 por um programa e que pessoas que condenavam a prostituição e a transexualidade, já jogaram restos de comida no grupo e, até mesmo, óleo queimado.

Muitas colegas de Augusto também não tinham o apoio da família ou outras oportunidades e usavam a bebida e as drogas como fuga.

Nessa época, o ex-garoto de programa também havia largado os estudos e chegou a ser abusado sexualmente em uma festa da cidade.

“Os meus amigos me encontraram chorando. O homem havia se aproveitado de um momento que sai de perto dos meus amigos e me ameaçou com uma arma. Depois desse dia, não quis mais me vestir de menina”, revelou.

Ele conta que, pouco tempo depois desse episódio, surgiu a oportunidade de trabalhar na academia. E que, atualmente, se sente uma pessoa mais feliz. Além de trabalhar com o que gosta, no momento, o instrutor continua próximo do seu pai e está casado com outro rapaz.

Em busca de novas oportunidades

Brenda Marquiore, 22, atuou como garota de programa no mesmo período em que Augusto atuou. Ela ainda atua nessa profissão, mas não mais na cidade do interior de Alagoas. Atualmente Brenda vive em Aracaju, Sergipe, e disse que saiu de Teotônio Vilela para buscar novas oportunidades.

“Já tentei outras oportunidades sim, mas não deram muito certo por conta do preconceito. Penso muito em buscar outras oportunidades, mas a maior dificuldade como já citei é o preconceito”, afirmou.

Ela conta que nesse momento da pandemia da covid-19, em que ações tiveram que ser tomadas para promover o distanciamento social, seu trabalho ficou mais difícil, já que ela não tem outra função para exercer.

Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), no Brasil, cerca de 90% das travestis e mulheres transexuais ainda vivem na prostituição.

O psicólogo aponta o preconceito e falta de apoio como obstáculos. Foto: Arquivo Pessoal

Ao analisar esse cenário em Alagoas, o psicólogo Edvan Filho (CRP-15/5269) aponta que os obstáculos como a falta de oportunidades no mercado de trabalho e a falta de apoio da família à um parente LGBTQIA+, ambos devido ao preconceito, fazem com que pessoas trans e travestis enxerguem a prostituição como um meio para se manterem.

“Os fatores emocionais, uso de drogas, todas essas possibilidades de vivência, são, muitas vezes, para se ter uma sobrevivência e esconder a dor da não aceitação da família, do trabalho, da sociedade. No país que mais mata LGBTQIA+, as pessoas trans e travestis são as mais atacadas, por falta de compreensão, de educação e da ignorância social”, pontuou.

Ele ressalta que, diante das marcas adquiridas na luta pela sobrevivência, há casos de pessoas que atuam na prostituição e que não acreditam mais na possibilidade de mudança para uma vida com mais conforto.

Apesar disso, ele relembra que, atualmente, a luta LGBTQIA+ teve avanços significativos e que existem casas de apoio, ONGs e outros projetos que buscam reinserir a pessoa trans e travesti no mercado de trabalho e dá apoio na busca por outros direitos.

Apoio e fortalecimento das diversidades

A Semudh afirma atuar com ações para fortalecer a diversidade. Foto: Joanna de Ângelis / Ascom Semudh

A Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh) foi contatada pela reportagem para saber se há alguma ação específica da secretaria que visa qualificar e inserir a população de travestis e transexuais no mercado de trabalho e se há algum outro tipo de ação de acolhimento dessa população.

Por meio de nota, a Semudh informou que realiza a escuta de denúncias e que acompanha processos relacionados à violação dos direitos humanos. A secretaria também apontou que promove seminários e palestras junto às secretarias estaduais e que mantém diálogos com o Ministério Público Trabalho e com instituições de ensino superior e municípios do estado para a realização de ações de apoio e fortalecimento das diversidades para que os espaços de violência e exclusão sejam minimizados.

“Em janeiro de 2020 a Secretaria também firmou acordo de apoio ao projeto Trans Equality, uma iniciativa de capacitação da população trans e travesti que visa a formação profissionalizante e a contratação por meio de diálogo com a iniciativa privada”, informou ainda em nota.

O projeto Trans Equality, atualmente, atua em Maceió. A reportagem entrou em contato com a iniciativa para saber se há planos para que ocorra a interiorização dessas ações e foi informada de que o projeto possui essa proposta, mas que ela ainda será discutida com a Semudh.

Após a matéria ser publicada, o responsável pelo projeto Trans Equality, Jorge Fernando, entrou em contato com a reportagem e informou que não há acordo formal entre o projeto e a Semudh. E que, por tanto, o projeto não é contemplado com possíveis verbas da secretaria. A parceria entre projeto e Semudh se tratou de um acordo informal, pontuou o responsável pela iniciativa. “A parceria ainda está em diálogo para o firmamento de possíveis acordos”, afirmou.

 

*Matéria atualiza às 12h14 do dia 2 de agosto de 2020.

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